Asia e Oceania
Geoestratégia

Guerra no Espaço ?

por José Matos
03.02.2007


Não é novidade que o espaço tem sido usado para fins militares desde o começo da era espacial. Em 1960, os norte-americanos, lançaram o seu primeiro satélite de reconhecimento, sendo seguidos pelos soviéticos e o espaço começou a ser usado para as mais variedades actividades militares.

O uso do espaço para objectivos militares tem passado principalmente pelo uso de satélites espiões, bem como sistemas de comunicação, de navegação e de vigilância electrónica. As vantagens de um país ter satélites militares são significativas e sua perda, em período de guerra, provoca obviamente desvantagens para o país que os usa. Mas o uso do espaço para fins de observação tem sido útil para a estabilidade estratégica, pois permite vigiar forças opostas e desta forma ter uma percepção mais fiel do adversário.
Fig. 1 – A observação de forças adversárias através de satélites tem sido a grande vantagem dos satélites de reconhecimento no espaço.


Agora, o desenvolvimento de técnicas e de armas anti-satélite capazes de destruir ou de interferir com satélites é um problema diferente, pois pode causar instabilidade e desconfiança entre potências militares. Sabe-se, no entanto, que tem sido uma prioridade para alguns países que possuem satélites no espaço como é o caso dos Estados Unidos e da Rússia e mais recentemente da China. O teste chinês em Janeiro deste ano de uma arma anti-satélite é um exemplo deste tipo de técnicas.

No teste que fez, a China usou um míssil balístico para atingir um antigo satélite meteorológico a 800 km de altitude. O satélite foi destruído ficando vários bocados em órbita. Estes detritos podem obviamente representar algum perigo para satélites naquele tipo de órbita. O teste foi feito no mais completo secretismo, o que provocou grande desconfiança noutros países. Mas não é de todo surpreendente para um país que se afirma cada vez mais no contexto espacial e que sabe que o espaço é uma peça importante no domínio militar.

Fig. 2 – O teste chinês consistiu no uso de um míssil interceptor contra um antigo satélite em órbita provocando a sua destruição.


Mas mais perigoso que os detritos são as consequências políticas deste teste. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, mostrou-se preocupado com este tipo de ensaios e a Casa Branca também não deve ter ficado muito satisfeita ao saber do teste.
O problema é que o teste vem dar razão à política de defesa estratégica que os Estados Unidos têm em curso há vários anos e que visa destruir mísseis balísticos a caminho dos seus alvos, bem como assegurar supremacia no espaço.
Em 1984, o Governo Reagan, lançou um programa de defesa estratégica que ficou conhecido como “Guerra nas Estrelas”, prevendo a colocação no espaço de armas capazes de destruir mísseis adversários em voo. O programa arrefeceu nos anos 90, devido aos custos envolvidos, mas de certa forma continua embora com objectivos mais modestos.
Neste seguimento, não é a primeira vez que se levanta este tipo de problema com o teste de armas anti-satélite Nos anos 80, a ex-União Soviética e os EUA também promoveram experiências com armas anti-satélite conhecidas como ASAT.
O Tratado Internacional do Espaço de 1967, relativo ao controle da militarização do espaço, recomenda a utilização pacífica da Lua e de qualquer outro corpo celeste e do próprio espaço e não permite a utilização de armas espaciais, mas nada diz quanto ao uso de armas anti-satélite a partir da superfície da Terra. Ora esse tipo de sistemas tem sido testado tanto para interceptar satélites como para abater mísseis balísticos.

Fig. 3 – O uso de lasers baseados em terra para cegar satélites no espaço é uma técnica já usada pelos Estados Unidos como arma anti-satélite.


Os EUA estão a instalar no Alasca e na Califórnia alguns silos com sistemas de intercepção para mísseis balísticos, além de terem navios equipados com mísseis capazes de interceptar outros mísseis em voo e de baterias antiaéreas com a mesma capacidade. Tudo isto apoiado num sistema global de comando e controle. Além disso, já testaram com sucesso um laser capaz de cegar satélites em órbita.
Nesta perspectiva, o teste chinês surge como uma resposta à política americana no sentido de demonstrar que a China também possui capacidade para interceptar satélites. Mas concerteza que terá impacto nas políticas americanas a este nível e mesmo de outros países do Pacífico como o Japão.
Os Estados Unidos continuarão com a instalação do seu sistema contra mísseis balísticos e provavelmente com testes em relação a lasers anti-satélite. Outros países como o Japão poderão seguir o mesmo exemplo. Ora esta situação poderá provocar uma corrida às armas no espaço, o que provocará um aumento de tensão a nível global.

Este texto é da autoria de José Matos e foi publicado em 03.02.2007.


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