Mundo
Geoestratégia

2007

por Paulo Mendonça
31.12.2007


O ano de 2007 terminou já há algumas horas na Austrália e dentro de pouco tempo, todo o mundo terá entrado no ano de 2008.

O ano que agora acaba foi um ano violento e um ano em que guerras e conflitos continuaram a assolar os vários continentes.

Na Europa, também conhecida como velho continente continuou a assistir à sua lenta e inexorável decadência perante os poderes emergentes da Ásia. Em termos militares a mais poderosa nação da Europa ocidental a Grã Bretanha, foi sacudida por mais notícias sobre quebras e reduções das suas forças militares. O número de porta-aviões esteve em causa, bem assim como o número de fragatas, que pese embora o facto de virem a ser substituídos por novos navios nos próximos anos, são uma amostra relativamente ténue do poder antigo da Royal Navy. O exército britânico no entanto, continua a ser o único com efectiva capacidade para projectar poder à distância controlando parte do sul do Iraque e disponibilizando forças para combater no Afeganistão.

Dos outros países europeus, continuou a ter algum destaque a França, que com um novo presidente que pretende mostrar serviço, se pretende afirmar como o novo e preferencial aliado dos Estados Unidos, tomando posições politicas de força, nomeadamente no que respeita aos Irão.

A Alemanha continuou a ver o numero dos seus militares a ser reduzido. Provavelmente nunca na história – pelo menos desde o século XIX – que o desarmamento unilateral da Alemanha não é tão perigoso.

Os alemães parecem ter colocado toda a confiança e todas as suas «fichas» na possibilidade da criação de um sistema europeu de defesa, o qual, pela sua dimensão e poder a Alemanha terá facilidade em controlar.

Mas o desarmamento alemão não deixa de ser preocupante, ainda mais quando na Rússia, Putin reforçou o seu poder e retirou a Rússia do tratado que condicionava o numero de forças convencionais na Europa.

Países como a Espanha, a Itália e mesmo a Holanda, não seguiram por um caminho diferente, com especial realce para o desarmamento holandês, país que reduziu dramaticamente as suas forças armadas, que contarão com seis navios principais e praticamente apenas uma brigada de veículos blindados.
Embora a um nível inferior ao dos Estados Unidos, os países europeus também se preparam para adquirir veículos adequados aos novos cenários e às novas ameaças da guerra assimétrica. A Espanha, que além de ter tido no passado problemas graves com acidentes de transporte de que resultaram dezenas de militares mortos viu os seus veículos BMR serem vitimas de atentados contra os quais não estavam preparados. Esta inadequação levou as autoridades espanholas a encomendar de emergência veículos anti-minas de fabrico italiano.

Enquanto a ocidente o desarmamento é a palavra de ordem, a leste a Turquia, torna-se na mais poderosa nação europeia, por muito que parte dos próprios europeus insista em esquecer a História e em entender que é impossível entender a actual Europa sem a Turquia e que será muito difícil entender a Europa e a sua defesa no futuro sem o país chave que se encontra entre a Europa e o médio oriente.

No médio oriente onde como desde há bastantes anos, se jogam os equilíbrios e de alguma forma o futuro da paz no mundo. Demonstrando a sua superioridade militar em termos convencionais, Israel efectuou operações semi-convencionais utilizando as suas aeronaves contra a Síria, numa demonstração de capacidade militar a que a Síria praticamente nem se opôs, alegadamente porque haveria mais para ver que os sírios estariam dispostos a mostrar.

Os países árabes moderados, controlados ou condicionados pelas suas relações com os Estados Unidos tentam manter o Status Quo, ao mesmo tempo que patrocinam tentativas de estabelecer a paz entre israelitas e palestinianos.

Mas juntamente com o problema do conflito israelo-árabe, há um outro conflito adormecido, provavelmente muito mais antigo e potencialmente explosivo.
Trata-se do conflito entre sunitas e Xiitas, expresso na rivalidade milenar entre árabes e persas.

O aumento do poder do Irão, corre o risco de se apresentar como um problema para os muçulmanos sunitas. Especialmente no Iraque onde a maioria Xiita poderá tomar o poder por via democrática.
O confronto entre sunitas e Xiitas no Iraque é potencialmente explosivo porquanto o poder do Irão cresce e esse aumento de poder e prestigio é visto com desconfiança pelas famílias reinantes do golfo pérsico.

O Irão
O Irão constitui-se assim num dos principais problemas da região. O país dos Aiatolas, relativamente isolado e com problemas económicos que nem as suas enormes reservas de petróleo conseguem resolver recorreu à tradicional táctica de unir o povo contra um inimigo externo que no caso é representado pelo binómio Israel/Estados Unidos da América, o grande Satã.

Até ao momento a táctica tem surtido resultados e o Irão tem conseguido apresentar «novidades» do ponto de vista dos desfiles militares, mas que na realidade não conseguem disfarçar a total obsolescência dos seus equipamentos mais antigos, grande parte deles ainda do tempo do Xá Rheza Palehvi.
O único fornecedor iraniano que realmente está à altura de fornecer ao país alguma segurança em termos de equipamentos é a Rússia, e esse país tem por isso sido o país com maior capacidade para influenciar o Irão, ainda mais porque lhe fornece o combustível nuclear que o país necessita para por em funcionamento a sua central nuclear de Busher.
A central nuclear está ainda envolvida na rede de sistemas iranianos que alegadamente e segundo fontes ocidentais estará em condições de no futuro enriquecer urânio que pode ser utilizado em armamento atómico. As alegações de que o Irão já teria essa capacidade acabaram por não se confirmar quando relatórios tornados públicos garantiram, que o Irão tinha suspenso o seu programa de enriquecimento de urânio com vista à produção de armamento nuclear. Este diferendo enfraqueceu ainda mais a liderança do governo dos Estados Unidos.

Estados Unidos que mantiveram de muito longe a sua superioridade sobre qualquer outro país em termos militares, mas torna-se evidente que não estão preparados para lutar guerras de desgaste como a que decorre da situação no Iraque. A solução, que é a única que sempre esteve à vista é a de entregar o conflito e a sua solução aos iraquianos.
No entanto, os norte-americanos não deixaram de retirar ilações dos problemas e das dificuldades que encontraram no Iraque e no Afeganistão. De tal forma que o ano de 2007 se pode considerar o ano dos MRAP.

Por razões que se prendem com a nova equipa do ministério da defesa (e com a saída de Donald Rumsfeld) a opção mais clara em termos de equipamentos mais visíveis para as forças armadas dos Estados Unidos foi a que resultou na aquisição de enormes quantidades de veículos anti-minas, praticamente camiões com quatro ou seis rodas motrizes, à volta dos quais foi construída uma blindagem com um casco em cunha e que conseguem deflectir a explosão de minas e explosivos de beira de estrada.

Tal foi e é a corrida aos MRAP que as encomendas são feitas não a quem tem melhor preço, mas a quem tem maior capacidade de produção e o Pentágono chega a informar a comunicação social que colocaria mais encomendas se os fabricantes garantissem capacidade para entregar os veículos.

Mais a sul, a outrora complicada situação de Cuba não apresenta hoje grandes problemas para os norte-americanos, mas quase como que a substituir Fidel Castro aparece um novo foco de tensão na América do Sul, corporizado por Hugo Chaves.

Eleito democraticamente, embora inicialmente tenha tentado chegar ao poder através de um golpe de estado, Chaves fez seguir a Venezuela por um estranho caminho revolucionário que parece arrepiar caminho e seguir num sentido completamente contrário ao do resto dos países do mundo.

A somar às suas ideias colectivizantes num mundo onde triunfa a globalização, Hugo Chaves optou como noutros lugares por uma política armamentista que parece ter como principal objectivo o de afirmar a Venezuela «Bolivariana» como um modelo viável e um país de referência na América do Sul.

Embora barulhento, Chaves sabe que não tem peso especifico para de facto afrontar os Estados Unidos, e por isso o líder Venezuelano contenta-se em tentar ser líder de um continente, ou melhor do mundo latino-americano, posição na qual inevitavelmente entrará em conflito com aquele que é por natureza o país líder desse grupo de países, o Brasil.

A afirmação brasileira, tem passado apenas pelas chancelarias e a diplomacia brasileira, tradicionalmente conservadora e reservada, tem desenvolvido esforços para evitar entrar em qualquer tipo de conflito com o presidente da Venezuela.

Sem o mesmo tipo de responsabilidades e dimensão dos líderes brasileiros, o presidente da Colômbia chegou às vias de facto em termos diplomáticos quando entrou em discussão directa com Chaves sobre questões relacionadas com o movimento terrorista FARC. Esse bate-boca ocorreu depois de o próprio Chaves se ter envolvido noutra discussão com os representantes da Espanha numa cimeira de países ibero-americanos realizada no Chile.

Um clima de certa instabilidade está também explicito nos planos de rearmamento dos vários países do continente, onde a Venezuela avança com intenções de compras de submarinos e mais aeronaves de transporte, o Chile renova os seus equipamentos militares, a Colômbia reforça a sua marinha e o Brasil afirma a sua intenção de construir um ou mais submarinos nucleares e produzir os seus próprios veículos blindados sobre rodas.

Do outro lado do oceano, a África continua a ser o mais pobre dos continentes do mundo. Do ponto de vista militar, a mais poderosa nação do continente continua a ser a África do Sul, embora com uma força armada relativamente reduzida do ponto de vista dos números.
Em 2007, a maior operação militar no continente foi a «invasão» da Somália levada a cabo pelas forças da Etiópia, alegadamente a pedido do próprio governo somali.
Tudo isto enquanto um pouco mais a norte o Sudão continua a não ter capacidade para levar a lei e a ordem a todo o país, acrescentando-se aqui a completa inoperância e falta de vontade do governo de Kartum em controlar as milícias islâmicas que têm sido responsáveis por massacres de populações autóctones na região de Darfur, completamente abandonada pela opinião pública internacional por não haver suficientes imagens de TV para despoletar uma reacção internacional de repulsa.
Na costa atlântica, à medida que as situações de conflito se vão esbatendo na Libéria e na Serra Leoa, um outro foco parece estar a despontar mais uma vez na Guiné Bissau, onde a não existência de governo leva a que o poder dos traficantes de droga se estabeleça.

Muitos dos regimes africanos têm vindo a manter-se com o apoio do dinheiro da União Europeia, mas também com o apoio directo e indirecto da República Popular da China, interessada não só nos novos mercados como na expansão da sua área de influência.

Militarmente a China pretende no futuro ter a mais poderosa força armada do mundo e se necessário fazer frente aos Estados Unidos, que continuam pelo menos em teoria a Garantir a defesa de Taiwan que a China vê como uma província rebelde.

A leste, a China enfrenta um Japão economicamente poderoso que os Estados Unidos vêm também como um tampão ao poder chinês, juntamente com a Coreia, cujo poder militar, nomeadamente naval, tem vindo a aumentar nos últimos anos. A marinha japonesa em termos de grandes navios de superfície é já a segunda maior do ocidente e só a não existência de grandes unidades navais como porta-aviões leva a que não tenha um poder ainda maior que aquele que já demonstra.

A China conta já com o maior exército do mundo, mas no horizonte não é apenas a força e o poder dos Estados Unidos e dos seus aliados directos que despontam como principal rival, mas também o poder emergente da Índia, país que tem vindo a fazer corresponder à sua dimensão demográfica um crescente poder militar, que não se faz sentir apenas no poder do seu exército, mas também no poder da sua marinha num oceano Índico que a União Indiana tenderá no futuro a considerar como a sua área de influência por excelência, estabelecendo-se assim como uma enorme força «tampão» à expansão da China. A Índia tem vindo a adquirir carros de combate à Rússia e tem planos para a produção dos seus próprios veículos de combate aeronaves e mesmo porta-aviões.

A rivalidade entre a Índia e a China, que marcará a Ásia no futuro, deixa para segundo plano a rivalidade entre a própria Índia e o Paquistão. Estes dois países já se defrontaram directamente depois da II Guerra Mundial e são os dois potência nucleares.
Embora a rivalidade entre Índia e Paquistão especialmente por causa do problema da Caxemira, os problemas paquistaneses são neste momento muito mais complicados e prendem-se com a própria governabilidade do país e com a sua viabilidade futura.

Crise no Paquistão
O ano de 2007 termina aliás com a marca do bárbaro assassinato da candidata da oposição paquistanesa Benazir Butto, acontecimento que é uma marca clara da situação crítica que se vive no único país muçulmano com armas nucleares.
A situação é ainda mais complicada e perigosa, quando se sabe que muitos dos segredos militares do Paquistão foram vendidos secretamente para vários países, entre os quais se contam a Líbia (que entretanto abandonou os seus planos) i Irão e a Síria.

As pessoas que divulgaram esses planos, continuam ainda hoje fechadas e incomunicáveis, sem que efectivamente possam dizer se e como foram passadas as informações criticas que permitem desenvolver armamento e tecnologia nuclear.

Um governo mais liberal como seria o de Benazir, provavelmente aproveitaria para divulgar muito do que os generais paquistaneses não querem nem se podem dar ao luxo de divulgar.

O Paquistão é assim o mais grave foco de instabilidade no mundo, e decorrendo do facto de possuir armas nucleares, é ainda mais perigoso que o Irão de Ahmadinejad.

Assim vai o mundo.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 31.12.2007.


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