Europa
Sociedade / Política

Andar 25 anos para trás ...

por Luis Carlos Gomes
04.10.2014


No final de 1989, ainda Mikhail Gorbachev era líder incontestado na União Soviética, e Boris Yeltsin presidente da RFS da Rússia (que viria a ser presidente da Federação Russa) visitou o estado natal de George Bush (Pai) o Texas.
A visita, incluiu uma passagem por um pequeno supermercado de Clear Lake um subúrbio da cidade de Houston, onde o americano médio fazia suas compras.

A passagem de Boris Ieltsin ficou registrada para a história e foi mostrada nas televisões americanas, mas o que não foi mostrado foi o verdadeiro efeito que aquela simples visita a um supermercado americano teve no presidente da República Federativa Soviética da Rússia e como ela acabaria influenciando o futuro presidente da Federação Russa.

Em imagens que ficaram da visita de 1989, se vê um Yeltsin surpreendido, olhando espantado as prateleiras de supermercado, completamente cheias de embalagens diferentes, com marcas diferentes e os mais variados tipos de produtos e variações de produtos.

Yeltsin disse na altura, que nem nos supermercados especiais, acessíveis apenas para os altos escalões do partido comunista, tinha tanta escolha, como em um simples supermercado de um subúrbio esquecido de uma cidade do Texas.
De fato, o supermercado «Randalls» de Clear Lake era tão pequeno para os padrões americanos, que acabou sendo encerrado, e hoje não existe mais.

Um supermercado cheio «arrasou» o sistema comunista

O próprio Yeltsin, em suas memórias, afirmou que a visita ao pequeno supermercado Randalls, teve um efeito devastador em sua visão do sistema comunista.
Yeltsin ficou estupefato e durante horas fez a viagem de avião com a cabeça entre as mãos, perguntando-se sobre «o ponto a que tínhamos deixado chegar nosso país»...
Confidenciou Yeltsin a Lev Sukhanov, um conselheiro que o acompanhava, que «...ao longo de nossas vidas, ficamos escutando conto de fadas. Inventámos uma realidade para nossos cidadãos, mas a realidade já tinha sido inventada no ocidente.»

Yeltsin disse mesmo que, se o cidadão médio da Rússia soubesse o nível a que tinham chegado os americanos, haveria uma revolução no país.

Passaram-se 15 anos, desde que Vladimir Putin chegou ao poder na Rússia, e a linha oficial do governo do Kremlin, voltou passados todos esses anos, à linha de discurso da era soviética, anterior à visita de Yeltsin ao supermercado americano em 1989.

As recentes sanções europeias e a resposta russa de cortar importações (a outra arma que tem é o corte no fornecimento de combustível, que é tão grave para quem compra como para quem vende), forçaram o discurso oficial do Kremlin, mais uma vez a lembrar a população russa de que os russos não precisam de McDonalds, não precisam de queijo francês, chocolate suiço ou cerveja alemã.

Comida russa: Desde carne de cavalo enlatada, até carne conservada em geleia salgada. Os velhos pratos devem substituir as decadentes iguarias ocidentais, para glória da Mãe Rússia.
Em vez disso, e voltando à velha tradição soviética, Putin pede agora aos russos que voltem ao velho pão duro russo, queijo da Sibéria, hamburguer da Tartária, chocolate da Chechenia e cerveja da Buriatia, tudo produtos que segundo a televisão russa, substituem com grande vantagem os decadentes produtos ocidentais que em tão boa hora Putin proibiu em seu país.

A miragem das alternativas

Logo que as sanções foram postas em prática, o governo da Rússia anunciou que pretendia adquirir produtos equivalentes em mercados alternativos, de entre os quais se destacavam os mercados sul americanos, com o Brasil na cabeça.

Mas rapidamente se percebeu que as coisas eram muito mais complicadas que o que parecia à primeira vista. Logo que a possibilidade de vender carne para a Rússia foi cogitada, o preço de vários tipos de carne disparou nos mercados brasileiros. No interior de Goiás foram registrados aumentos da carne de boi de até 50%. O aumento na carne mais cara levou o consumidor a comprar mais frango e porco e o preço acabou subindo também. Na Argentina o fenômeno é igual, mas a Rússia não tranquilizou esses mercados com promessas de compras firmes.

Vladimir Putin: Os russos devem voltar à dieta nacional
De fato, deste o primeiro momento os russos tentaram acalmar sua opinião pública, dando indicações de que não se esperava que o embargo durasse muito tempo.
Isto levou a que potenciais fornecedores pensassem duas vezes antes de fazer planos. O fornecimento de um mercado implica a criação de complexas estruturas de comercialização e a Rússia sabe que a compra deste tipo de produtos em mercados longínquos, torna-os caros e pouco competitivos.

O que sobre mesmo para os russos, é o mercado interno.
Mas na Rússia, a industria alimentar não é diferente da industria militar.
As velhas fábricas e estruturas industriais e agro-industriais da era soviética são a única coisa que existe. O resto depende de investimentos ocidentais, que agora estão bloqueados.
Para regenerar a economia é preciso investimento, e a Rússia não está mais conseguindo se financiar. O bloqueio do sistema de transferência de pagamentos veio complicar tudo ainda mais.

Revolta russa

A coisa parecia fazer sentido, mas os russos, que se habituaram a comer comida europeia com padrões de qualidade elevados, já perceberam que o embargo vai criar problemas e não vai resolver nada.
Recentemente, até um conhecido apresentador de programas de televisão, conhecido pelas suas posições favoráveis ao Kremlin disse em direto que isso de substituir importações por produtos russos não tinha sentido nenhum.
O apresentador continuou, afirmando que o Kremlin quer que troquemos mel por «merda». E acrescentou, dizendo que mesmo que chamemos mel à «merda», esse novo mel de fabrico local vai continuar sabendo a «merda» mesmo. Arrematou o discurso pedindo que não nos enganemos a nós próprios.

Problema sem solução

O principal problema para o Kremlin, está na enorme aceitação que a invasão da Crimeia ou a politica externa de Putin têm na Rússia, mas ao mesmo tempo na rejeição de todo e qualquer sacrificio que a população russa tenha que sofrer para garantir esse estado de coisas.

O cidadão russo, aceitou a guerra contra a Ucrânia, acenou bandeiras russas, mas entre 88 e 92% dos russos não quer abrir mão do seu conforto e da grande quantidade de opções que tem para alimentar sua família.

A politica de Putin, as sanções e os inevitáveis cortes nos supermercados, são algo de terrível, que os líderes do Kremlin não têm como solucionar. Ao agravamento dos cortes, das sanções e de uma guerra económica que não aparenta ter fim, o governo de Moscou não aparenta ter nada para solucionar. Tem soluções pontuais, com produtos chineses, brasileiros, argentinos ou sul africanos, mas esses resolvem o problema de uma minoria.

O resto, vai ficar chuchando no dedo.
Só que neste inicio do século XXI, já não é possível esconder dos russos a realidade dos supermercados do resto do mundo.
Este texto é da autoria de Luis Carlos Gomes e foi publicado em 04.10.2014.


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