Europa
Geoestratégia

Suécia e Finlândia mais próximos da NATO

por Paulo Mendonça
25.10.2014


Nos últimos meses, os países escandinavos viram com crescente preocupação o desenrolar dos acontecimentos na Ucrânia, a invasão e anexação da Crimeia e a invasão e ocupação de regiões do leste da Ucrânia por milícias russas.
A este problema, acresce o desconforto dos países bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, que mesmo sendo países membros da NATO não deixam de ver com preocupação a política agressiva e expansionista da Rússia.

Chegados a meio de 2014, tanto a Suécia como a Finlândia, os dois últimos países do Báltico fora da NATO olham com preocupação para o caso da Ucrânia, onde ficou claro que sem o apoio da aliança ocidental, a Rússia de Putin, não tem o mais pequeno problema em violar fronteiras, rasgar tratados, mentir descaradamente, inventar factos politicos e militares, para justificar perante a sua própria opinião pública, a violação dos mais elementares principios que regem as relações entre países civilizados.

Embora a Suécia e a Finlândia não fizessem parte do império soviético, a Finlandia fazia parte do império dos Czares. A agressividade russa e o aumento das capacidades militares do regime russo, que se deparam com um movimento inverso nos países ocidentais, levaram a que seja impossível uma defesa eficaz contra qualquer aventura russa, mascarada como operação humanitária, ou de proteção de cidadãos nacionais.

Com a possibilidade de uma ameaça russa a aumentar, os vizinhos mais próximos, Noruega e Dinamarca já avisaram os governos de Estocolmo e Helsínquia, que em caso de crise com a Rússia, as suas forças armadas só intervirão, no caso de a crise envolver países dentro da aliança.
É a primeira vez que Noruega e Dinamarca afirmam de forma tão clara, que sem presença na NATO, tanto a Suécia como a Finlândia ficariam literalmente sozinhas face ao poder russo.

Cortes nas despesas militares

Tanto a Finlândia quanto a Suécia têm feito cortes nas suas despesas militares. Esta tem sido uma tendência de todos os países europeus, aparentemente cegos perante o aumento das despesas militares russas. Os governos ocidentais e a classe política em geral, parecem tentar convencer-se de que o aumento das despesas militares russas não têm nada que ver com a tentativa mal disfarçada por Putin, de reconquistar o que os russos consideram como seus territórios de direito.

A Suécia é dos dois, o pais que fez mais cortes nas despesas militares, o que levou mesmo a que, não sem escândalo, um responsável militar tivesse dito que a Suécia só tinha capacidade para se defender durante uma semana.
Os suecos deram mais importância a participações internacionais, chegaram a enviar aeronaves para combater na Líbia em apoio das forças que derrubaram o regime do coronel Kadafi, mas as suas forças terrestres foram pesadamente afetadas.

Sistemas de armas de produção local receberam encomendas extremamente reduzidas e o apoio à industria militar do país, que chegou a ser das mais importantes da Europa, está a um nível nunca visto desde a II guerra mundial.

Ainda que o exército e a Força Aérea da Suécia possuam capacidades elevadas e números adequados de armas modernas, quando comparadas com outros países europeus, a marinha sueca continua a ser o parente pobre, e mesmo a capacidade anti-submarina aerotransportada sofreu tremendamente nos últimos anos. A Suécia retirou de serviço helicópteros para luta anti-submarina e só dentro de dois anos receberá helicópteros novos.

O exército da Suécia é completamente profissional mas conta com menos de 7000 homens operacionais. Com 280 carros de combate Leopard-2 (versões A4 e A5 modificada) e cerca de 350 viaturas de combate de infantaria CV-9040, além de um numero ainda considerável de viaturas PBv-302 e material de guerra da era soviética cedido pela Alemanha depois da reunificação, o exército da Suécia aparenta uma capacidade de dar inveja a muitos países da mesma dimensão, mas o reduzido número de homens disponível para uma resposta imediata, faz com que a operacionalidade dessa força seja relativamente reduzida.
A título de comparação, o exército português com 20.000 homens, conta com apenas 37 carros de combate Leopard-2.

Na NATO e fora dela

Ao mesmo tempo que continuam a ser considerados países neutros, tanto Suécia como Finlândia fazem parte da União Europeia, o que desde logo os coloca numa posição desconfortável em caso de conflito, ainda que apenas diplomático entre russos e europeus.

A Rússia, já demonstrou ao longo da sua história, não ter a mais pequena preocupação com a violação ou com respeito por tratados internacionais. Em caso de conflito na Europa, a neutralidade sueca seria imediatamente violada pelos russos, se estes tivessem interesse nisso.

Certamente que os argumentos não faltariam, a imprensa russa, habituada e especializada na criação e invenção de mentiras em massa, rapidamente inventaria uma agressão sueca, um governo nazi sueco, ou uma invasão de militares Gay, que poderia colocar em causa a educação das criancinhas russas, já que aparentemente, a opinião pública russa «engole» tudo o que a sua imprensa produz, por mais absurdo, e obscenamente mentiroso que pareça.

Conhecedores desta realidade, são cada vez mais os políticos nos dois países que vêm a público dizer que não há uma alternativa credível para garantir a sua defesa que não seja a adesão à NATO, e a adesão da Suécia implicará também a adesão da Finlândia, já que os dois países têm um acordo entre eles, segundo o qual, nenhum aderirá à aliança sem o outro.

Putin na raiz do problema

O regime de Vladimir Putin, ao mesmo tempo que afirma querer defender a Rússia da agressão e do cerco dos «malvados ocidentais», aparenta estar a criar um efeito oposto.
Por toda a Europa, a desconfiança dos povos relativamente à Rússia aumenta. Na Ucrânia, constituída por uma população culturalmente próxima da Rússia, o ódio ao russo atinge níveis altos, mesmo entre a população ucraniana do leste, etnicamente ucraniana, mas de língua russa. Na Polónia, a desconfiança história nunca foi tão alta, nos estados do báltico, o desconforto é crescente. Na Roménia, que faz fronteira com a Ucrânia e com a Moldova (parcialmente ocupada pelos russos) a popularidade da Rússia e dos russos, desceu vertiginosamente.

Não é a primeira vez que isto acontece.
A expansão imperial da Rússia, quer no tempo da Muscóvia, quer no tempo dos Czares ou no tempo da União Soviética, sempre acabou por provocar a união dos países limítrofes, assustados com as ameaças e a arrogância imperial emanada do Kremlin.

Com a invasão da Geórgia, a invasão da Ucrânia, com a ocupação e anexação da Crimeia, e com as constantes ameaças veladas aos estados do Báltico e à Polónia, Putin está mais uma vez a forçar a nota, intimidar os países limítrofes, chantagear as opiniões públicas e a criar um sentimento anti-russo, que não precisa de muito para se inflamar.

O resultado é a união de todos, contra os russos, e a consequência, é o reforço da já tradicional «paranoia do certo», que já se tornou numa marca registada do Kremlin e que caracteriza a maneira de ser russa.

A Rússia queixa-se de estar a ser cercada, quando foi a própria Rússia que esteve na origem do problema.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 25.10.2014.


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