Europa
Geoestratégia

As «hemorroidas» de Putin

por João Pedro Bráz
02.09.2014


Frederico II foi um imperador germânico, que governou o Sacro Império romano-germânico durante 30 anos, entre 1220 e 1150.

Frederico, via-se como o sucessor dos imperadores romanos da antiguidade e pretendia reconstituir um império que pudesse reconstituir o esplendor de Roma.
Coroado Rei da Alemanha, da Itália, da Borgonha, da Sicília, e até rei de Jerusalém, a ambição de Frederico II inevitavelmente colidiu com o poder religioso, os Papas de Roma.

Foram variadíssimos os conflitos com os vários Papas que governaram em Roma durante a vida de Frederico II. Um deles, Gregório IX, declarou mesmo que Frederico II era o Anticristo.

Excomunhões e hemorroidas

Os conflitos com a igreja, levaram a que Frederico II passasse à História, como o homem mais vezes excomungado pela igreja de Roma.

Ainda que pela natureza algo jocosa dos comentários, não haja nenhum documento claramente comprovativo de tal, a cultura popular atribuiu-lhe a afirmação de que as excomunhões até eram boas, porque aliviavam as hemorroidas de que o imperador padecia.

Excomungado quatro vezes, Frederico deverá ter-se sentido aliviado por pelo menos quatro vezes. A sua ânsia de poder no entanto, não resultou em nada e mesmo a sua dinastia perderia poder e acabaria pouco depois da sua morte. Mas a sua decadência nada teve a ver com as excomunhões com que foi sancionado.

O papa, estava convencido de que uma excomunhão teria sobre o imperador o efeito que era normal conseguir na idade média entre as pessoas comuns, para as quais, a sanção era vista como uma condenação a uma eternidade de sofrimento, já que a excomunhão negava ao cristão a ascensão aos céus.

Do episódio, extrai-se a conclusão de que quando as «sanções» são produzidas por quem não tem a noção da sua real consequência e importância junto do sancionado, acabam por não só não ter o efeito esperado, como na realidade podem mesmo não ter qualquer efeito prático.

Putin aliviado

Nos dias de hoje, a invasão da Ucrânia pelo exército russo, seja ou não disfarçada com mais ou menos alegados combatentes independentistas ucranianos, levou a que Vladimir Putin se tenha transformado num imperador que pretende repor impérios antigo.

Não deixa no entanto de ser sintomático, que tal como acontecia com os papas, as potências ocidentais tenha decidido lançar o que na prática é um novo tipo de excomunhão, que aparentemente tem a mesma importância daquelas a que Frederico II foi submetido.

Tal como as excomunhões papais contra Frederico II, as sanções económicas contra Putin, foram sobrevalorizadas por quem as produz, mas do lado que recebe a sanção, o efeito prático é minimo ou mesmo nulo.

Feitas as contas, as sanções contra Putin, ou as excomunhões contra Frederico II, não alteram nada, não demovem ninguém e não servem para evitar o que quer que seja.

Vilipendiado, Frederico mostrou-se desafiador, dando à mais importante das punições que o chefe máximo da igreja católica pode atribuir a alguém, a importância de um unguento, aliviador das hemorroidas.

Podemos não saber se Vladimir Putin, sofre dos mesmos padecimentos que afetavam o traseiro do imperador Frederico II, o que sabemos é que as sanções contra Putin, aparentemente, parecem não servir para mais nada que um unguento destinado a aliviar a inconveniência.

E todos os lideres e responsáveis americanos e europeus, que pensavam que as sanções eram mais que aquilo que Frederico achada das excomunhões, mostraram a sua inépcia e inaptidão para a política externa, demonstrando não ter a mais pequena ideia sobre como lidar com Putin, alguém que não entende a linguagem das sanções e que só entende uma linguagem muito diferente.
Este texto é da autoria de João Pedro Bráz e foi publicado em 02.09.2014.


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