Medio Oriente
Geoestratégia

Hoje a Grã Bretanha, amanhã o Mundo!

por Paulo Mendonça
03.04.2007


A recente «crise» entre a Grã Bretanha e a República Islâmica do Irão, vem mais uma vez colocar a nu, uma das debilidades das sociedades ocidentais.

Habituados a medir o mundo e a raciocinar segundo os seus próprios cânones, princípios e ideias, os países do chamado mundo ocidental, esqueceram e ignoraram - provavelmente por arrogância – o estudo das sociedades com que os seus países se relacionaram ao longo dos séculos.

Desde que a expansão europeia começou, naquilo que muitos referem como «Era Vasco da Gama» - um período de cinco séculos em que potências da Europa dominaram o mundo inteiro com forças proporcionalmente reduzidas, que nos esquecemos de pensar de uma forma séria nas sociedades que ao longo de muitos anos nos habituámos a considerar como inferiores.

Mas se tivermos um pouco de atenção, esta recente crise, provocada pela captura de uma dezena e meia de militares britânicos, alegadamente[1] por terem passado a linha divisória entre o Iraque e o Irão, no estreito do Chat-Al-Arab começamos a encontrar um denominador comum no comportamento não só dos iranianos, mas também no comportamento de vários «actores» e «interventores» na crise no Médio Oriente.

Estes actores, aparecem com um tipo de arma e de comportamento, que é normalmente visto no ocidente como indigno, mas que cada vez mais parece ser considerado na região do Golfo Pérsico, quer por Árabes quer por Persas, como uma arma de guerra válida. Essa arma, chama-se chantagem.

Esta arma vemo-la ser utilizada na crise dos marinheiros britânicos. Vimo-la ser utilizada pelo movimento integrista Hezbollah[2] no Líbano, vimo-la ser utilizada em 1979 quando o Irão sequestrou o pessoal diplomático americano, para impedir qualquer acção americana contra o novo regime fundamentalista islâmico, enquanto este se agarrava ao poder. Noutros planos, o domínio dos países árabes e do Irão sobre os recursos petrolíferos do Médio Oriente, viu a arma do petróleo ser utilizada também como forma de chantagem nos anos 70.

A facilidade e o à-vontade com que a República Islâmica do Irão - um regime criado depois que o Aiatollah Komenini tomou o poder em 1979 – utiliza a arma da chantagem, é tão ou mais preocupante, porque essa mesma República prepara-se para ter acesso ao mais poderoso meio de destruição maciça alguma vez inventado, as armas atómicas.

O Irão Nuclear, não é por enquanto uma realidade, mas tudo indica que seguindo por este caminho, mais tarde ou mais cedo o será.
Então, será apenas uma questão de tempo.

O país que utiliza o rapto e a chantagem como arma de guerra, utilizará este tipo de meios de coacção para atingir os seus objectivos.
Agirá dessa forma sem complexos e sem preconceitos, porque a utilização que tem dado à arma tem dado frutos e é culturalmente aceitável.

Quando o Irão tiver acesso às armas atómicas que tão afincadamente pretende conseguir, não serão apenas quinze marinheiros britânicos que serão reféns de um regime despótico que tem a Alemanha Hitleriana como modelo.

Toda a Humanidade estará nas mãos do Aiatollah do momento. Todos seremos encostados à parede.

Todos seremos reféns.

[1]Os britânicos afirmam que os seus militares não violaram qualquer linha de demarcação e fizeram uma apresentação pública informando a imprensa sobre o lugar onde ocorreu o incidente, utilizando as coordenadas inicialmente dadas pelas autoridades iranianas.
Só posteriormente, o Irão desmentiu a informação que inicialmente tinha dado, apresentado outras coordenadas, então sim, dentro das águas iranianas.

Notar que independentemente de quem de facto tiver razão, a demarcação de águas territoriais é normalmente complexa. Mesmo considerando as informações iranianas depois de terem sido modificadas, os britânicos estariam 500 metros dentro de águas iranianas. Em qualquer circunstância, muito pouco para criar uma crise internacional.

[2]O movimento Hezbollah é alegadamente financiado pelo Irão e muitas das suas armas terão sido fornecidas através da Síria, pela «Guarda Pretoriana» do regime iraniano conhecida como «Guardas da Revolução».


Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 03.04.2007.


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