América do Norte
Tecnologia

A destruição do NROL-21, um caso a estudar

por José Matos
18.02.2008


A destruição com um míssil de um satélite de reconhecimento avariado (anunciada recentemente pelo Pentágono) é um sinal claro de que os EUA possuem capacidade para abater satélites em órbitas baixas, usando um sistema naval, embora com algumas limitações. A destruição do NROL-21 foi anunciada como uma medida de prevenção para que o satélite em questão não derrame qualquer combustível tóxico na superfície terrestre. O satélite possui hidrazina que é usada para os motores de manobra do satélite. Como este nunca foi usado, a hidrazina encontra-se intacta dentro do satélite. Ora, a hidrazina é um combustível tóxico e caso chegasse à superfície terrestre podia ser perigosa. É possível também que o satélite tenha um gerador de radioisótopos (RTG), embora nada tenha sido dito publicamente sobre isto.

Fig.1 O satélite NROL-21 vai ser abatido por um míssil SM-3 adaptado e disparado a partir de um cruzador AEGIS.


Mas talvez o aspecto mais interessante neste caso é a sua destruição por um míssil lançado de um navio AEGIS, que pode ser interpretada como uma demonstração de que o actual sistema antimíssil da marinha americana pode também ser adaptado para abater satélites espiões. O disparo vai ser feito por um cruzador AEGIS e por um míssil SM-3 modificado, que atingirá o satélite a 240 quilómetros de altitude. Este navio e o míssil em questão fazem parte do sistema de defesa de mísseis balísticos (BMD) da marinha norte-americana e não estão concebidos para abater satélites em órbita.
Mas é notório com este caso, que numa situação de conflito, o sistema pode ser adaptado para abater satélites inimigos em órbita baixa. Portanto, a destruição do NROL-21 não é apenas uma precaução contra a meia tonelada de hidrazina que o satélite avariado contém e um eventual gerador de radioisótopos (RTG). É também uma demonstração militar das capacidades norte-americanas no domínio da guerra anti-satélite (ASAT), embora estejamos a falar de um satélite numa órbita relativamente acessível e de um sistema concebido para outro tipo de funções.

É óbvio que não é fácil abater um satélite em órbita, embora seja mais fácil abater um satélite do que um míssil balístico. O período em que um míssil balístico está vulnerável a um ataque é reduzido em comparação com a órbita de um satélite. Os satélites são previsíveis em termos de posição, mas convém lembrar que a sua intercepção não é fácil. É que estamos a falar de um objecto em órbita dotado de uma velocidade elevada e situado no espaço exterior. Durante a guerra fria, as duas superpotências desenvolveram sistemas de armas anti-satélite e mais recentemente a China mostrou também ter capacidade neste domínio ao abater um antigo satélite meteorológico. Mas os EUA mostram com este abate, que além de possuírem um sistema contra mísseis balísticos, também possuem alguma capacidade ASAT baseada nos navios com o sistema AEGIS BMD, que são unidades poderosíssimas de controlo do espaço aéreo e marítimo, equipados com capacidade antibalística. O sistema de combate AEGIS equipa os cruzadores da classe Ticonderoga e os destroyers da classe Arleigh Burke. É um sistema concebido para fazer face a ataques com saturação de mísseis e tem uma grande capacidade de controlo do espaço aéreo e marítimo, além de uma grande rapidez de reacção. O sistema BMD da marinha é baseado neste sistema de combate e actualmente 18 barcos (3 cruzadores e 15 destroyers) estão a ser modernizados para um novo padrão (AEGIS 3.0 e 3.6), que confere a estes navios capacidade BMD.

Fig.2 Esquema de um destroyer AEGIS da classe Arleigh Burke. A marinha americana possui actualmente 52 navios desta classe, mas só 3 deles estão equipados actualmente com o sistema AEGIS 3.6, que fornece capacidade BMD de rastreamento e intercepção. Existem ainda 10 navios desta classe com o sistema AEGIS 3.0, que fornece apenas capacidade BMD de rastreamento, embora esteja prevista a sua modernização para o sistema 3.6 até ao final do próximo ano. No fim desta primeira fase de modernização, a marinha conta ter 15 navios desta classe com o sistema 3.6.


Tanto cruzadores como destroyers têm realizado alguns testes antibalísticos com mísseis SM-3 nos últimos anos, e vários alvos simulados foram interceptados com sucesso (12 em 14 testes). Tudo indica que será o cruzador USS Lake Erie a disparar o míssil fatal. Mas além deste cruzador outros dois navios estarão envolvidos: o USS Decatur e o USS Russell (dois destroyers da classe Arleigh Burke). O Lake Erie e o Decatur já possuem experiência em testes antibalísticos, mas a envolvência destes navios e a capacidade para funcionarem em rede cria a possibilidade de um ser um perseguidor (rastreando o satélite) e outro o atirador.


Fig.3 - O SM-3 Bloco IA é um projéctil cinético cuja capacidade de destruição assenta no impacto directo contra o alvo. É a primeira vez que vai ser usado contra um satélite em órbita, o que implica uma modificação no software do míssil.


Quanto à arma usada, o SM-3 é um projéctil de destruição cinética ou seja, actua por impacto directo contra o alvo. Está indicado para a destruição de mísseis balísticos nas fases de meio-curso e terminal. É um facto que o SM-3 tem resultado contra projécteis balísticos simulados, mas nunca foi testado contra um satélite em órbita baixa, até porque não era do conhecimento público que o míssil tivesse capacidade para atingir um satélite a 240 quilómetros de altitude. Desta forma, vão ser necessárias modificações no software do míssil e nos requisitos do sistema BMD. Daí que se o abate for bem sucedido abre-se a possibilidade futura destes navios terem alguma capacidade ASAT, em caso de conflito, embora limitada a órbitas baixas. Por isso, a destruição do NROL-21 é um caso a estudar, pois reveste-se de várias vertentes.

Este texto é da autoria de José Matos e foi publicado em 18.02.2008.


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