Portugal
História Militar

A degradação da estrada Elvas-Ponte da Ajuda

por Carlos Luna
04.07.2008


UMA QUESTÃO DE DIGNIDADE

Começa a ser voz corrente, em Elvas e não só: a estrada entre Elvas e a Ponte da Ajuda degrada-se a pouco e pouco. Os remendos dão-lhe um aspecto estranho. E é cada vez mais frequente, em Olivença, haver gente a chamar a atenção para o mau estado da mesma estrada.

Ouve-se criticar Portugal por fazer uma "estrada miserável", em comparação com a
ligação Ponte da Ajuda-Olivença. Estas críticas ouvem-se (e vêem-se escritas) também em Elvas, e por mais de uma vez... com alguma razão, mas com pouco espírito analítico.
Deste modo,torna-se urgente discutir este problema. E começando por equacioná-lo correctamente.

Em primeiro lugar, refrescando a memória. Assim, recordemos, em Agosto de 1994 Portugal e Espanha concordaram que a velha Ponte da Ajuda seria restaurada por Portugal, e que este País faria uma nova ao lado, salvaguardando-se assim a posição de princípio de Portugal em relação a Olivença. Concordou-se também que a estrada Elvas-Ponte da Ajuda-Olivença seria municipal.

Os anos entre 1994 e 1998 foram passando, e, enquanto as obras da nova
ponte iam chegando ao fim, também a estrada que partia de Elvas ia ficando pronta. Porém,era visível, na ligação que tinha origem em Olivença, que não se estava perante uma estrada "municipal", mas sim de uma de categoria e qualidade superiores.

Em finais de 1999, e convém não o esquecer, autoridades espanholas passaram pela nova ponte, e arrestaram máquinas, num incidente de sabor amargo... só revelado à opinião pública em Maio de 2001, já depois de a nova Ponte da Ajuda ter sido inaugurada (11 de Novembro de 2000).

Outros incidentes ou atropelos tiveram lugar em 2003, quando a Espanha tentou, sem a devida autorização portuguesa, reconstruir, também do lado do Concelho de Elvas, a velha ponte, o que, face aos protestos de Lisboa, acabou por ser suspenso.

Mas... estas linhas destinam-se a chamar a atenção para a Estrada Elvas-N.S. Ajuda, pelo que estes factos poderão ser apenas resumidos. Todavia, é bom que
não seja esquecidos todos estes acontecimentos.

Portanto, temos uma situação insólita. Portugal, porque cumpriu o acordado em 1994,construiu uma estrada municipal, sem a qualidade da que a Espanha construiu, exactamente porque respeitou o concertado em 1994. Mas, porque a qualidade e o aspecto prático tendem
a fazer esquecer o resto, é Portugal e Elvas que são criticados, por não terem executado uma obra condigna. E, um tanto levianamente, alguns comentadores e cronistas esquecem as causas desta "falta de dignidade".

Que me desculpem, mas não resisto a citar um argumento de um oliventino, confrontado com o desrespeito dos acordos de 1994, dizendo que "em Espanha as estradas municipais são todas como as de Olivença-Ponte da Ajuda, e que não houve intenção de desrespeitar nada!"
Tive de rir-me, confesso, porque conheço estradas municipais espanholas (nomeadamente na área de Olivença: as que ligam esta localidade a Táliga por São Domingos, a São Jorge de
Alor, a São Bento da Contenda, etc.), e sei que tal não é verdade.

Entretanto, não pude deixar de achar graça à diferença entre a mentalidade de quem é educado numa lógica espanhola e de quem é educado numa lógica portuguesa.

O primeiro sobrevaloriza o que tem, não hesitando em exagerar, e até mentir, enquanto o segundo desvaloriza o que tem, exagerando também, mas num sentido inverso: dizendo mal até do que está bem, e inventando mesmo factos para
provar a sua inferioridade!

Entretanto, temos, em resumo, um problema. Não é possível fazer apenas algumas pequenas obras na Estrada Municipal Elvas-Ponte da Ajuda, pois a sua continuidade para Olivença criam uma situação absurda. É pouco viável interditar o trânsito a veículos
pesados, pois a metade oliventina suporta-os. Como reagirão os camionistas vindos de Olivença e que se dirigem a
Elvas, ao chegarem à Ponte da Ajuda, ao verificar que terão de voltar para trás? Que comentários farão?

Sabemos hoje que um País não vive de prestígio, e as obras de fachada são algo a evitar. Mas há coisas que têm a ver com a dignidade de cada Estado como há outras que têm a ver com a dignidade de cada pessoa. Afinal, Portugal já mostrou dignidade ao assumir a construçao da nova Ponte da Ajuda por inteiro. Mas é evidente que não se pode esquecer o desrespeito que algumas autoridades espanholas mostraram em todo este processo, principalmente ao violar os acordos de 1994.

Não se trata de alimentar ódios de outros tempos, nem de defender vinganças mesquinhas, mas de não deixar cair no esquecimento as responsabilidades e as atitudes de cada um. "Quem não se sente, não é filho de bos gente!"

Pode-se mesmo perdoar. Contudo, há que exigir que atitudes futuras se guiem por regras mais claras e demonstrativas de maior respeito.

Mas, concretamente, a estrada Ponte da Ajuda-Olivença aí está, num desafio a Elvas (e a Portugal). Não me parece que haja outro caminho se não responder ao desafio, e melhorar substancialmente a ligação Elvas-Ponte da Ajuda. E, algo de imprescindível, fazer de vez a prometida ligação da Ponte a Juromenha e ao Alandroal, algo que é incompreensível que não seja uma prioridade.

Desde 1999 que se fala na necessidade de fazer... uns meros três ou quatro quilómetros de estrada ! Haverá interesses desconhecidos por detrás desta inércia?

Penso que há principios de que não se pode abdicar. Como dizia um Presidente dos Estados Unidos da década de 1950, Dwight Eisenhower, "quando um povo, em nome de privilégios, abdica de princípios, acaba por ficar sem uns e outros". Talvez pareça surpreendente esta citação por parte de quem é conhecido por ser um revolucionário, mas creio que a frase está correcta, e que é verdadeira para inúmeras situações. Substituiria "privilégios" por "poupanças", a repeti-la-ia em relação à Estrada Elvas-Ponte da Ajuda.


Aqui fica o apelo!
Estremoz, 04 de Julho de 2008
Carlos Eduardo da Cruz Luna


Nota do areamilitar.net:

A ponte da Ajuda, uma ponte fortificada sobre a qual estava erigida uma torre de vigia, era uma das muitas fortificações secundárias que Portugal ergueu para se defender das tradicionais invasões por parte de Castela. Ela servia também como forma de garantir o apoio à cidade fortificada de Olivença.
As fortificações de segunda linha, como a ponte da Ajuda, destinavam-se a permitir o controlo efectivo de pontos estratégicos chave.
Ao controlar esses pontos, as forças portuguesas podiam permitir o avanço castelhano para o interior, negando-lhe no entanto pontos importantes que poderiam por em causa o abastecimento e comunicação das forças castelhanas. A opção destes, seria a de tomar um a um os baluartes portugueses, o que implicaria um atraso e desgaste adicional das forças.

A ponte da Ajuda é assim historicamente importante como fortificação de segunda linha, e nunca foi (e pelas suas características nem poderia ser) uma fortificação de fronteira. Nunca passou naquela secção do rio Guadiana, qualquer fronteira entre Portugal e Espanha, ou entre Portugal e o Reino de Castela.
Imagem: Júlio Reis

Este texto é da autoria de Carlos Luna e foi publicado em 04.07.2008.


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