Portugal
Exército

Helis no Exército ?

por José Matos
02.10.2007


Porque razão o exército quer comprar helicópteros para fazer um grupo de aviação ligeira (UALE)? Se já existem helicópteros na Força Aérea e na Marinha, para quê mais helicópteros para o exército?

Percebo que para muitos seja um pouco estranho que o exército também queira ter helicópteros, quando toda a vida usou os da força aérea sempre que precisava. Mas penso que essa situação não é compatível com um exército moderno, como deve ser o nosso, ou pelo menos não devia ser. E digo isto pelo seguinte:

A aviação nos exércitos tornou-se um factor importante há várias décadas executando vários tipos de tarefas.
O seu contributo acenta principalmente em três factores: 1- versatilidade; 2- capacidade de manobra; 3- capacidade de combate. Neste contexto, o helicóptero tornou-se numa arma importante não só ao serviço das forças aéreas e das marinhas, mas também integrado em unidades terrestres, ou seja, exército.

Foi esta percepção que levou à criação de grupos de aviação em vários exércitos da NATO e não só. E o fim da Guerra-fria só veio aumentar mais ainda o papel do helicóptero integrado em forças de combate terrestres, pois tornou-se óbvio que o emprego de forças terrestres no novo contexto implicava a existência de forças mais flexíveis e com capacidade de projecção de forças mais eficiente de forma a intervir em conflitos a grande distância.

Ora, neste contexto, o helicóptero era um meio fácil de projectar e com uma grande flexibilidade de acção no terreno. A sua velocidade e capacidade de manobra criaram mesmo um novo conceito no que diz respeito aos helicópteros de ataque, que é o conceito de ataque aeromecanizado. Neste conceito, uma força terrestre usa o helicóptero de ataque para projectar rapidamente no campo de batalha uma concentração de forças, capaz não só de combater, como também de ler em tempo real a situação do campo de batalha. É claro que isto não substitui a acção das ditas forças terrestres e o seu poder de combate no campo de batalha. Mas dá concerteza a essas mesmas forças uma maior capacidade de intervenção.
É certo que ainda não possuímos helicópteros de ataque no nosso exército, (nem sei se algum dia os teremos?) mas penso que essa devia ser uma preocupação de futuro, ou seja, ter um grupo de aviação de ataque no exército por pequeno que fosse.

Grande parte dos países da NATO possui grupos de aviação nos seus exércitos. Por isso, o nosso exército, constantemente integrado em alianças e estruturas de defesa, achou também que era importante a criação de um grupo desses que nos permitisse estar em pé de igualdade com forças pertencentes à NATO ou a outras alianças de que o país faça parte. Entendeu também que o helicóptero tornou-se uma força relevante em qualquer exército moderno com capacidade de projectar força nos novos cenários de crise e conflitos. Sendo assim, foi decidido criar o grupo de aviação ligeira do exército em 1998, estando prevista a implementação de dois esquadrões de helicópteros neste grupo, um de helicópteros mais leves (cujo o modelo aguarda decisão do governo) e outro de helicópteros médios e utilitários já escolhido e que deverá ser entregue ao exército nos próximos anos.

Depois deste processo terminado devemos passar então para um grupo de aviação de ataque que podia ter 6-8 aparelhos. Penso que devia ser uma prioridade do exército na próxima década. Seguir estes passos não é querer ser grande ou fazer figura de grande. É apenas acompanhar a tendência dos exércitos modernos e das novas doutrinas referentes ao emprego de forças terrestres.

É por isso, que eu acho que Portugal não pode ficar para trás, agarrado a velhos conceitos de operação. Mas o grande problema nesta abordagem é obviamente o problema financeiro. Não parece que o país tenha recursos financeiros para satisfazer tal objectivo.

Mas ter um grupo de aviação no exército a funcionar (mesmo que só ligeiro) não só é importante agora, como também é importante num futuro, onde o exército deverá ter um conceito aeromecanizado. A existência de meios aéreos próprios dará ao exército uma capacidade operação independente, embora sempre possível de integrar com outros meios e ramos. Mas o helicóptero no exército tem de ser encarado como uma continuidade da componente terrestre e não como um meio estranho emprestado por outro ramo. E foi isso que sempre aconteceu no nosso exército no passado. O helicóptero era um meio estranho emprestado pela força aérea em situações pontuais. Claro que muitos vão dizer que isto não interessa para nada e que o exército é uma cambada de malandros que não faz nada na vida...

Mas quem percebe um pouco do assunto sabe que isto não é assim. Mas é preciso perceber um bocadinho. E muita gente não percebe nada do assunto. E estão obviamente no seu direito de não perceber ou de não querer saber. Afinal são coisas pouco discutidas, combinadas no segredo dos gabinetes. Mas é pena que seja assim.

Este texto é da autoria de José Matos e foi publicado em 02.10.2007.


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