Europa
Sociedade / Política

Milosevic: Como criar um mártir

por Paulo Mendonça
12.03.2006


A morte do antigo presidente da Jugoslávia e da Sérvia, Slobodan Milosevic em Haia na Holanda, onde estava a ser julgado por crimes relacionados com o conflito na antiga Jugoslávia e na província Sérvia do Kosovo, dificilmente poderia ser mais inconveniente.

Milosevic tinha sido vitima de vários problemas de saúde ao longo da sua presença na prisão em Haia, tendo recebido várias vezes tratamento médico. Os seus advogados, solicitaram autorização para que Milosevic se deslocasse a Moscovo para receber tratamento médico numa clinica Russa, o que foi negado pelo tribunal.

Para a opinião pública a nível mundial, independentemente de fazer pouco sentido receber tratamento na Rússia, quando existem na Europa Ocidental instituições de saúde que se não são as melhores estão seguramente entre as melhores do mundo, a imagem que fica, é a de um indivíduo preso, ao qual foi negado o direito ao tratamento de que necessitava.

Para cúmulo, o antigo presidente da Sérvia e os seus advogados tinham várias vezes referido que alguém tinha tentado eliminar fisicamente o arguido, através de envenenamento.

Por muito óbvio que para um ocidental possa parecer o oportunismo da deslocação à Rússia e da alegação de envenenamento na prisão, a mesma coisa não vai acontecer seguramente na Sérvia.

Milosevic, poderá com toda a facilidade transformar-se depois de morto, num mito, num herói e num mártir do nacionalismo sérvio.

Os nacionalismo europeus têm raízes extremamente profundas, na história e na religião e são a razão de ser das nações. A Sérvia sempre se viu como uma fortaleza da resistência por um lado à pressão do catolicismo vindo da Áustria e do islão de origem otomana. Resistiu a todas essas pressões, mantendo as suas raízes baseadas no cristianismo ortodoxo e na sua ligação à Rússia e ao mundo eslavo. O nacionalismo sérvio e as suas ramificações, estiveram na origem da primeira guerra mundial. O nacionalismo sérvio, foi uma das razões da resistência à invasão alemã, sendo a Jugoslávia praticamente o único país que se libertou sozinho do III Reich de Hitler.

Os sérvios defenderam violentamente a sua cultura contra tudo e contra todos, e para muitos deles, os acontecimentos violentos dos anos 90 estão justificados pela necessidade, como estiveram a resistência aos austríacos, aos turcos ou aos alemães.

O tribunal de Haia, e a imbecilidade dos seus responsáveis, não teve nenhuma das características dos sérvios em consideração. Esqueceu o óbvio, pensando que todos os povos da Europa se medem pela bitola asséptica e desinfectada da Europa politicamente correcta.

Essa mesma Europa politicamente correcta, agiu de forma desconexa, irresponsável e incompetente na gestão da imagem de Milosevic e da sua passagem por Haia.

Saiu-lhe o tiro pela culatra.

Na Sérvia acabou de nascer mais um mito, mais um herói e mais um mártir.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 12.03.2006.


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