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Invasão franco-espanhola de 1807
Guerras napoleonicas
17-11-1807

Este acontecimento teve inicio em: 17-11-1807 e terminou em 17-11-1807
Vencedor: França

Forças em presença:

França

Espanha

Reino de Portugal



17 de Novembro, marca a data da primeira invasão a Portugal no período das guerras napoleonicas sob o comando do general Junot. A invasão é efectuada pelas forças francesas e por tropas espanholas. Enquanto os franceses se dirigem para o centro com Lisboa como objectivo, o contingente espanhol inflecte para norte com o Porto como objectivo.
A primeira invasão francesa, divide-se em duas partes.

-1- A chegada dos franceses propriamente dita, em os portugueses evacuam o Rei e a corte Lisboa para o Brasil, mas consideram pelo menos formalmente a França como país aliado.
-2- A resposta às decisões de Napoleão, em face da impossibilidade de efectivamente controlar um país, que continuava a ter toda a sua administração, corte e monarca fora do alcance da França.

A primeira fase da invasão foi começada pelas forças francesas, nos termos de uma aliança estabelecida entre franceses e espanhóis, na qual o Reino de Portugal seria dividido em três parcelas e que recebeu o nome de «Tratado de Fontaineblau».

Também em cumprimento desse acordo, em 22 de Novembro os franceses afirmam que a Casa de Bragança deixou de reinar em Portugal, abrindo do ponto de vista jurídico o precedente para a posterior divisão do país e em 23 de Novembro, as forças francesas passam por Abrantes, no centro de Portugal.

Para garantir a parte espanhola no Tratado de Fontaineblau com a França, forças espanholas vindas da Andaluzia invadem Portugal entrando por Elvas em 1 de Dezembro e em 13 de Dezembro forças espanholas vindas da Galiza ocupam o Porto.

Mapa que resultaria do Tratado de Fontainebleau entre o renegado espanhol Godoy e Napoleão. É para garantir a sua parte na divisão de Portugal, que os espanhóis se juntam às forças napoleónicas na primeira fase da invasão.
As tropas francesas têm uma força total de 24.000 homens e era constituida por três divisões de infantaria, uma divisão de infantaria e um destacamento de cavalaria com 38 canhões.

O exército português no papel tinha uma força considerável, mas na realidade não estava minimamente preparado para resistir às forças invasoras francesas. A falta de eficiência do exército já tinha sido notada na guerra das laranjas em 1801, mas a situação em 1807 conseguia ser pior, pois nenhuma reorganização tinha sido efectuada, e desta vez tratava-se de uma invasão em que as principais forças eram francesas.

Encontrou-se uma formula de aceitar a entrada francesa como «visitante» com a aceitação por parte dos portugueses das exigências francesas, tendo o caminho de Junot ficado praticamente aberto, ainda mais que na sua condição de país neutral, Portugal não podia mobilizar um exército para não antagonizar nenhuma das partes em conflito.
Mas embora sem oposição portuguesa os franceses encontraram dificuldades para atravessar as péssimas estradas portuguesas e com a aproximação das forças francesas foi desencadeada a operação de evacuação da família real para o Brasil.

A fuga da família real
Uma das mais controversas consequências da invasão das forças francesas e espanholas - que não deixava qualquer dúvida sobre as intenções efectivas de franceses e espanhóis quanto a Portugal – foi a retirada da família real portuguesa.


Muitas vezes criticada por historiadores como uma debandada apressada, sabemos hoje que a operação começou a ser planeada ainda em Agosto de 1807, seguindo planos que já existiam antes para retirar a família real do continente em caso de invasão.
Mapa da primeira fase da invasão, efectuada por forças francesas e espanholas


A operação era extremamente complexa, decorreu em segredo, e a sua dimensão e rapidez foi notável quando se tem em consideração que os franceses só entenderam que não seriam capazes de prender o Rei de Portugal removendo a Casa de Bragança do trono quando o rei já não se encontrava em Lisboa.

Os navios de guerra portugueses que transportaram a família real, não podiam dar protecção à esquadra, porque para transportar grande quantidade de pessoas e víveres para a longa viagem, era necessário remover a maior parte dos canhões, sendo que os navios também necessitavam de modificações no seu interior. Estas alterações tinham que ser feitas em segredo para evitar que qualquer modificação transpirasse.

Quando chegou a notícia de que a 17 de Novembro o exército franco-espanhol tinha invadido Portugal, a intenção de Napoleão tornou-se muito clara:
Declarar que a Casa Real de Bragança já não governava em Portugal, aprisionar a familia real portuguesa, dividir o país em vários pedaços e colocar no trono monarcas fiéis a Napoleão.

Perante esta situação os planos mantidos secretos foram colocados em prática.

A esquadra já estava preparada e a família real embarcou a bordo do navio de linha, «Príncipe Real», que era o mais poderoso navio da armada portuguesa, armado com 90 canhões mas que para a operação de evacuação tinha a sua capacidade militar muito reduzida.

A evacuação da família real para o Brasil. A operação de evacuação de 15.000 pessoas em apenas alguns dias e praticamente em segredo levou a que a fase final da evacuação própriamente dita fosse confusa. No entanto pelas suas características e por ter decorrido no inicio do século XIX, foi um sucesso de organização.
A corte e funcionários do estado, embarcaram nos restantes navios, tendo no total sido transportadas 15.000 pessoas. Os navios portugueses contaram com o apoio de navios britânicos. No total, a esquadra comportava 57 navios, dos quais 17 navios de guerra portugueses (adaptados na sua maioria para o transporte de pessoas) e 13 britânicos, a que se somavam 27 outros navios de transporte. A corte saiu de Lisboa a 29 de Novembro de 1807.

De entre os navios portugueses destacavam-se o Galeão ou Nau «Príncipe Real» de 90 canhões, e os galeões Rainha de Portugal, Conde D.Henrique, Medusa, Afonso de Albuquerque, D.João de Castro, Príncipe do Brasil e Martin de Freitas (armados com 74 canhões). Constituíam ainda a esquadra, quatro fragatas de 40 ou 48 canhões, cinco brigues com 18 a 24 canhões além de três escunas e três charruas.

Dos 13 navios de guerra britânicos, 9 voltaram para garantir o bloqueio de Lisboa logo que a esquadra chegou a meio caminho entre Lisboa e a Madeira, pois embora a esquadra francesa, juntamente com a esquadra espanhola tivessem sido dizimadas em Trafalgar, ainda se temia a possibilidade de uma resposta por parte dos franceses.

Quando as tropas francesas chegaram a Sacavém, às portas de Lisboa, o general Junot foi recebido por um membro da nobreza portuguesa que tinha ficado para trás, que terá recebido o general francês com toda a pompa, tendo afirmado que «Sua Majestade incumbiu-me de apresentar a V.Exa. desculpas por não o poder receber pessoalmente, mas assuntos urgentes levaram a que se tivesse que ausentar para o Brasil».

A frota dirigiu-se primeiro à Madeira e posteriormente à cidade de Salvador da Bahia, onde chegou no dia 22 de Janeiro de 1808, cinquenta e três dias após a saída de Lisboa.
De notar que, o Príncipe Regente, ainda na Bahia decreta seis dias depois, a 28 de Janeiro de 1808 a abertura de todos os portos brasileiros à navegação das nações amigas, determinando os impostos a aplicar.
A Corte ficará em Salvador da Bahia durante um mês e a 26 de Fevereiro parte da Bahia em direcção ao Rio de Janeiro onde chega nove dias depois a 7 de Março.

O príncipe regente foi recebido efusivamente pelos cidadãos. A transferência da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro, transformava aquela cidade da América do Sul, na capital do império português.

Napoleão

Habituados a submeter os monarcas europeus com facilidade, os franceses não gostaram de ter sido tratados daquela forma. Na verdade, embora tivessem tomado a capital de Portugal, não tinham capturado a família real, nem a administração pública, o que na prática implicou a transferência da capital do país para o Brasil, continuando o regente do trono a governar as possessões portuguesas a partir do Rio de Janeiro.

Para piorar as coisas, a decisão portuguesa de abandonar Lisboa era uma afronta porque negava à França o mais importante dos despojos de guerra que Napoleão queria obter: A esquadra portuguesa constituída por mais de quarenta navios, trezes dos quais de grande porte, com os quais Napoleão contava para ajudar a França a bloquear o comércio britânico.

Inicialmente os franceses receberam algum apoio de parte da sociedade portuguesa que via com esperança as ideias francesas de liberdade, igualdade e fraternidade. Junot fez promessas de desenvolvimento, que foram avidamente aceites por parte das elites portuguesas embora tivessem sido acolhidas com desconfiança pelas classes baixas.

Mas as promessas francesas duraram pouco. Em 1 de Fevereiro de 1808, ou dois meses depois de os franceses terem chegado a Lisboa, Napoleão decretou o fim da Junta de Regência, que tinha nominalmente o poder e determinou pura e simplesmente a anexação dos países da península ao Império Francês.

Começou então a oposição aos franceses, que resultaria na sua derrota e expulsão.


A evacuação da família real
Complexidade logística

Poucos episódios da história de Portugal, são estudados e referidos de forma tão depreciativa quanto a «fuga» da família real portuguesa para o Brasil.

A importância da operação é absolutamente determinante quer para a História de Portugal, que para a História do Brasil. Do ponto de visto jurídico e da diplomacia o Reino de Portugal continuava a existir e ao contrário do que acontecera em Espanha, Napoleão não tinha legitimidade para tomar (ou usurpar) a coroa. Portugal mudava a corte para o Rio de Janeiro, deixando a Napoleão uma Lisboa desprovida dos seus títulos de Capital do Império português.

A referência a uma fuga apressada e descoordenada, é outro dos aparentes «disparates» - porque lhe podemos chamar disparates - postos a circular de forma mais ou menos maliciosa por vários sectores, nomeadamente pelos liberais, que acusavam o monarca de ter abandonado o país.

É nisto perene, o historiador Oliveira Martins (1845 - 1894), cujos méritos noutros temas não podem ser negados, mas que nesta questão trata a operação num tom jocoso e completamente impreciso. O historiador chega a alhear-se - propositadamente ou não - das realidades e das dificuldades da navegação no inicio do século XIX, dando a impressão de que a operação não passou de uma fuga desordenada.

Tal alegação, oculta a dificuldade logística inerente a uma operação de muito grande envergadura como a da evacuação da corte de Portugal para o Brasil em 1807.

Qualquer operação de evacuação é uma dor de cabeça logística e quando se trata de evacuar pessoas a uma distância de 8.000Km, essa dificuldade é exponencialmente multiplicada.

Mais incrível ainda, é que os navios portugueses tiveram que ser alterados em segredo para permitir a acomodação de milhares de pessoas. Navios de guerra viram os seus canhões arrumados e os seus interiores adaptados. Estas modificações decorreram ao longo de três meses, sem que nada tivesse transpirado.

Para efectuar a evacuação de civis do Líbano em 2006, muitos países europeus não tiveram capacidade para evacuar em tempo útil os seus nacionais, nem sequer para a ilha de Chipre, que dista apenas 250Km do Líbano. Duzentos anos antes, Portugal efectuou uma operação de evacuação de emergência, dando aos habitantes de Lisboa a noticia de que iam ser evacuados com pouco mais de uma semana de antecedência.

Mesmo passados duzentos anos, poucos países no mundo estão em condições de efectuar operação idêntica à levada a cabo pelos portugueses em 1807, mudando não só parte da corte e da administração, mas também a própria capital do país para outro continente.

Sendo verdade que a operação decorreu com a azáfama e a confusão e mesmo caos, normais numa operação de evacuação, pela forma como foi feita e pelos resultados dali resultantes, não é possível deixar de chamar-lhe um quase inacreditável sucesso.
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