Timor
Geoestratégia

Reinado must die !

por Paulo Mendonça
04.03.2007


Quando em 2006, despontaram os primeiros recontros em Timor, entre o que pareciam ser conflitos étnicos entre habitantes da região oriental e outras da região ocidental do país, uma figura apareceu na ribalta.

O «Major» Alfredo Reinado, nasceu em Timor em 1967, foi recrutado pelos indonésios, foi posteriormente refugiado na Austrália, para onde conseguiu fugir em 1990, viveu naquele país até ao ano 2000, altura em que voltou a Timor.

Vindo da Austrália, onde terá tido algum treino militar, dado pelos australianos, Reinado foi imediatamente integrado nas Forças Armadas de Timor Leste. Inicialmente, foi colocado na pequena força naval timorense, composta por dois pequenos patrulhas da classe Oecusse, modernizados e oferecidos a Timor pela marinha portuguesa.

O seu comportamento truculento e a sua dificuldade em aceitar ordens, não lhe granjearam muitos amigos, mas conseguiram-lhe alguns seguidores, num país onde a truculência e a demonstração pública de «valentia» são vistas como forma de escolher líderes. Por onde passava, Reinado criava problemas, e nunca foi homem de ficar muito tempo num lugar.

Foi enviado várias vezes para a Austrália. Esteve naquele país em Outubro de 2003, Agosto de 2004 e em 2005. com o fito de o disciplinar, mas a tentativa não resultou.

Não se sabe muito sobre os contactos que estabeleceu com os australianos, mas sabe-se que quando voltou a Timor em 2004, foi despromovido da força de defesa e colocado na Policia Militar, como comandante de um pelotão.
Para Reinado, foi a humilhação. Provou nas brigas e nos desacatos de rua a sua coragem, e não compreendeu que essa foi a razão da sua despromoção.

A partir daí as suas relações com os seus superiores tornaram-se cada vez mais azedas. O seu comportamento violento, desordeiro e indisciplinado levou à sua deserção das Forças Armadas em 2006.

Em 4 de Maio, juntamente com um grupo de 20 membros do seu pelotão de policia militar, roubou dois veículos cheios de armas e juntou-se a um grupo de soldados em rebelião por razões de pagamento de salários, alegadamente em solidariedade para com ex-militares em protesto, que terão sido atacados pelo exército.

A partir de aí, embora claramente fora do controlo quer do Primeiro Ministro quer do Presidente da República, Reinado não foi tocado. Quando as forças internacionais da Australia e da Nova Zelândia chegaram, Reinado não foi preso, molestado ou sequer intimado a entregar as armas roubadas que tinha em seu poder.

Reinado conviveu amigavelmente com as tropas australianas durante semanas, sabendo-se e sendo público que detinha armamento militar roubado. As forças australianas, que chegaram a ameaçar militares portugueses da GNR, exigindo que não andassem armados nas suas áreas de intervenção, nunca fizeram nada para desarmar Reinado, que estava armado com armas de calibre 7.62 e 12.7mm a 10 metros de instalações militares australianas.

Só em 26 de Julho, quando começava a ser claro que Reinado estava a ser protegido pelos australianos, e após uma operação de forças da Guarda Nacional Republicana em que se apreenderam armas, finalmente os australianos prenderam Reinado e entregaram-no as autoridades.

Mas pouco depois, em 30 de Agosto, e quando as pretensões australianas de controlar completamente o processo de paz em Timor, excluindo completamente as Nações Unidas tinham falhado, o Major Reinado consegue fugir miraculosamente da prisão, juntamente com cinquenta e seis outros prisioneiros.

O pouco empenhamento das forças australianas na sua captura, saltou à vista e os responsáveis Neozelandeses pela guarda da prisão, estranhamente não mostraram o seu tão tradicional profissionalismo e apego ao «dever»

A dúbia posição da Austrália no conflito timorense.
A posição da Austrália e a sua relutância em agir contra Reinado, levantam várias suspeições.
A mais comum, é a de que durante as suas permanências na Austrália, Reinado terá estabelecido contactos com os serviços secretos australianos, aceitando «trabalhar» para eles, a troco de protecção para membros da sua família que vivem na Austrália.

Reinado, sería assim uma espécie de «Homem de mão» dos australianos, que seria colocado em campo quando fosse necessário criar condições de instabilidade que permitissem à Austrália entrar no território para condicionar a política timorense. Essa é aliás a estratégia tradicional da Austrália para a região, onde normalmente utiliza este «modus operandi», para garantir o controlo político sobre os pequenos países vizinhos.

Esta forma de actuação, já foi utilizada pelos australianos na Papua Nova-Guiné e nas ilhas Fidji, normalmente consideradas como sub-departamentos australianos. A Austrália envia forças de «interposição», mas não aprisiona os membros das forças rebeldes, limitando-se a controla-las. De seguida pressiona o governo, ameaçando com a saída das tropas, o que inevitavelmente implicará a volta da instabilidade.

Em Timor, o mesmo método parece ter sido utilizado, e Reinado poderá ter sido o instrumento chave, na implementação desta política australiana de intervenção, disfarçada de apoio ao governo.

Na imprensa australiana, foi mesmo criada a imagem de que Alfredo Reinado era um combatente pela Liberdade, uma espécie de Che-Guevara asiático, que lutava para defender os pobres e os oprimidos.[1]

Terá a Austrália falhado ?
Os planos da Austrália no entanto podem ter encontrado algumas pedras no sapato.

A primeira pedra foi o pedido inicial de apoio militar por parte do governo de Timor, endereçado não só à Austrália e Nova Zelândia, mas também à Malásia e a Portugal.

Com este tipo de tropas no terreno, imediatamente a estratégia australiana ficou algo comprometida. Os australianos entenderam isso de imediato, e tentaram garantir o controlo sobre as forças portuguesas e malaias, o que lhes foi recusado.
Depois disto, tentaram garantir que não haveria intervenção das Nações Unidas e que a operação Timor, se transformaria numa operação entre os governos de Timor e da Austrália, mas também aqui, os seus planos não tiveram consequências.

Presentemente, Reinado transformou-se de vantagem, em encargo, e é provável que Reinado saiba demais.

Se for verdade que Reinado não só foi protegido pelos australianos como que ainda por cima agiu por instruções directas do governo ou de empresas australianas, com o objectivo de criar instabilidade política em Timor, para remover o então Primeiro Ministro Mari Alkatiri, então Reinado tem os dias contados.

Se for aprisionado, poderá não ter outra oportunidade para fugir, e se revelar tudo o que tiver para revelar, deixará a Austrália e o governo australiano em maus lençóis.

Por tudo isto, não restam muitas opções a Reinado, e restarão ainda menos ao governo e às autoridades australianas.

Reinado, ou desaparece de circulação e tenta esconder-se nas montanhas de Timor até cair no esquecimento, ou então está condenado à morte.



[1]A necessidade de inventar um herói popular, ficou expressa nas noticias na imprensa australiana em que se falava na sua resistência durante a invasão indonésia, em 1975, quando Timor era uma província portuguesa. Reinado tinha na altura oito anos de idade.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 04.03.2007.


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