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25 de Novembro, o fim do Verão Quente
Conflitos internos /golpes / revoluções
25-11-1975

Este acontecimento teve inicio em: 25-11-1975 e terminou em 25-11-1975
Vencedor: Nenhum

Forças em presença:



Quando os comunistas tomaram completamente o poder em Julho de 1975, teve inicio em Portugal um processo de contestação ao governo comunista, que culminou com as movimentações militares de 25 de Novembro.

Com o triunfo das forças democráticas em 25 de Novembro, foi interrompido um processo dito revolucionário. Segundo as declarações públicas do primeiro ministro comunista Vasco Gonçalves, a pequena vanguarda comunista portuguesa estava a desempenhar o papel normal das vanguardas na instauração do socialismo. O líder comunista apelou também aos militares comunistas para apoiarem o Partido Comunista e impor a vontade da «vanguarda revolucionária», se necessário pela força.

Antecedentes

A situação em Novembro de 1975 tinha-se tornado explosiva.
O primeiro-ministro comunista, depois de uma experiência falhada de governo constituído apenas por comunistas pró-soviéticos (5º governo provisório) havia sido demitido com a pressão dos sectores conservadores, socialistas, social-democratas e também da esquerda radical trotsquista, maoista e marxista-leninista, que temia a tomada do poder pelos comunistas pró-soviéticos da linha estalinista.

O comunista Vasco Gonçalves (à esquerda) chefiou quatro governos provisórios, mas a pressão dos partidos do centro-esquerda à direita forçou a sua demissão.

Truculento, facilmente influenciável e esquizofrénico, Vasco Gonçalves viu-se sozinho apoiado apenas pelo seu partido.
O próprio esquerdista Otelo, aconselhou-o a descansar e a curar-se.

Pinheiro de Azevedo(à direita), foi apoiado pelos partidos do centro-esquerda à direita, que representavam quase 80% do eleitorado. Ele substituiu Vasco como primeiro ministro, mas o PCP e os esquerdistas lançaram de imediato uma campanha fortíssima para exigir a sua demissão.

Pinheiro de Azevedo, seco e de poucas falas, ficou famoso por ter mandado à Bardamerda os comunistas que o chamavam de «Fascista» e por ter declarado que o governo estava em greve, até que os comunistas o deixassem governar. A greve do governo, foi um dos factores que apressou o golpe de 25 de Novembro
Mas se os comunistas pró-soviéticos tinham perdido o cargo de primeiro-ministro, continuavam a controlar através da força alguns dos principais órgãos de comunicação social, entre os quais a televisão e várias rádios e jornais.
Os comunistas também detinham posições entre os militares, controlando por exemplo a força de fuzileiros navais e as instalações da marinha no Alfeite, margem sul do rio Tejo, frente a Lisboa.

Tendo perdido o controlo direto do governo, os comunistas pro-soviéticos desenvolveram então esforços para preparar a tomada do poder pela força das armas, tendo como objetivo extinguir a Assembleia Constituinte e esvaziar assim de poder, o principal símbolo da derrota eleitoral comunista que tinha ocorrido nas eleições de Abril de 1975, onde os comunistas tinham obtido apenas 12.5% dos votos.

Com esse objetivo os comunistas pro-soviéticos criaram a 25 de Agosto uma aliança (FUR – Frente de Unidade Revolucionária) com alguns partidos da extrema esquerda radical, que não tinham tido votos mas que tinham capacidade para «tomar as ruas» através da violência.

Os pró-soviéticos criam ainda os SUV (Soldados Unidos Vencerão), grupo clandestino de militares comunistas que pretendia conter a extrema-esquerda militar fora do controlo pró-soviético.

No entanto, os comunistas pró-soviéticos enfrentavam uma oposição considerável e crescente.

Por um lado havia forças contrárias aos comunistas, ligadas aos militares moderados (conhecidos como grupo dos nove, à volta dos quais se juntaram muitos dos capitães que tinham feito o golpe de 25 de Abril, como tinha sido o caso de Salgueiro Maia). Este grupo tinha feito pública a sua oposição ao processo revolucionário liderado pelos pro-soviéticos do PCP.

Por outro lado havia as forças da extrema esquerda comunista radical não ligada aos soviéticos, parcialmente lideradas por Otelo Saraiva de Carvalho, que tinha coordenado as operações em 25 de Abril de 1974 e que detinha o controlo sobre as forças militares operacionais na região de Lisboa.

A resposta popular ao aumento da pressão do Partido Comunista também se fez sentir. A 13 de Julho de 1975, a população da pequena cidade de Rio Maior, cerca de 80km a norte de Lisboa, revolta-se contra as ocupações selvagens de pequenas propriedades agricolas por trabalhadores ligados ao partido comunista pro-soviético.
As sedes locais dos comunistas são destruídas e automaticamente a imprensa em Lisboa, controlada pelos comunistas, acusa a população da cidade de ser constituida por arruaceiros fascistas.

Rio Maior, vai-se assim transformar num símbolo da resistência popular à tentativa de tomada do poder pelo Partido Comunista Português. A palavra de ordem que mais se escuta em Portugal a norte, ficará célebre: Portugal é do povo não é de Moscovo. O confronto parece cada vez mais inevitável.

A caminho da guerra civil

As movimentações dos três grupos acima referidos, levaram a que os três se preparassem para a confrontação armada que viam como inevitável.
Entre Setembro e princípios de Novembro, há uma «contagem de armas» em que cada uma das fações se prepara para a guerra como pode.

Manifestação de 16 de Novembro, nove dias antes do golpe, organizada pelo partido pró-soviético.

Ao fazer demonstrações de força, o Partido Comunista pretendia demonstrar a sua capacidade para controlar a rua e assim impedir a oposição democrática de protestar.
As forças democráticas e conservadoras, preparam planos e secretamente o Ten.Cor. Ramalho Eanes, assume o comando das forças operacionais. O seu nome só será conhecido depois do 25 de Novembro.
Decidem não tomar a iniciativa e agir apenas se o Partido Comunista tomar alguma acção contra a legalidade democrática.

As forças com que contam são consideráveis, mas a sua força mais operacional é o Regimento de Comandos. Poderia contar também com viaturas blindadas da EPC (Escola Prática de Cavalaria) em Santarém, 60km a norte de Lisboa.

Também contam com as principais unidades da força aérea, as quais podem no entanto ser tomadas pelos comunistas (são por isso feitos planos de contingência para transferir os caças F-86, alguns FIAT G-91 e F-84 para o norte de Portugal).

As restantes forças que a fação conservadora poderia juntar encontram-se principalmente no norte do país.
Se for declarada a «Comuna de Lisboa» essas forças não poderão tomar a capital. E tradicionalmente quem controla Lisboa manda no país.

Por essa razão, também são desenvolvidos planos de contingência para transferir a sede da Assembleia Constituinte para o Porto, reunindo ali os deputados, caso Lisboa seja controlada pelos comunistas pró-soviéticos.

O esquerdista radical Otelo Saraiva de Carvalho e o comunista pró-soviético Álvaro Cunhal.

Otelo deteve o comando operacional do golpe militar de 1974 e acreditava ser uma espécie de Messias revolucionário. Controlava o COPCON (Comando Operacional do Continente) mas foi demitido na madrugada de 24 para 25 de Novembro de 1975.
A sua demissão será o principal rastilho da intentona revolucionária ainda que na aparência Otelo não tenha chegado a dar qualquer ordem aos revoltosos.

Já Alvaro Cunhal era mais cauteloso. Sabia que o movimento não contava com o apoio militar soviético e sem ele a revolta só poderia triunfar se tivesse o apoio maioritário dos militares. Sem esse apoio Cunhal saiu a tempo do golpe, ainda na manhã de 25 quando as forças esquerdistas já estavam na rua.

A traição de Cunhal nunca foi perdoada pela extrema-esquerda portuguesa.
Do lado comunista a situação é complexa, porque o campo radical está dividido entre comunistas pró-soviéticos e esquerdistas radicais, maoistas, trotskistas e a genérica «esquerda folclórica» com características não determinadas.

Estas forças, possuem na região de Lisboa do poder importante dos Fuzileiros Navais (influência do PCP), do Regimento de Artilharia de Lisboa (influência mista PCP / esquerdistas) e também das forças para-quedistas da base aérea de Tancos a 110km a nordeste de Lisboa, normalmente conotadas com a extrema-esquerda.

Cruzador Soviético Kynda: Muitos comunistas pro-soviéticos portugueses acreditavam que se a União Soviética aceitasse colocar alguns navios de guerra da esquadra do Mar do Norte em Lisboa, apenas durante o periodo de inverno, isso seria suficiente para atemorizar quaisquer forças anti-comunistas e garantir o controlo de Lisboa, e com Lisboa, todo o país.

Onde não fosse possível intervir com a influência dos navios, a força de fuzileiros controlada pelo Partido Comunista, seria enviada para «pacificar» os contra-revolucionários



Nos primeiros dias de Novembro de 1975 a situação é explosiva e espera-se inicialmente um golpe da esquerda para o dia 16.

O golpe foi preparado para por termo à transferência de poder que lentamente se estava a processar para o governo de Pinheiro de Azevedo, tentando pacificar o país e suster os excessos revolucionários.

Sabendo que se não fizer nada, acabará sendo removida da área do poder, a extrema-esquerda e o Partido Comunista através da FUR consideram uma operação golpista, para controlar Lisboa, tomar a Assembleia e declarar a Comuna de Lisboa e um Estado Socialista.

As forças da esquerda moderada, do centro e da direita são avisadas e entre 13 e 14 de Novembro, a maior parte dos deputados é evacuada para o Porto, para evitar que a Assembleia fique nas mãos dos comunistas.
Porém, o golpe desse fin-de-semana é aparentemente cancelado. Os deputados voltam a Lisboa, sem no entanto saber que em vez de ter sido cancelado, o golpe apenas tinha sido adiado.

A extrema esquerda é cada vez mais contestada e a figura de Otelo Saraiva de Carvalho é contestada. A sua demissão do Comando Operacional do Continente (COPCON) é pedida pelos militares mais conservadores.

O Golpe


Militares da extrema-esquerda revolucionária na Base Aérea nº 3 em Tancos, o comando da força de helicópteros da FAP. A impulsividade da extrema esquerda, contrastou com a cautela dos comunistas pró-soviéticos.
Na madrugada de 25 de Novembro de 1975, forças militares da extrema-esquerda saem da base de para-quedistas de Tancos.
Os comunistas pró-soviéticos, conhecedores da movimentação, reunem de emergência o comité central às 03:30 da madrugada desse dia.

04:00 da madrugada, é confirmada a demissão de Otelo Saraiva de Carvalho da chefia do Comando Operacional do Continente, retirando à extrema-esquerda este posto militar de importância estratégica.

Quase à mesma hora, os movimentos da extrema esquerda emitem um comunicado a afirmar que chegou a hora dos trabalhadores mostrarem o seu poder. O objetivo é o de esmagar a besta fascista, aludindo a uma manifestação de agricultores anti-comunistas, que tinha erguido barricadas a 40km a norte de Lisboa e à demissão de Otelo Saraiva de Carvalho.

04:30 - ocorre a primeira ação de contenção do golpe, quando quatro Chaimites do Regimento de Comandos (afeto às forças democráticas) montam guarda ao Palácio Presidencial em Belém.

05:00 – Unidades blindadas fiéis às forças democráticas saem do regimento de Cavalaria de Estremoz e da EPC (Escola Prática de Cavalaria) de Santarém, em direção a Lisboa

06:00 – Tendo conhecimento desta movimentação militares esquerdistas do RALIS (Regimento de Artilharia de Lisboa) tomam posições defensivas na entrada norte de Lisboa, no aeroporto da Portela e no depósito de material de guerra em Beirolas. A movimentação dos blindados ocorrerá porém apenas no dia seguinte..

06:00 – 08:00
Forças dos para-quedistas tomam as instalações militares do DGACI de Monsanto (07:00)
Forças dos para-quedistas (extrema-esquerda) controlam a base de Tancos.
Forças também dos para-quedistas tomam as bases aéreas de Monte-Real, Montijo (Margem sul do Tejo) e Ota.

08:00 – As forças revolucionárias da extrema-esquerda tomam posições importantes, mas torna-se claro que o Presidente da República (cuja posição era indefinida) decidiu contrariar o golpe revolucinário.

09:00 – O Presidente da Republica reune-se de emergência com o Conselho da Revolução para analisar a situação.

10:00 – O Partido Comunista apercebe-se que a situação, embora aparentemente favorável aos revolucionários não tem saida, desde que o Presidente decidiu contrariar o golpe. O PCP dá ordens à sua principal unidade operacional, os Fuzileiros Navais, de que «não é a altura para avançar».

12:00 - O presidente convoca Otelo Saraiva de Carvalho para que se apresente no Palácio de Belém.

14:00 - 16:00 - O Presidente da República manda que vários comandantes de unidades militares da região de Lisboa se apresentem no Palácio de Belém.

15:00 - Otelo Saraiva de Carvalho (desistindo de comandar os revoltosos) apresenta-se ao presidente.

16:00 – Depois de se informar sobre quais as acções que serão levadas a cabo pelos comunistas pró-soviéticos e pela central sindical comunista (CGTP), o Presidente da República declara o «Estado de Exceção» na Região Militar de Lisboa.

16:30 – Tropas do Regimento de Comandos (fiéis às forças democráticas) preparam-se para atacar a base de Monsanto, o Regimento de Artilharia de Lisboa e unidades do Regimento de Artilharia de Costa (aparentemente fiéis aos revoltosos da extrema-esquerda).

16:30 - O presidente manda emissários às instalações do comando da Força Aérea em Monsanto pedindo a rendição dos revoltosos, mas sem sucesso.

17:00 - Forças da EPAM (Escola Prática de Administração Militar) (extrema esquerda) tomam as instalações da Televisão. A emissão passa a ser constituída por bailados revolucionários e música clássica.

17:00 – Populares da região de Leiria cercam a base de Monte-Real, que tinha sido tomada pelos para-quedistas da extrema-esquerda e impedem a sua utilização.

19:15 – Os para-quedistas em Monsanto rendem-se às forças do Regimento de Comandos.

Capitão Duran Clemente, da extrema-esquerda revolucionária: Fim da emissão.
21:10 – Ocorre o mais conhecido incidente da revolta para quem assistia televisão. O capitão esquerdista Duran Clemente, que lia um comunicado revolucionário é interrompido e a emissão da RTP (Rádio Televisão Portuguesa) a partir de Lisboa, passa a ser assegurada a partir dos estúdios no Porto. A programação, que transmitia música sinfónica e um balet revolucionário (ao estilo chinês) prosseguirá depois com um filme americano com Danny Kaye.

No entanto o controlo do sinal de televisão tinha sido mais complexo que o que parecia.
As forças da extrema esquerda controlavam os estudios da RTP no Lumiar em Lisboa, mas quando as forças da esquerda revolucionária são cercadas no quartel de Monsanto, toda a área fica sob controlo das forças democráticas, que assim passam também a controlar o principal posto emissor de televisão em Lisboa que se encontra nas proximidades.

É aparentemente por essa razão que essas forças tiveram capacidade para cortar a emissão do Lumiar, substituindo-a pela emissão dos estudios da RTP na cidade do Porto.
Embora controlassem o principal estúdio da televisão pública, os revolucionários da extrema-esquerda não tinham como colocar o sinal de televisão no ar.

Ao controlar o sinal de televisão, as forças democráticas podem então começar a regularizar a situação anunciando uma comunicação do Presidente da República.

Costa Gomes: Presidente da República, era visto como um moderado, relativamente favorável ao Partido Comunista. Em 1 de Outubro de 1975, Gomes visitou a União Soviética. No dia 2, numa conversa com Leonid Brejnev, este terá dito a Costa Gomes que a URSS não interviria na situação portuguesa.
Com este tipo de dado em mão, Costa Gomes teve capacidade para influenciar as decisões do dirigente comunista Alvaro Cunhal, demovendo-o de participar ativamente no golpe de estado iniciado pela extrema-esquerda.
21:30 – O Presidente da República dirige uma comunicação ao país, com o esquerdista Otelo Saraiva de Carvalho a seu lado.

Dia 26 de Novembro

00:30 – A Base aérea da Ota volta ao controlo das forças democráticas.

01:00 – Populares da extrema-esquerda cavam trincheiras junto às instalações da Policia Militar na Ajuda, a apenas 500m (quinhentos metros) do Palácio Presidencial.

02:00 – Não tendo conseguido o controlo completo da situação, forças de infantaria vindas do Porto de Vila Real e de Braga, preparam-se para marchar sobre Lisboa.

07:20 – Os comandantes do Regimendo de Policia Militar são convocados para se apresentarem ao Presidente da República, 500m mais abaixo, mas um plenario de militares revolucionários determina que o Presidente deve primeiro explicar as razões da convocação.
Um militar da presidência dá a palavra de honra de que os oficiais esquerdistas não serão presos e dois deles (Maj. Mário Tomé e Maj. Cuco Rosa) apresentam-se no palácio às 08:00 .

08:15 – Quinze minutos depois, os militares do Regimento de Comandos tomam de assalto o quartel do Regimento da Polícia Militar. Durante o assalto morrem dois militares, um Tenente e um 2º-Furriel.

Os comandantes da Policia Militar, contrariando a promessa dada, receberão ordem de prisão durante essa manhã.

Também durante a manhã, o comandante do RALIS apresenta-se ao presidente e é detido.

10:00 – Blindados chegados da Escola-prática de Cavalaria de Santarem, controlam o Depósito-Geral de Material de Guerra.

À tarde, os Fuzileiros Navais, que não tinham aderido ao golpe por indicação do Partido Comunista cumprem ordens recebidas do Presidente para tomarem posições no forte de Almada e dispersam uma manifestação de populares junto ao seu quartel.

Por volta das 16:00 a EPAM (Escola Prática de Administração Militar) rende-se

Ao fim da tarde, a Base Aérea do Montijo volta ao comando da 1ª Região Aérea.

O golpe de 25 de Novembro tinha terminado.
Os militares que iniciaram a revolução democrática de 25 de Abril de 1974 tinham impedido uma guerra civil, ao mesmo tempo que indiretamente se tinham oposto à instalação de um regime comunista em Portugal.