Portugal
Geoestratégia

A Espanha ainda não aceita a independência de Portugal!

por JPB
21.05.2008


Carod Rovira, Portugal e a independência da Catalunha
O dirigente político catalão, Josep Lluis Carod Rovira, vice-presidente da Generalitat de Catalunya (governo autónomo catalão) em entrevista dada à agência noticiosa LUSA e transcrita em vários periódicos portugueses, afirmou no fim-de-semana passado, que o estado espanhol continuava a olhar para Portugal de uma forma paternalista, não tendo na realidade aceite ainda que Portugal é um país independente.

Na mesma entrevista, o político catalão afirmou que a Espanha, pretende manter sobre Portugal uma tutela paternalista, afirmando ainda que sempre houve um certo complexo relativamente a Espanha por parte de sectores da sociedade portuguesa que não definiu.

O dirigente da Catalunha, frisou que a questão catalã, não pode ser confundida com um simples regionalismo, porquanto a Catalunha é um país por direito próprio e a sua independência será um contrapeso lógico ao poder centralizador de Madrid.

Independentemente da retórica política, e das questões internas da Catalunha que estão por detrás das declarações do político daquele país, há no entanto algumas verdades que muitas vezes esquecemos, e uma delas foi referida por Carod Rovira:
Trata-se da questão da restauração portuguesa, que ocorreu em 1640, e que só teve possibilidade de vingar, porque durante 12 longos anos, de 1640 a 1652, a Catalunha lutou contra a monarquia dos Habsburgos[1]. Barcelona, caiu vitima da fome, depois de um cerco de 18 meses.
Só depois de 12 anos, o ramo espanhol da Casa de Áustria se vai voltar contra Portugal, quando o país já teve tempo para tecer uma rede de alianças e organizar as suas defesas que vão permitir durante mais 16 anos uma resistência vitoriosa que a Espanha nunca nos perdoou nem perdoará enquanto existir.

Iberistas em pânico

Mas as declarações de Rovira, que a maioria dos portugueses nem sequer sabe quem é, e de quem nunca ouviu falar, passariam quase despercebidas, não fosse o pânico que se parece ter apoderado de sectores que em Portugal são normalmente conotados com as linhas iberistas, pensamento que defende a extinção de Portugal e a sua inclusão no grande império Republicano-Hispano com sede na grandiosa e imperial cidade de Madrid.

As reações indignadas, começaram pelo militante do Partido Comunista, José Saramago, funcionário do tenebroso Grupo Prisa, que alegadamente age de forma brutal sobre os seus jornalistas na América Latina, com o seu costumeiro hábito de obrigar os mesmos a escrever o que a direção do grupo editorial manda, muitas vezes sob coação. O mesmo grupo Prisa que controla com punho de ferro a estação de televisão portuguesa TVI.

Saramago, que já advogou o desaparecimento de Portugal, em declarações que foram consideradas quase obscenas até pelo seu próprio partido, afirmou que na sua residência espanhola da pequena e quase desértica ilhota de Lanzarote, nunca se apercebeu de nenhuma irregularidade da administração central e do ministério espanhol dos negócios estrangeiros em Madrid, que pudesse de alguma forma indicar o não reconhecimento da independência de Portugal.

José Saramago não explicou no entanto como é que seria possível a um escritor de 80 anos, preocupado com os seus sonhos e afastado milhares de quilómetros de Madrid, analisar com alguma propriedade os comportamentos do governo espanhol, nomeadamente aqueles que são relativos a Portugal.

Não deixa de ser interessante de analisar a apressada, desorganizada e quase histérica reacção de alguns sectores iberistas ou não, da sociedade portuguesa, que têm vindo a vender aos portugueses notícias sobre o «milagre espanhol», ocultando os seus podres, as suas misérias e as suas contradições.

Embaixada de Espanha em Lisboa: O espanhóis nunca foram conhecidos pela sua habilidade diplomática, e a afirmação de que não há qualquer questão entre os dois países acabou por confirmar de forma descarada e insultuosa as afirmações de Rovira.
Desconforto em Espanha

Como que tentando humedecer a palha para evitar que pegue fogo, o governo espanhol, segundo uns e a embaixada de Espanha segundo outros, em declarações de que o jornal Público se fez eco, foram espantosamente rápidos a deitar água na fervura, afirmando que as relações entre os dois países são as melhores de sempre.
Segundo as declarações das entidades espanholas - que cada vez parecem representar mais a nação castelhana e não a totalidade da Espanha - o governo madrileno e as autoridades do país vizinho a nível do poder central «Están encantados» com as relações entre Portugal e Espanha. O deficit comercial cresce a favor da Espanha, as empresas espanholas controlam já parte da comunicação social e portanto das notícias [3] e as empresas portuguesas continuam a ser alegremente ostracizadas e excluídas de todo e qualquer concurso público nos países espanhóis, num ambiente proteccionista que embora ilegal, tem o beneplácito do governo de Madrid e dos vários governos autónomos espanhóis.

Mas mostrando os maus hábitos do passado, e acabando afinal por confirmar as palavras do dirigente da Catalunha as declarações dos espanhóis - que podem ser tudo menos diplomáticas - com a arrogância que já é seu timbre e demonstrando a visão paternalista que Carod Rovira referiu na sua entrevista, produziram ainda declarações afirmando que não há contenciosos entre Portugal e Espanha [2].

A afirmação espanhola é insultuosa e ofensiva, e num país sério não poderia passar em claro.
Na terra de Santa Maria, onde nos habituámos a baixar a cabeça e beijar as miseráveis patas do dono, tudo engolimos e tudo aceitamos.

Para além das reações do já referido militante estalinista (e espanholista assumido), das autoridades madrilenas, e até do embaixador de Portugal em Madrid, que parece ter agido segundo as ordens de Zapatero, a situação atingiu o cúmulo do patético num editorial do jornal Público, assinado pelo jornalista José Manuel Fernandes.
Naquele editorial, o jornalista faz críticas ao político catalão, acusando-o de provinciano e afirmando que as eleições na Catalunha não passam por Lisboa.

José Manuel Fernandes: De alguma forma patético, e demonstrando não só ignorancia como nanismo intelectual que se tornou a marca registada das decadentes elites portuguesas
Tem razão o jornalista português, em afirmar que nada temos a ver com o processo político catalão, e que menos ainda teremos a ver com as ideias ou objectivos político-ideológicos de Carod Rovira.

Mas o que o articulista do Público fez, foi quando muito, dar uma imagem muito nítida, da fraca qualidade intelectual de parte das elites portuguesas, que não tendo o mais pequeno conhecimento de História, ainda se baseiam na imagem ultrapassada que desde Franco e Salazar, chegando a Zapatero, nos têm vindo a vender de Espanha.

Disparou em todas as direções, fazendo barulho, mas não dizendo nada porque de facto nada havia para dizer, por falta evidente de conhecimentos.

As palavras de Rovira fazem sentido para quem quer que fosse que se desse ao trabalho de olhar para História, coisa que evidentemente o articulista Fernandes não fez.

Mas as palavras do dirigente da Catalunha, alertam-nos também para uma realidade que a comunicação social tem evitado referir, seja por convicção política, seja - o que é mais provável - por medo da embaixada de Espanha.

A História afirma de forma clara, que a Catalunha tem o direito a ser um estado independente.

Ver revolta de «Els Segadors»

As razões que explicam e que suportam esse direito, são as mesmas que justificam e suportam o direito de Portugal à independência, depois de 1640.
Quando Carod Rovira afirma que a Espanha não aceitou nunca a independência portuguesa, essa é a mais pura total e absoluta verdade, e bastaria a qualquer José Manuel Fernandes da vida ler um livro de História publicado em Espanha para o entender. A Espanha ignora completamente a História de Portugal antes de 1640 e ignora em praticamente todos os seus livros de História, a independência de Portugal, que considera um pequeno fait-divers.

José Manuel Fernandes teria evitado cair no ridículo.

A nação castelhana, porque é disso que se trata quando falamos do Nacionalismo Espanhol, não aceita que a partir de 1640, em Portugal e na Catalunha, surgiram movimentos com suporte popular, que resultaram na queda da monarquia dos Áustrias.
Não aceitar o que aconteceu num país, implica não aceitar o que aconteceu no outro.

Não pode haver duas interpretações da História para a mesma realidade.

E finalmente as palavras do dirigente catalão, devem servir de reflexão, pois mais tarde ou mais cedo devemo-nos colocar a questão fulcral:

Quando o problema da independência da Catalunha se colocar – e não pode restar qualquer dúvida que não é uma questão de «SE», é uma questão de «QUANDO» - o que fará Portugal ?

Portugal terá então dois caminhos:

Um, é o caminho honrado, de quem defende o que está certo, porque nenhum povo da terra pode ser livre sem ser independente; E isso levará os portugueses a cumprir com aquela que é a nossa obrigação, em nome do sagrado direito à liberdade, que justifica a nossa própria existência como estado independente…

O outro é o caminho dos que olham para o lado, e fingem que não têm nada a ver com o assunto. Aceitaremos assim como verdadeiras as palavras do ditador nazista Francisco Franco: Os portugueses não passam de um povo de cobardes!

Quando chegar essa hora, podemos tentar evitar os problemas, escolhendo o caminho da desonra e da humilhação.
Mas que os portugueses não esqueçam que quem perde a honra para evitar o conflito, ficará sem a honra, e acabará sempre por sofrer as consequências da sua cobardia.





Notas
[1] – Monarquia dos Habsburgos ou casa de Áustria, normalmente incorrectamente chamada de Espanha, dado tal país só existir formalmente após oo ano de 1715, muito depois da guerra da restauração.

[2] – O principal contencioso entre os dois países que persiste ainda hoje, respeita à ocupação há já 200 do território correspondente à Câmara Municipal de Olivença, distrito de Évora, no baixo Alentejo, tomado durante uma invasão espanhola e nunca devolvido.
A invasão e ocupação de Olivença e o genocídio étnico que ali ocorreu são censurados por toda a imprensa espanhola, ao mesmo tempo que com total despudor, se exige a devolução de Gibraltar ao estado espanhol, numa demonstração intolerável de dualidade de critérios, típica dos regimes ditatoriais e cujo desplante e miserável pouca vergonha, confirmam a afirmação de Carod Rovira de que o estado espanhol trata Portugal de forma paternalista.

[3] – O principal meio de controlo espanhol sobre a comunicação social portuguesa é a emissora de TV TVI, controlada com mão de ferro pelo grupo PRISA, sob o qual recaem inúmeras acusações de comportamentos ilegais, perseguições a jornalistas, despedimentos ilegais, e todo um numero de crimes que o poderoso grupo de comunicação social alegadamente terá praticado em países da América Latina, como a Bolívia, a Argentina ou o México.

Embora não sejam conhecidos casos de violência e de pressão sobre jornalistas portugueses, o presidente do grupo PRISA em Portugal, o antigo dirigente do partido comunista português (que segue a linha dura Estalinista) Pina Moura, afirmou que é normal que as empresas de comunicação social tenham a sua linha editorial própria, aceitando assim que as pressões se vierem a ocorrer, ou se tiverem ocorrido são legítimas.

É no entanto facto que a TVI não passa peças que possam ser consideradas como negativas para com o estado espanhol ou para com o governo de Espanha.

L’autonomia que ans cal es la de Portugal, quer dizer: A autonomia que queremos, é a de Portugal.

Este texto é da autoria de JPB e foi publicado em 21.05.2008.


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