Portugal
Sociedade / Política

Saramago volta a profetizar o fim de Portugal independente

por Paulo Mendonça
15.07.2007


A campanha aparentemente organizada com vista a fazer os portugueses acreditar na ideia de que a União Ibérica corresponde a um futuro risonho em que todos os portugueses terão duas casas três carros e dinheiro de sobra para gastar no fim do mês parece continuar a bom ritmo e conforme o esperado.

José Saramago, o prémio Nobel da literatura, parece ter-se transformado num arauto desse iberismo dito inevitável, chegando mesmo ao ponto de profetizar a total integração de Portugal na grande e sagrada Espanha.

As palavras de Saramago, aparecem que nem musica de anjos para aqueles que, acreditando que terão melhores possibilidades de encontrar um emprego bem pago na Administração Pública trabalhando o mínimo possível, acreditam piamente que a integração de Portugal na Espanha será a solução para todos os seus problemas, acreditando que esta sucederá sem qualquer desvantagem para Portugal.

A visão apresentada por Saramago em mais uma entrevista ao Diário de Noticias, embora interessante de analisar, por nos permitir ver até que ponto a distância física do país e o ódio visceral à História de Portugal por parte de uma certa clique do Partido Comunista (a que Saramago continua a pertencer) conseguem toldar a mente do velho escritor.

As razões para rejeitar liminarmente qualquer tipo de iberismo baseado em qualquer união com o Estado Espanhol são de vários tipos e a maioria dos portugueses tem alguma razão quando não compreende o que pretende Saramago, normalmente por também não entender a realidade espanhola.

As afirmações de Saramago na sua entrevista ao Diario de Noticias estão cheias de preconceitos (que são normais em Saramago) mas estão acima de tudo cheias de incorrecções históricas, provocadas ou por completo desconhecimento da História, ou então por intenção propositada de mentir por parte do velho dirigente comunista.
De entre os absurdos referidos, está o de Saramago afirmar que a Espanha tem existido de forma mais ou menos pacífica ao longo dos anos.

Nada podia ser mais falso.

Para começar, a primeira afirmação que permite esclarecer Saramago, consiste em lembrar sem dúvidas que a Espanha não existe como Nação. Esse país é na realidade um império criado com base no muito sangue derramado em todos os países submetidos à vontade do maior dos países ibéricos: Castela.
E é por isso não existe Espanha como estado plurinacional, existindo isso sim o grande Estado Castelhano que tem na Península a mesma função da Grande Sérvia a que nos habituamos durante muitos anos a chamar Jugoslávia.

Onde José Saramago de forma cândida pretende explicar aos portugueses que o processo de criação do Estado Espanhol foi pacifico na maioria dos casos, a realidade histórica contradiz o escritor em praticamente tudo, reduzindo o seu discurso a uma amalgama inútil de mentiras e de meias verdades colocadas onde é mais conveniente no seu discurso.

Só como exemplo, bastaria referir os países que no passado constituíram estados independentes, como a federação chamada de «Coroa de Aragão» que foi no seu tempo mais importantes para a Europa que Portugal.
A Coroa de Aragão, constituída por Aragão, pela Catalunha e por Valência e mais tarde pelas Baleares, constituiu-se num estado com um soberano único, baseado numa cultura comum, história comum e língua própria.

Com o processo de castelhanização que foi imposto a ferro e fogo, os antigos reinos da Coroa de Aragão foram submetidos a um processo de etnocidio de uma violência como só Castela foi capaz de levar a cabo na península ibérica e noutros lugares do mundo[1].

Mas José Saramago MENTE, e mente sem grande pudor e aparentemente sem qualquer vergonha.

Desde 1492 e da união das coroas de Castela e Aragão, que aqueles dois países da península ibérica se mantiveram sempre separados e sem que as suas leis, moeda e sistemas tributários se ligasse de alguma forma.
A separação entre todos os países da Hespanha, como era na altura chamada a Península Ibérica continuou a existir mesmo durante o período dos monarcas da dinastia austríaca conhecida como «Habsburgo» e que em Portugal é conhecida como Dinastia Filipina.

No final deste período, e quando os monarcas começaram a ultrapassar as suas prerrogativas, a Catalunha, como parte da antiga Coroa de Aragão, declarou novamente a independência e durante 12 anos defendeu-a, tendo perdido a guerra por razões de geoestratégia que tinham a ver com os interesses franceses.

Mais tarde e já durante a chamada guerra da sucessão, o apoio dos catalães ao candidato ao trono que perdeu, levou a que mais uma vez a Catalunha fosse submetida à total perda dos seus direitos como nação (forais) que sempre lhe tinham sido reconhecidos e de que o seu povo sempre tinha beneficiado, mesmo depois da União Dinástica dos reis católicos.

O processo de destruição da cultura da Catalunha, foi sempre cruel e criminoso, tendo culminado durante o período da Guerra Civil e durante a ditadura de Francisco Franco, num processo de migração organizado por parte do ditador, e que se destinava a enviar milhões de migrantes de Andaluzia (território completamente castelhanizado) para a Catalunha, com o objectivo de descaracterizar completamente a Catalunha proibindo a língua e os usos e costumes locais. Este mesmo processo foi aliás organizado na vila alentejana de Olivença, onde ocorreu um processo de colonização e etnocídio similar e onde a cultura portuguesa foi esmagada humilhada e destruida de forma criminosa e absolutamente selvagem.

O furor, a fúria e o ódio visceral da Nação Castelhana contra tudo o que não fosse normalizado segundo os seus critérios, que são inspirados desde há muito tempo nos canones corruptos da mais decadente das igrejas católicas do mundo - a igreja católica castelhana - [2] ficou expresso durante o franquismo (eufemismo que designa o nazismo espanhol). E ainda hoje as declarações contra as nações ibéricas são continuas por parte da igreja, que conta com figuras tenebrosas como a do Cardeal Rouco Varela[3], que é segundo muitos espanhóis, um dos mais abertos defensores do periodo franquista.

Perante uma realidade tremenda, em que muitos espanhóis que não estão de acordo com o Diktat do estado madrileno/castelhano são perseguidos.
Perante a afirmação de milhões que não aceitam a normalização linguistica. Perante uma situação em que muitos são acusados de terroristas apenas por acharem que não sendo castelhanos têm o direito de em primeiro lugar falar a língua dos seus pais, em vez da língua imposta à força pelo Estado Castelhano, as declarações de Saramago não passam de um monumental «bolsar» produzido depois de uma má refeição.

Mentiroso congénito ou imbecil útil?

Neste contexto, o que é mais incrível é a facilidade com que José Saramago nos vem apresentar as mais delirantes e patéticas teses Hispânicas de amor, paz e união ibérica, quando todos sabemos que a Espanha de hoje, foi feita a ferro e fogo, e é sustentada a sangue e ódio, existindo apenas, porque muitos espanhóis têm medo do que aconteceria se o poder da elite política castelhana fosse contestado.

A verdade, é que embora muitos se calem para não criar problemas, outros calam-se porque têm medo. Para outros, o poder de Castela não cairá sem uma nova guerra civil, e a memória da última, está ainda demasiado viva.

Saramago, faz previsões afirmando que inevitavelmente Portugal acabará por cair neste «caldeirão» espanhol, numa calda de ódio étnico que aumenta de temperatura a cada dia que passa, uma aumento de temperatura e de tensões latentes que só Saramago e os ibéristas portugueses se recusam a ver.

Só cairemos na armadilha, se não entendermos o jogo sujo de José Saramago, daqueles que o financiam e daqueles que em Portugal o apoiam, com o poder da Televisão e dos jornais de capital espanhol.

O problema da extrema direita castelhana.
Mas o absurdo posicionamento e argumentação de Saramago não fica por aí. Saramago parece ter-se esquecido que esse tipo de União Ibérica já existiu no passado e que a elite castelhana sabe perfeitamente que a «absorção» de Portugal pelo Estado Castelhano pode acarretar problemas muito complicados que poderiam colocar em causa a própria unidade sagrada da Espanha (como sempre a viu a elite governante castelhana).

Em Portugal esquecemos que há uma parte da actual Espanha que nos teme exactamente por causa da História passada.
É essa Espanha, ligada aos círculos castelhanos do poder, que foi e continua a ser a responsável por exorcizar Portugal dos livros de História espanhóis e por criar no espanhol médio a ideia de que Portugal não passa de um país do terceiro mundo ao nível da América Latina.

Mas o receio da extrema direita castelhana, que representa o mais violento dos nacionalismos espanhóis (mas também de sectores de esquerda de origem castelhana ligados a facções dentro do PSOE e mesmo da IU/PCE) tem a ver com o entendimento de que o nacionalismo português é ainda pior[4] que o nacionalismo basco ou catalão.

Para os nacionalistas de origem castelhana, a ideia de incluir Portugal no seu país, é complicada e inaceitavel porque desde logo levanta problemas que são do ponto de vista do nacionalismo castelhano de solução impossível.

Um dos exemplos tem a ver com a quase impossibilidade de os portugueses aceitarem ser obrigados a falar primeiro a língua castelhana e ver a sua língua transformada num dialecto espanhol.

No Estado Espanhol a língua que todos são obrigados a falar é a língua castelhana e se existisse uma modificação constitucional para incluir o português em pé de igualdade com o castelhano, logo todos os restantes países da península teriam por extensão esse mesmo direito. Catalães, bascos e galegos deixariam de ser obrigados a ter o castelhano como língua obrigatória.
A uniformização linguistica sempre foi vista como uma forma de unificar a peninsula ibérica sob a asa da cultura castelhana, Portugal complica essa necessidade de uniformização.

Pior ainda que isso, é o direito de sair da Espanha e abandonar o Estado Espanhol, se essa for a vontade do povo.

Em Espanha criou-se a ideia de que existe uma Nação unificada e que por isso a Catalunha ou qualquer outro país não tem o direito de se separar do Estado Espanhol, sem que um referendo em todo o país (onde 55% da população é castelhana) tenha lugar.

A entrada de Portugal, só seria entendida se os portugueses tivessem em caso de assim escolherem, o direito de separação. Ora é exactamente este um dos Direitos por que lutam os restantes países da península, direito que lhes foi sempre negado, sob o argumento de que existe uma nação chamada Espanha, que é Una (conforme afirmava Franco), negando assim o direito de secessão aos povos e países que quiserem sair do Estado que lhe dá forma.

A declarações de Saramago, devem ser entendidas por aquilo que são. Saramago não passa de um escritor que conseguiu o prémio Nobel a expensas da promoção levada a cabo pelo tenebroso e obscuro grupo Prisa, que controla grande parte da comunicação social em Espanha e que também já cravou os seus dentes no pescoço da comunicação social portuguesa.

As posições que Saramago defende, são absolutamente coincidentes com as dos principais responsáveis do grupo Prisa, quanto ao futuro da península ibérica.
Saramago transformou-se numa simples correia de transmissão e arauto das ideias de parte daquilo que se convencionou chamar de maçonaria espanhola e em parte também das ideias da maçonaria portuguesa, que partilha com os espanhóis o seu tradicional desprezo pela democracia participativa.

Mas o que é interessante no final deste comentário, é que José Saramago ficaria perfeitamente enquadrado entre os chamados «Vencidos da Vida» um grupo de intelectuais portugueses do século XIX, da chama «geração de 70» que depois de muito criticarem o país, ficaram conhecidos por profetizar que Portugal acabaria antes de 1899 por inevitavelmente se dissolver na Espanha...



[1]A nação castelhana, é responsável pelo assassínio de dezenas de milhões de pessoas na América do Sul e pelo genocídio de culturas inteiras que foram exterminadas pelos colonizadores de origem castelhana.
A Galiza, depois da guerra civil entre Leão (apoiante da princesa Joana, apoiada também pelo rei de Portugal) e Castela (que apoiava Isabel a Católica) foi igualmente submetida a um processo de etnocidio e destruição cultural de uma violência tal, que quase faria o etnocidio do povo Arménio levado a cabo pelos Turcos parecer uma brincadeira de crianças. Esse processo ficou conhecido nos documentos históricos oficiais como «Doma e Castração da Galiza».

[2] As ideias, pontos de vista e interesses da Igreja Católica Castelhana foram uma das bases mais sólidas do regime de Francisco Franco, e é também a inventora e inspiradora da Santa Inquisição, entidade que foi igualmente utilizada como forma de destruir a entidade étnica dos vários países peninsulares.
A Igreja Católica de Castela, continua a produzir declarações ferozes contra as nações ibéricas, afirmando-se profundamente contrária às entidades nacionais peninsulares em cerimonias públicas.

[3] António Maria Rouco Varela, é o Cardeal-Arcebispo de Madrid. De origem galega, o cardeal nasceu exactamente na mesma cidade de «Ferrol del Caudilho» de onde foi originário aquele que é considerado como mais sanguinário tirano da península ibérica nos últimos séculos, Francisco Franco Bahamonde.
Varela e Franco, partilham a mesma visão da Espanha Imperial, e vindos de um lugar recôndito e remoto, necessitaram ser mais papistas que o Papa, defendendo a nação castelhana e defendendo o mito de que Castela é Espanha e Espanha é Castela, havendo necessidade de destruir tudo o que não seja castelhano, para criar a verdadeira Espanha.
A Espanha que fala castelhano, come tapas, gosta de touradas e tem uma devoção pelo sangue e uma adoração pela morte e pela violência.

[4] Pior, do ponto de vista do nacionalismo castelhano, que rejeita liminarmente os nacionalismos a que chama de periféricos, tentando criar a ideia de que são invenções e chegando mesmo ao ponto de distorcer a História a seu bel-prazer para justificar o direito de reprimir os sentimentos nacionalistas dos vários povos da peninsula.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 15.07.2007.


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