Portugal
Força Aérea

A importância do EH-101

por Paulo Mendonça
09.04.2008


Recentes notícias vindas a publico, deram conta de problemas na frota de helicópteros EH-101 da Força Aérea Portuguesa.

Segundo a comunicação social, estão operacionais apenas cinco dos doze helicópteros comprados, porque o governo não negociou convenientemente um contrato de manutenção, que permita o fornecimento de peças e acessórios necessários à manutenção dos equipamentos em estado de operacionalidade.

O recurso que tem sido utilizado, é o da canibalização, que consta da remoção de um dos equipamentos que está parado, do equipamento que ficou inoperacional noutro helicóptero.
Assim, quando as peças de reposição chegarem, serão colocadas nos helicópteros que foram canibalizados, que assim voltam a estar operacionais.

Este esquema que permite obter peças de reposição, tem no entanto inconvenientes óbvios. Embora ainda seja possível obter peças de reposição dos helicópteros parados, inevitavelmente chegará um momento em que a frota acabará por ser parada.

Os helicópteros EH-101 são equipamentos de elevada sofisticação, o que não impede que tenham já ocorrido incidentes que ainda hoje estão por explicar.

A sua aquisição no entanto, pouco ou nada teve a ver com a sofisticação dos sistemas embarcados, mas sim com outra característica do EH-101 que o transforma num helicóptero quase único.

Essa característica do helicóptero EH-101 é de tal forma importante, que permite ainda hoje (como permitiria no futuro) recomendar a sua aquisição.
Essa característica, é a autonomia operacional da aeronave, que lhe permite chegar mais longe que a esmagadora maioria dos helicópteros presentemente em operação em qualquer força militar do mundo.

A importância da autonomia dos meios aéreos para Portugal

Sendo Portugal um pais marítimo, ou pelo menos com tradições marítimas, o controlo e domínio do mar sempre foi importante para o país.
Hoje, como no passado, a manutenção das ligações entre o continente português, os Açores e a Madeira, como no passado com o império, são vitais para a garantia da soberania nacional.

Mas os portugueses tomam os seus direitos sobre as águas que nos são próximas como direitos históricos adquiridos, como se esses direitos sobre esse mar nos tivessem sido dados por Deus, não nos podendo ser retirados.

Engana-se redondamente quem pensar assim!
No passado, ainda no século XIX, acreditavam os portugueses que os seus direitos históricos em África, nos dariam direitos a grande parte do território africano quando ocorresse uma divisão do continente entre as potências europeias.

Mas quando as potências se sentaram à mesa das negociações, uma nova exigência foi colocada em cima da mesa, exigência essa que colocava em causa aquilo que os portugueses consideravam direitos concedidos pela História.

Assim, para ter acesso a uma parte de África, Portugal não podia apenas alegar os direitos conferidos pela História e pela presença nas costas africanas, como além disso precisaria provar ter os meios suficientes para efectivamente ocupar os territórios que reclamava como seus.

A imposição das principais potências europeias, muitas delas interessadas naqueles territórios não tinha apelo, e mesmo os territórios de Angola e Moçambique foram concedidos a Portugal como resultado de muitas pressões e jogos diplomáticos de poder, tendo o país acesso às suas colónias africanas se e só se provasse ser capaz de os ocupar e controlar militarmente.

Mapa da ZEE portuguesa
A História pode repetir-se?
Da mesma forma que no passado, aquilo que considerávamos como direitos inalienáveis concedidos pela História, também no futuro, as nações ribeirinhas do mundo acabarão por ser colocadas perante o mesmo tipo de dilema:

Ou são capazes de efectivamente controlar e policiar as extensas áreas da superfície marinha que lhes foram atribuídas internacionalmente (Águas territoriais e Zona Económica Exclusiva) ou então terão que ceder esses direitos de policiamento e garantia de segurança a países maiores, que na região tenham capacidade para o fazer.

Considerando estes pressupostos, a existência em Portugal de meios como as aeronaves EH-101 é plenamente justificada, não apenas pelas qualidades técnicas variadas do equipamento, mas acima de tudo, porque quando se trata de efectuar operações de vigilância e – muito importante – de salvamento, nenhum país da região está tão bem equipado quanto Portugal para efectuar esse tipo de operação.

Aeronaves como o EH-101, bem assim como navios como o Navio de Apoio Logístico que a marinha vem pedindo há anos, são de importância absolutamente vital, para que Portugal numa futura mesa de negociações, possa continuar a garantir o mesmo tipo de soberania sobre o que são as nossas mais vitais linhas de comunicação.

Não porque estamos nas proximidade geográfica das águas, não por razões históricas, mas porque ninguém tem melhores condições técnicas, combinadas com a posição geográfica do país para efectivamente controlar e garantir a segurança do Mar Português.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 09.04.2008.


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