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Primeiro bombardeamento de Berlim
II Guerra Mundial / Frente Ocidental
25-08-1940

Este acontecimento teve inicio em: 25-08-1940 e terminou em 25-08-1940
Vencedor: Reino Unido

Forças em presença:

Reino Unido

Alemanha / III Reich



Ao fim da tarde de 25 de Agosto de 1940, teve inicio uma operação por parte da Royal Air Force britânica em que 95 bombardeiros de três tipos descolaram de bases no sul de Inglaterra dirigindo-se para leste a coberto da noite em direcção à Alemanha.
A operação parecia temerária, mas teve consequências tremendas a nível psicológico tanto na Grã Bretanha como na Alemanha, e embora muito menos publicitada, poderia ser comparada ao raid Doolittle sobre Tokyo em 1942.

O jornalista americano William Shirer estava em Berlim e deu conta do que se passou do lado alemão. Segundo Shirer, a artilharia anti-aérea alemã era muito poderosa, disparou muito para o ar, mas nem um único avião foi abatido. Não só não foi abatido, como as luzes de pesquisa anti-aérea não conseguiram detetar um único avião.

O alarme foi dado às 00:20, mas a mais violenta resposta da artilharia anti-aérea aos bombardeiros ocorreu por volta das 02:15, altura em que vários aviões britânicos voaram diretamente sobre o centro da cidade, alegadamente mesmo por cima da chancelaria do Reich.
O sinal sonoro a assinalar o fim do raid ouviu-se pelas 03:20 da madrugada. Os alemães ficaram espantados pois a rádio tinha avisado que mesmo que os britânicos conseguissem bombardear áreas nos arrabaldes de Berlim, o centro da cidade nunca seria atingido.
Tinha mesmo sido dada indicação aos berlinenses de que não precisavam proteger-se quando soassem as sirenes de aviso e que só quando ouvissem a artilharia anti-aérea teriam que se proteger.
Hitler e Goering tinham garantido que a capital do Reich nunca seria atingida por aviões inimigos.

Jornalista norte-americano William Shirer: O mundo ficou a saber do espanto dos alemães através das suas cronicas para a CBS americana.
Alemães atónitos
Os danos foram muito reduzidos, mas do ponto de vista psicológico afetaram profundamente os habitantes de Berlim. Pela primeira vez desde que a guerra começara, os dirigentes alemães tinham faltado ao prometido.

O bombardeamento transformou-se em conversa de café, e os alemães, que tinham saudado semanas antes a chegada de Hitler a Berlim, após a assinatura da paz com a França, julgando que a guerra tinha acabado, tiveram dúvidas, pela primeira vez.

O objectivo dos bombardeiros era o aeroporto de Berlim (Tempelhof) e a zona industrial de SiemensStadt. Um total de 95 bombardeiros foram lançados contra a capital alemã, embora apenas 81 deles tenham efetivamente conseguido bombardear Berlim.
A RAF contava para esta operação essencialmente com os bombardeiros Vickers Wellington de dois motores e capacidade para transportar 2.000kg de bombas. A aeronave tinha autonomia para 3.540km, e em termos de distância percorrida dava-lhe uma capacidade para quase no limite atingir Berlim e voltar. Além do Wellington, foram utilizados bombardeiros Hampden fabricados pela Handley-Page e que podiam transportar um pouco mais de 1,000kg de bombas e bombardeiros noturnos Whithley fabricados pela Armstrong-Withworth e que tinham capacidade para transportar mais de 1500kg de bombas desde Inglaterra até Berlim.

Casa destruida em Berlim após o ataque: Embora os estragos tenham sido mínimos, o efeito do bombardeamento foi devastador para a moral alemã.
Fúria e raiva de Hitler

A qualidade dos sistemas de navegação da altura - e ainda mais de noite - não era boa e o resultado foi que várias bombas acabaram por atingir alvos civis, tendo morrido dez alemães durante o bombardeamento.
Hitler ficou profundamente irritado com o facto e culpou Herman Goering, que tinha afirmado que Berlim jamais seria bombardeada por qualquer avião inimigo.
Essa afirmação de que a Alemanha nunca seria atacada, condicionou aliás o desenvolvimento de caças interceptores, que só muito tarde começaram a ser desenvolvidos pelos alemães.

Os pilotos foram classificados de criminosos de guerra e Goering deu ordens para que se iniciassem de imediato ataques de retaliação contra Londres.

Hitler, ficou ainda mais irritado quando após o primeiro ataque, outros ataques se seguiram contra a capital alemã durante a semana. Em 1 de Setembro, num discurso perante altos dignitários do Reich, Hitler afirmou:

«... E se a RAF lançar dois mil ou três mil, ou quatro mil kg de bombas, então nós lançaremos 150, 180, 300 ou 400 mil kg, e sim, um milhão de quilos de bombas numa só noite[1]. E se eles declararem que aumentam o seus ataques, então não só apagaremos as cidades britânicas do mapa. Acabaremos com o negócio destes piratas noturnos. Chegará a hora em que um de nós quebrará, e não será a Alemanha nacional-socialista ...»

Churchill, Dowding e Portal. O primeiro-ministro, o chefe do comando de caças da RAF e o chefe do comando de bombardeiros. Churchill e Portal eram favoráveis à utilização de bombardeiros e Dowding (ao centro) opunha-se.

Especula-se que para justificar o primeiro bombardeamento de Berlim, os britânicos utilizaram um erro de navegação alemão que terá resultado no bombardeamento involuntário de Londres. Na realidade os britânicos aparentavam estar numa situação crítica com os campos de aviação da RAF destruidos. Mais alguns dias sem mudar a estratégia alemã de atacar os aerodromos da RAF e os caças britânicos não poderiam descolar por falta de pistas.
Dúvidas sobre a motivação britânica

Desde que começara a batalha de Inglaterra, que os britânicos se debatiam com a pressão alemã. Apenas uma semana antes do bombardeamento de Berlim, os alemães tinham iniciado a operação final para colocar a RAF fora de acção e durante essas operações em que milhares de aviões alemães atacavam a Grã Bretanha a partir de bases na Europa continental, vários aviões alemães, mercê dos fracos sistemas de pontaria da época largaram as suas bombas em áreas civis.

O bombardeamento sobre Berlim foi interpretado inicialmente como uma retaliação, mas várias análises posteriores afirmam que foi provavelmente uma provocação deliberada, destinada a atrair os bombardeiros alemães contra as cidades inglesas, para assim dar algum «folego» à RAF, que durante a semana e meia que decorreu entre 13 de Agosto e 25 de Agosto tinha sido fortemente atingida.

Na verdade, fosse qual fosse a razão, a partir do dia seguinte, iniciam-se os bombardeios noturnos contra a cidade de Londres, numa operação que os britânicos apelidaram de «Blitz»

Consequências estratégicas do bombardeamento

Uma questão pouco analisada e estudada, é a das consequências dos bombardeamentos britânicos sobre a Alemanha e especialmente sobre Berlim.

Molotov para Ribbentrop em Berlim: Se está tão seguro que a Inglaterra está acabada, o que estamos a fazer neste abrigo ?
Um dos mais curiosos episódios ligados a este assunto, e à continuação dos ataques britânicos diz respeito às relações entre a União Soviética e a Alemanha.
No final de 1940, a Alemanha tentava garantir a neutralidade da União Soviética na guerra, tendo já como objectivo o possível conflito que se avizinhava. Numa viagem a Berlim do ministro soviético Molotov, este foi assediado pelos alemães com pedidos para que a URSS se juntasse à Alemanha, afirmando sempre que a questão do Reino Unido estava já decidida e que a Grã Bretanha estava derrotada.
Os alemães propuseram mesmo dividir o império britânico oferecendo a Índia aos soviéticos como área de expansão.
Quando decorrem as negociações, um alerta aéreo leva a que alemães e russos se retirem para o abrigo anti-aéreo, para continuarem a discutir a questão.

Perante a continuação da insistência alemã em afirmar que a Grã Bretanha estava condenada, o ministro russo pergunta ao seu interlocutor alemão, Von Ribentrop porque razão se encontra no abrigo anti-aéreo.

A Alemanha, com a sua capital bombardeada, mesmo que a percentagem de acertos fosse mínima não conseguia afirmar a sua superioridade

Hitler Franco e Gibraltar

Outro interlocutor que os alemães pretendiam convencer a juntar-se à Alemanha era o ditador espanhol Francisco Franco, cuja facção política tinha recebido um fortíssimo e determinante apoio dos nazistas alemães, que lhe permitiu ganhar a guerra.


Francisco Franco: O ditador espanhol considerava seriamente a entrada na guerra ao lado da Alemanha. O bombardeamento de Berlim, terá ajudado a convence-lo do contrário.
A possibilidade de Franco se aliar a Hitler era enorme e vista como provável entre Junho e Agosto. Quando a Itália declarou guerra à França e quando a França caiu, esperava-se a entrada do ditador espanhol na guerra.
No entanto, a partir do final de Agosto de 1940, enquanto decorriam as negociações para a entrada da Espanha na guerra e para a tomada de Gibraltar, os alemães notaram uma aparentemente modificação da posição da Espanha. O acolhimento às ideias hitlerianas passou a ser mais frio e não tão seguro. O apoio de Franco ao seu mentor Hitler, perdeu muita da sua inicial determinação e a vontade de combater ao lado dos alemães contra os britânicos, sofreu um rude golpe.

O bombardeamento sobre Berlim demonstrou a capacidade britânica para bombardear a própria capital alemã. Este foi um argumentos devastador quando se tratou de pressionar Franco e os seus generais a não hostilizar a Grã Bretanha durante o resto do conflito.



[1] - A Alemanha não tinha nem nunca teve capacidade para efetuar um ataque com essas características. No entanto o bombardeamento de Berlim fez com que as dúvidas que os responsáveis militares alemães tinham sobre os bombardeiros pesados desaparecessem rapidamente.