Sociedade / Política


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Espiões no frio do ar condicionado
Ex comunista, lembra ligações com a antiga RDA e com a espionagem russa.
14.08.2012


A ex militante do Partido Comunista Português, Zita Seabra, veio na semana passada lembrar a ligação dos comunistas portugueses com as redes de espionagem que a União Soviética e a chamada República Democrática Alemã, criaram, suportaram e sustentaram durante anos em vários países da Europa Ocidental até à queda do muro de Berlim.

Aquela ex dirigente comunista, que fazia parte do chamado núcleo duro do PCP[1], afirmou que uma das empresas controladas indiretamente pelos comunistas portugueses, a empresa FNAC, que fabricava equipamentos de ar condicionado, era vista pela RDA como uma empresa estratégica.

As afirmações e consequentes comentários levam a crer que existe a possibilidade de a empresa, que era suportada por capitais provenientes da antiga Alemanha Comunista, facilitava a instalação de equipamentos em gabinetes vistos como mais sensíveis.
A FNAC, vendia equipamentos de ar condicionado para organismos governamentais e também para os militares.


Apoios conhecidos

É publico, que na segunda metade da década de 1970, após o conturbado momento político em que Portugal esteve à beira da guerra civil, o Partido Comunista Português recebeu enormes quantias em dinheiro e foi fortemente apoiado pela União Soviética e pelos partidos comunistas dos países da Europa de Leste.

Os vastíssimos recursos disponibilizados pelos soviéticos, permitiram ao Partido Comunista o desenvolvimento de campanhas publicitárias e promocionais de custos elevadíssimos.

Estima-se que em 1979, a capacidade financeira do PCP ultrapassava a de todos os outros partidos portugueses juntos. Nesse ano o partido conseguiu atingir 19% dos votos nas eleições parlamentares, atingindo quase 21% nas eleições para as autarquias que se seguiram.

O Partido Comunista Português, possuía uma espécie de Holding de empresas controladas indiretamente pelo partido, as quais facilitavam a entrada dos capitais que financiavam as atividades políticas e campanhas. A FNAC era por assim dizer, uma das «tetas» do partido e uma das principais empresas do grupo económico que os comunistas portugueses administravam de forma brutal e com mão de ferro, pagando salário mínimo à maioria dos trabalhadores e não autorizando nunca greves ou contestações laborais.

Dívida de gratidão

O apoio soviético e alemão de leste aos comunistas portugueses durou muitos anos, e entende-se como pagamento de uma dívida de gratidão que Leonidas Brejnev tinha para com o líder comunista português (admirado na capital russa, por causa das suas ideias conservadoras e opostas a qualquer mudança no caminho da revolução soviética) pelo apoio que Cunhal tinha dado à URSS e a Cuba, para facilitar (principalmente em Angola) a tomada do poder pelas forças comunistas.

Quando em 1975 todos os antigos territórios do chamado Ultramar Português se tornaram independentes, eles passaram a ser controlados por partidos comunistas controlados direta e indiretamente pela União Soviética e grande parte desse controlo deveu-se ao Partido Comunista Português e o seu líder, Alvaro Barreirinhas Cunhal.
Os comunistas portugueses organizaram uma gigantesca campanha de desestabilização em Portugal, destinada a garantir um tal clima de convulsão social, que tornasse (como tornou) impossível aos portugueses abandonarem os seus antigos territórios em ordem.

Com o apoio do PCP e de Barreirinhas Cunhal, a saída dos portugueses de África transformou-se num catastrófico êxodo, com as tropas portuguesas a abandonarem os territórios africanos que ficaram assim sem administração e sem segurança.

Os movimentos próximos da União Soviética aproveitaram rapidamente o vazio e o Partido Comunista deu ordens diretas aos seus militantes, entre os quais se encontrava o almirante Rosa Coutinho (conhecido como o almirante vermelho) para tudo fazerem para facilitar a tomada do poder pelos movimentos pró-soviéticos.

No entanto, no final de 1975, quando a situação em Portugal se tornou insustentável, como resultado da convulsão social que o Partido Comunista tinha ajudado a criar, a União Soviética informou secretamente Alvaro Barreirinhas Cunhal, de que não poderia ajudar os comunistas portugueses a tomar o poder pela força, como Cunhal tinha preconizado.

Até ali, muitos dirigentes comunistas estavam convencidos de que, se o PCP conseguisse controlar Lisboa, teria o apoio militar da esquadra soviética do mediterrâneo.
Barreirinhas Cunhal não informou todos os militantes do partido de que a União Soviética tinha decidido abandonar o PCP à sua sorte.
Quando em 25 de Novembro de 1975, uma revolução despoletada pela extrema esquerda portuguesa tenta implantar um estado socialista, Cunhal manda as suas tropas operacionais ficarem nos quartéis, por temer ficar ligado a uma movimentação que sabia à partida estar condenada ao fracasso, porque não teria o apoio da URSS.

Desde essa altura, embora a URSS não tenha apoiado militarmente o partido de Cunhal, ficou com uma dívida de gratidão para com o dirigente comunista português e para com o partido que ele representava.


Tese com validade ?

O secretário-geral do Partido Comunista, Jerónimo de Sousa, relativizou as declarações da ex militante comunista, afirmando que não tinham qualquer crédito.
No entanto o PCP nunca desmentiu de forma clara o apoio soviético (e também da RDA e mesmo da Polónia e República Checa num menor nível) e nunca esclareceu nenhuma das dúvidas que se levantaram sobre a sua relação com soviéticos e comunistas alemães durante a década de 1970 e 1980. O PCP refere sempre qualquer tentativa de esclarecer estas questões como propaganda anti-comunista, procurando vitimizar-se.

Zita Seabra fazia parte do núcleo duro do PCP e tinha o seu gabinete junto do de Álvaro Barreirinhas Cunhal. É por isso das pessoas mais bem informadas sobre o «podres» do PCP e das mais odiadas de todas.
Outros dirigentes como Carlos Brito, também têm conhecimento de muitas das ocorrências mas optaram por manter silêncio.

Tentativa de desmentido
O antigo homem forte da FNAC, Alexandre Alves, militante comunista e dirigente do conglomerado de empresas que serviam o PCP, veio afirmar que não era possível colocar sistemas de escuta nos aparelhos de ar condicionado.

Sabe-se no entanto, que a STASI era o serviço secreto mais bem preparado do mundo, e que a sua sofisticação atingia níveis quase inimagináveis, considerando a tecnologia da época.

Alexandre Alves dirigiu o conglomerado comunista, mas abriu falência exatamente no ano seguinte ao colapso e dissolução da União Soviética.


Uma análise sucinta à situação em Portugal no final da década de 1970 e inicio da década de 1980 torna difícil que se considerasse obter algum tipo de segredo militar, através da colocação de sofisticados sistemas de escuta nos equipamentos de ar condicionado da FNAC (os técnicos da RDA faziam autênticos milagres de dissimulação de equipamentos de escuta, pelo que eles teriam sido impossíveis de detetar em condições normais).

É no entanto muito mais verosímil, a tese da utilização dos sistemas de ar condicionado, para conseguir informações que dessem vantagens políticas ao Partido Comunista.
A possibilidade de o partido atingir o poder pela via armada tinha sido descartada pelos soviéticos.

Antecedentes, e relações perigosas do PCP com a espionagem soviética

A ligação do Partido Comunista à Alemanha de Leste e as atividades dos seus operacionais em Portugal eram perfeitamente conhecidas e por causa delas, em 1977 o então adido naval da União Soviética em Lisboa, foi declarado «indesejável» e expulso do país, após um escândalo em que se viu envolvido com a embaixada da RDA (Alemanha Comunista), relacionado com a entrada ilegal em Portugal de equipamentos de telecomunicações.

Três anos mais tarde, as relações entre Portugal e a União Soviética voltam a passar por um periodo de grande tensão, com a expulsão de quatro funcionários soviéticos, que serviam de ligação com o PCP. Na altura, a imprensa ligada ao PCP investigava a vida pessoal do primeiro ministro Sá Carneiro e suspeita-se que a União Soviética e a RDA através dos seus espiões em Lisboa providenciavam ao Partido Comunista muita da informação disponível. Não se sabe se o embaixador soviético Arnold Kalinin (recentemente falecido) estava diretamente envolvido nas atividades de espionagem ou se tinha conhecimento delas.

A facilidade com que os agentes e espiões da KGB e da STASI obtinham informações, sempre espantou os observadores, pelo que a tese de que a empresa FNAC era um dos veículos que facilitavam essas atividades, ganha mais força com as alegações da antiga militante comunista.


[1] – Partido Comunista Português era visto como o mais conservador e estalinista de todos os partidos comunistas da Europa (incluíndo na lista o Partido Comunista da União Soviética)


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