América do Norte
Sociedade / Política

O filme 300 e a apologia da ditadura

por Pedro Brás
28.04.2007


O filme 300, recentemente estreado nos cinemas de todo o mundo e baseado na obra de banda desenhada de Frank Miller, tem tido um sucesso interessante, nas bilheteiras.

Trata-se de um filme realizado com recurso a efeitos especiais, e a cenários gerados por computador que pretendem mais aproximar-se das cenas dos livros de banda desenhada, que da realidade histórica.

Mas a mensagem que passa é perturbadora, porque os autores parecem querer repassar uma mensagem de glorificação do heroísmo dos espartanos, que deram a sua vida em nome da liberdade, lutando contra uma tirania.

Embora a Grécia clássica e Roma tenham sido as principais referências para a criação da Nação Americana que hoje conhecemos como Estados Unidos, o modelo espartano também foi estudado pelos “Pais fundadores”.

Mas o modelo não poderia ter sido pior.
Esparta, embora tenha criado uma sociedade que foi adoptada no ocidente como modelo para as suas forças armadas, era uma sociedade cheia de contradições e erros que acabaram por levar Esparta à extinção.

Hoje, quando falamos da Grécia antiga, falamos do esplendor de Atenas, dos seus filósofos e dos seus matemáticos. Conhecemos Sócrates, Platão, Arquimedes e Pitágoras, mas praticamente nada nos ficou de Esparta, além de um conjunto de regras que podem ser úteis se aplicadas à instituição militar.

A sociedade espartana, despojada, simples, sem luxos e com regras muito básicas foi utilizada como modelo na Alemanha Nazi, para a criação do Homem Novo.
Mas a mais significativa cópia da sociedade espartana feita pelos alemães, e que esteve no âmago da decadência de Esparta, foi a escravatura.

A sociedade de Esparta, era uma sociedade baseada na escravização dos hilotas, um povo de regiões do sudoeste da peninsula do Peloponeso, que os espartanos viam como inferior.
Em Esparta, criava-se a raça de super-homens, que nada mais faziam que não fosse aprender a lutar, garantindo que um espartano valesse por dez hilotas, os quais eram também mostrados como exemplos de sub-homem e de raça inferior.

Assim, garantia Esparta o seu direito de governar e explorar um povo inteiro. A escravatura dos hilotas era vista não só como essencial, mas como natural para os espartanos, que sabiam que não poderiam sobreviver sem os escravos. De tal forma, que eles eram considerados como propriedade do Estado e da cidade de Esparta.

Esparta caiu, exactamente porque mais tarde ou mais cedo, todo e qualquer povo tem tendência a se livrar dos seus algozes.

O filme 300, é uma péssima lição de História, numa altura em que o país onde foi feito, se assume como uma espécie de nova Esparta, que acha que tem direitos sobre quaisquer outros povos do mundo.

Os Espartanos em Termopilas, não lutavam pela Liberdade, porque eram eles próprios muito mais opressores que os Persas.
Os espartanos lutavam pelo seu direito de garantir o seu modo de vida, mesmo que para isso tivessem que escravizar um povo inteiro, reduzindo-o à miséria.

Esparta não é nem pode ser modelo para ninguém, também porque quando olhamos para a História, o que vemos é que aqueles que como os espartanos seguem pela via da opressão dos outros povos, têm sempre o mesmo fim.
Este texto é da autoria de Pedro Brás e foi publicado em 28.04.2007.


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