Portugal
Sociedade / Política

Portugueses, esse povo de cobardes

por Paulo Mendonça
26.11.2007


Há alguns dias atrás, Ramiro Rivera, um dos médicos do ditador espanhol Francisco Franco, numa entrevista em que se falava do actual monarca daquele país, afirmou que em 1975 praticamente no leito de morte, Franco foi questionado sobre a situação política em Portugal e sobre o possível desenlace violento no país.

Segundo as palavras do entrevistado veiculadas pelo Diário de Notícias, o ditador nazi espanhol, terá afirmado que nada aconteceria em Portugal, explicando ainda como justificação, que os portugueses eram muito cobardes.

A afirmação passou quase despercebida em Portugal, onde a comunicação social em grande parte controlada indirectamente pelos arautos do iberismo ou directamente pelos próprios espanhóis (caso da estação de televisão TVI) efectua uma auto censura activa sobre todos os assuntos que podem riscar a imagem impoluta de grande pátria democrática hispana que nos querem impor.

As palavras do líder incontestado da Espanha durante décadas não podiam no entanto ser mais claras.

Franco, que afirmava em público durante os anos 40 e 50 que Portugal e Espanha eram irmãos siameses, afinal achava em privado que esse mesmo país, não passava de um país de cobardes.

Em primeiro lugar, algumas vozes iberistas em Portugal, parecem ter querido retirar importância às palavras do ditador nazista, alegando que se tratava de declarações de um pobre coitado que praticamente já não dizia palavra.
Mas quando, a título de exemplo lemos as descrições do antigo ministro dos negócios estrangeiros de Portugal no tempo de Salazar, Franco Nogueira, concluímos que o ditador espanhol era normalmente reservado e que nos últimos anos da sua vida falava pouco e evitava entrar em grandes diálogos. Podemos concluir que Franco, podendo não estar no uso de todas as suas faculdades mentais, não estava exactamente louco.

Mas acresce que Franco não poderia ignorar que o seu estado de saúde não era exactamente dos melhores, e nessas circunstâncias a natureza humana leva a que se acentue a tendência para dizer o que realmente se pensa, dado que se acredita que não se viverá muito mais tempo, pelo que não há problema com as consequências do que se diz, sendo a esperança de vida relativamente diminuta.
Franco falou a verdade. Franco disse o que achava e achava que os portugueses eram cobardes.

A questão que se nos coloca é portanto simples:
Franco achava que os portugueses eram cobardes, porque era um ditador criminoso, ou por qualquer outra razão ?

Infelizmente, quando estudamos a história da península ibérica e as declarações de líderes militares do país vizinho, não podemos ter grandes ilusões sobre as declarações de Franco.
As referências à cobardia dos portugueses são tantas, tão óbvias e tão evidentes que não sobra qualquer dúvida: Franco não achava os portugueses cobardes por ser Franco. Franco achava os portugueses cobardes por ser espanhol!

Esta conclusão é devastadora, e constitui em si razão para que os mais fervorosos iberistas pura e simplesmente passem por cima do incidente, porque esta afirmação de Francisco Franco não demonstra que o ditador odiasse Portugal, mas pelo contrário explica qual o sentir tradicional dos militares espanhóis relativamente aos militares portugueses e ao povo português na sua generalidade.

portugueses, catalães, galegos…
Achar que os outros povos são cobardes, não é uma originalidade de Francisco Franco.
Achamos as mesmas referências por parte dos militares de origem castelhana sobre a Catalunha, quando explicam que a Catalunha não é independente porque os catalães foram cobardes e não tiveram coragem de enfrentar os «tercios españoles».
Os galegos, curiosamente lugar de onde Franco era originário, também são considerados mansos e cobardes, e por isso foram dominados.

Ora se em Espanha se ensina, ou se deduz a cobardia de catalães e galegos, muito mais facilmente se poderá afirmar o mesmo dos portugueses, ainda mais existindo razões objectivas para rejeitar, odiar e menosprezar um pequeno país que se opôs com sucesso à hegemonia da aristocracia de origem castelhana. Tal aristocracia, sendo orgulhosa e arrogante ao extremo do ridículo, não poderia nunca suportar as sucessivas derrotas a que foi submetida sem justificar com referências desprestigiantes o país que a historiografia espanhola mais retrógrada continua a considerar como uma parte insubmissa do império ibérico da Grande Castela.


Porque os espanhóis acham os portugueses cobardes ?
As razões que explicam que a historiografia espanhola, especialmente aquela que estuda as questões militares aponte os portugueses como cobardes tem razões profundas na História.
Na verdade, não podemos esquecer nunca que para a historiografia espanhola, D. Afonso Henriques, o primeiro monarca português, não passa de um senhor feudal rebelde, que fazia promessas que depois não cumpria e esta visão de Portugal continuou a ser propagada durante os séculos seguintes, conseguindo mesmo chegar até ao século XX.

A derrota castelhana em Aljubarrota, onde as tropas castelhanas foram apoiadas por milhares de militares franceses de elite, é normalmente vista como resultado da acção de 200 arqueiros ingleses, que para os espanhóis são a explicação da sua derrota, reservando para os 6.000 portugueses um papel absolutamente secundário.

Quando em 1580 as forças castelhanas entram em Portugal, o país tinha tecnicamente aceite Filipe I (Felipe II de Castela) como monarca reinante, mas mesmo assim a historiografia espanhola escreveu imensas páginas a glorificar a «conquista de Portugal» que na realidade foi efectuada por mercenários alemães e italianos. A única batalha da campanha ocorreu em Alcântara, contra um exército de prisioneiros retirados das prisões e escravos alforriados.
Esse exército, sem qualquer coesão porque não era constituído por militares debandou ao primeiro embate com as bem treinadas tropas alemãs, e isso foi visto como sinal da tradicional cobardia dos portugueses, que quando não têm apoios de fora, fogem como galinhas.

Mais tarde, depois de 1640, os relatórios espanhóis sobre a resistência ao invasor são sarcásticos. Num relatório escrito por militares espanhóis em 1641, descrevia assim a resistência dos portugueses:
«Os soldados portugueses são fracos, pouco dextros mas muito rebeldes».
Curiosamente, no mesmo relatório os espanhóis afirmam que os portugueses se recusam a dar vivas a El Rei D. Felipe, tendo por isso sido todos degolados.
A cobardia dos portugueses é também realçada pelo facto de nunca se saber se estão contra ou a favor dos espanhóis. Na presença das tropas espanholas apoiam o rei espanhol, mas quando as tropas se vão embora, voltam a apoiar D. João IV.

O português é portanto etiquetado de traidor e de cobarde, pois aceita o domínio do castelhano na presença da força deste, mas volta a apoiar o monarca português quando as tropas retiram.

Mais tarde, durante a famosa Guerra das Laranjas, o amante da reinha espanhola, Manuel de Godoy, nomeado chefe militar, avisa as suas tropas que os portugueses são dissimulados, e cobardes. A cobardia dos portugueses é apresentada como razão e justificação para a limpeza étnica e para que os portugueses sejam todos mortos, homens ou mulheres, velhos ou crianças.

Godoy acusa textualmente os portugueses de se fazerem passar por mortos no campo de batalha para depois atacarem os espanhóis de forma traiçoeira pelas costas.
Para Godoy, o português tem tendência a fugir do campo de batalha, para depois aproveitar a melhor oportunidade para atacar pelas costas de forma cobarde.

As referências da historiografia espanhola à cobardia dos portugueses são um facto na história militar espanhola.
Estão por todo o lado, sempre que se estudam confrontos, batalhas, conflitos ou qualquer tipo de refrega.

Todas estas referências, que se encontram na História militar mas não na história mais genérica, permitem concluir sem a mais pequena possibilidade de dúvida, que Francisco Franco não achava os portugueses cobardes por estar velho ou por ser um ditador, mas sim porque como general espanhol, estudou a história que ainda hoje se estuda nas academias militares espanholas, e concluiu, como todo e qualquer militar espanhol concluirá, que os portugueses não passam de um povo de cobardes.

A leste, nada de novo…

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 26.11.2007.


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