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Marinha brasileira: Submarinos em causa
Imprensa afirma que Scorpene é 10 vezes mais caro que concorrente
13.07.2009


Alguma imprensa brasileira fez-se eco da aquisição pela marinha do Brasil de submarinos do tipo Scorpene, um submarino de projeto francês da DCNI.
Segundo o jornal O Globo, o Brasil prepara-se para assinar com a França contratos no valor total de 6.5 bilhões de Euros para a aquisição de quatro navios do tipo Scorpene e de um pacote de apoio técnico que deverá auxiliar o Brasil a construir um submarino de propulsão nuclear.

Segundo a mesma fonte, o Brasil estaria pagando dez vezes mais aos franceses que o que tinha sido proposto pelos alemães para o fornecimento de submarinos do tipo U-214, um sistema com características equivalentes.

A notícia publicada na imprensa brasileira vem mais uma vez deitar sombras de suspeita sobre os planos de aquisição de submarinos para a marinha do país.
A questão, poderá no entanto ter relativamente pouco a ver com algum conflito entre os estaleiros alemães e franceses e poderá estar relacionada com os equilíbrios dentro da própria marinha brasileira, onde diversos lobbies sempre se mostraram favoráveis a investimentos em outras áreas.

Esta dúvida decorre da estranheza da argumentação apresentada pela imprensa brasileira, que aparentemente é desconexa e parecendo ter carecido de uma análise adequada, sobre a questão dos submarinos para a marinha brasileira.

O Brasil opera presentemente submarinos de construção alemã, o último dos quais foi construído com uma grande porcentagem de incorporação nacional, tendo sido completamente montado no Brasil.
A marinha brasileira ganhou assim uma experiência importante no fabrico de submarinos, que embora ainda não permitam ao país projetar e construir os seus navios submarinos, permitem-lhe controlar grande parte dos processos de construção, o que é de importância vital para permitir a sua manutenção.

Independente deste processo, tem sido o desejo de vários setores da marinha de possuir navios submarinos de propulsão nuclear. Estes projetos têm já décadas e o processo de desenvolvimento tem sido muito lento, nomeadamente por falta de interesse politico e também porque do ponto de vista geoestratégico, o Brasil não tem objetivamente grande interesse em possuir uma arma que é acima de tudo de afirmação política.

O Brasil anunciou que pretendia aumentar a capacidade da sua arma submarina, através da modernização dos submarinos do tipo U-209 que tem ao serviço, a que se juntaria a aquisição de outras unidades novas, que deveriam seguir o mesmo processo, com a construção de uma unidade fora do país e das restantes em estaleiros brasileiros.

Seguindo este processo, no final de 2006 chegou a ser anunciado que o Brasil tinha chegado a acordo com estaleiros alemães para a aquisição de submarinos alemães do tipo U-214, um projeto alemão que juntou algumas características dos submarinos U-209 – que o Brasil já operava – com novos sistemas, materiais, sensores e sistemas de propulsão.

A primeira questão estranha sobre esta aquisição surgiu quando em declarações à imprensa, o comandante da marinha brasileira afirmou que o Brasil estaria comprando o U.214, mas sem sistema AIP[1].
A afirmação foi considerada estranha mesmo na Alemanha, onde fontes ligadas à indústria nunca tinha ouvido falar em tal possibilidade.
Uma das principais características do U-214 alemão, é exatamente a de possuir um sistema AIP instalado de «raiz»[2]. Por isto, vender um U-214 sem AIP, implicava praticamente redesenhar todo o navio, num novo projeto, que aumentaria em muito o seu preço.
O U-214 foi vendido para a Grécia, quatro unidades, Coreia do Sul, nove , Portugal, dois e recentemente para a Turquia, seis unidades. Trata-se de países da OTAN ou países com especiais problemas de segurança, como é a Coreia, continuamente afligida por problemas com a vizinha Coreia do Norte.

A questão da não colocação do AIP nos submarinos U-214 para o Brasil nunca foi esclarecida, porque algum tempo depois, o Brasil desistia da aquisição dos submarinos alemães em favor do projeto francês conhecido como Scorpene.

Mas mais uma vez, as dúvidas levantaram-se, pois a aquisição de um «pacote» de soluções envolvendo a transferência de tecnologia, leva a que seja virtualmente impossível efetuar comparações de preços.

Porque o Scorpene foi desenvolvido por engenheiros que também estiveram ligados ao desenvolvimento de submarinos nucleares, esse argumento tem sido utilizado pela DCN francesa como argumento de vendas. Na verdade pouco ou nada de submarino de propulsão nuclear resta no Scorpene, que foi desenhado para ser um submarino convencional com capacidade para disparar torpedos e mísseis anti-navio, incluindo a capacidade para instalação de um sistema AIP.
A França não adquiriu o Scorpene, mas a Espanha, que faz parte da OTAN e que participa com um terço do projeto de desenvolvimento tem em construção quatro unidades[3]. Além da Espanha, o Chile comprou duas unidades, Malásia comprou outras duas e a Índia comprou mais seis.

Sistemas equivalentes
Embora de projetos diferentes, os submarinos franceses Scorpene e os alemães U-214 têm prestações idênticas. As principais diferenças normalmente reconhecidas, têm que ver com o fato de os submarinos alemães garantirem uma capacidade de atingir uma maior profundidade, que é resultado não só do tipo de aço mas também do menor diâmetro do submarino alemão. O sistema AIP alemão também é normalmente considerado superior. As células de combustível aparecem como uma opção mais moderna e mais eficiente. Prova disto está no fato de apenas três submarinos para a Índia terem sido encomendados com este sistema. Chile e Malásia não querem AIP e a Espanha optou por um sistema diferente que deverá utilizar células de combustível.

AIP como potencial concorrente do nuclear

A marinha afirmou que o Brasil não estava interessado em submarinos com AIP, embora o sistema tenha sido adotado pelas principais marinhas que compraram submarinos convencionais recentemente.
Os submarinos com AIP são armas defensivas com um considerável potencial dissuasor e são muito mais económicos que submarinos nucleares de ataque. Estes últimos, têm porém a vantagem de ao contrário dos submarinos «AIP» (que para utilizar esse sistema ficam praticamente parados debaixo de água) poderem deslocar-se a velocidades elevadas em imersão[4].

O interesse da marinha brasileira em construir o seu submarino de propulsão nuclear poderá ser uma das razões que levou o Brasil a evitar submarinos AIP, pois os críticos da opção nuclear poderiam afirmar com alguma lógica, que pelo preço de um submarino atómico, o Brasil pode construir vários submarinos convencionais com AIP, que do ponto de vista defensivo são tão eficientes quanto submarinos de propulsão nuclear.

À medida que o tempo passa, torna-se também claro que os custos de desenvolvimento de um submarino nuclear de ataque são astronómicos.
Os valores que têm sido apresentados pela marinha brasileira têm sido muito baixos quando comparados com os custos de outros países.
Tendo como referência o custo dos submarinos franceses, e mesmo considerando que os custos no Brasil são menores, que os navios terão uma dimensão 50% menor e que serão tecnologicamente menos sofisticados, mesmo assim o programa nuclear brasileiro nunca poderá ficar por menos de 4 a 5 bilhões de dólares para a construção de três submarinos, valor a que se soma a construção de bases e de sistemas de suporte que o Brasil tem que criar de raiz, elevando o custo do programa para 7 a 10 bilhões e isto no mínimo.

Os valores apresentados, são na realidade próximos desta estimativa, embora não contem com a possibilidade de os custos brasileiros dispararem em vez de baixarem, coisa de que ninguém quer ouvir falar.

Porém a prática tem demonstrado que a construção de navios no Brasil não é necessariamente mais barata. Exemplo disso foi a corveta Barroso, que ficou por 263 milhões de dólares, quando uma corveta derivada do projeto Meko-A100, para a Polônia (classe Gawron) com sistema de lançamento vertical Mk.41 para mísseis ESSM e mísseis SEA-RAM anti-aéreos, mísseis RBS-15 anti-navio e radar 3D «Seapar» deverá custar 250 milhões, num casco com um deslocamento de 2.035 toneladas.

Como o dinheiro não é elástico e existem necessidades em vários setores, esperam-se debates aquecidos sobre o tema, ainda mais quando se espera o presidente da França em Setembro para assinar acordos de cooperação militar, e quando também existem setores que afirmam que o Brasil não deve colocar todos os ovos no mesmo saco, numa altura em que várias fontes na França afirmam que o programa da força aérea brasileira para a aquisição de novos aviões de combate poderia favorecer o caça Rafale francês.

A diferença de preços indicada para os dois sistemas, U-214 alemão contra Scorpene francês por um lado não existe, porque cada submarino U-214 custará no minimo 400 milhões de Euros. Por outro lado não é possível fazer comparações de coisas aparentemente completamente diferentes.
Estas discrepâncias são comuns, sempre que projetos de fornecimento de armamento incluem contrapartidas de tipo diferente.

Será interessante para a opinião pública entender os eventuais movimentos por parte dos vários grupos de pressão, nomeadamente aqueles que aparentemente pretendem confundir em vez de esclarecer os cidadãos.


[1] – AIP – Air Independent Propulsion : Um sistema que permite a um submarino operar durante várias semanas sem necessidade de emergir.
[2] – Enquanto o submarino alemão tem sistema AIP instalado de raiz, o submarino francês Scorpene prevê a possibilidade de ser vendido sem AIP, podendo posteriormente ser cortado para acrescentar um módulo AIP, conhecido como MESMA.
[3] – Os Scorpene espanhóis são conhecidos como S-80 e por razões comerciais são apresentados como submarinos diferentes. No entanto a única diferença substancial do S-80 relativamente ao Scorpene reside no fato de o navio espanhol ter um sistema AIP diferente e que deverá utilizar células de combustível em substituição do sistema MESMA francês.
[4] – A propulsão nuclear é por definição também um sistema de propulsão AIP, pois o submarino com propulsão nuclear também não tem que emergir para recarregar as baterias ligando seus motores Diesel.


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