Portugal
Marinha

Fragatas João Belo - 40º aniversário do contrato de construção

por Paulo Mendonça
10.09.2004


Comemoram-se no próximo dia 24 de Setembro, 40 anos da data da assinatura do contrato de compra das quatro fragatas de classe Comandante João Belo, e dos quatro submarinos da classe Albacora.

São os navios que têm sido referidos por várias vezes, quando se fala da sua substituição pelas futuras fragatas da classe “Oliver Hazard Perry”, que deverão ser incorporadas futuramente ao efectivo da marinha portuguesa.

Ao mesmo tempo que nos aproximamos daquela data, vem-me à memória o que escreveu o então ministro dos negócios estrangeiros do governo de Oliveira Salazar. O embaixador Franco Nogueira, escreve nas suas memórias o seguinte, quando se refere ao dia 24 de Setembro de 1964:

Lisboa, 25 de Setembro (…) Assinado ontem em Paris o contrato de construção de quatro novas fragatas e de quatro novos submarinos – tudo dentro da mais moderna e apurada tecnologia naval. Enfim, os princípios de uma esquadra nova. (Franco Nogueira, um politico confessa-se – Diário – 1960-1968)

Ora estas palavras escritas pelo ministro de Salazar, fazem-me voltar ás palavras que ouvi há uns anos, da boca de um oficial da marinha de guerra portuguesa, referindo que, as fragatas da classe João Belo estavam completamente obsoletas quando foram incorporadas na marinha, e que foram uma “má compra” já na altura. As João Belo não estavam armadas com mísseis, sendo portanto pouco melhores que os contra-torpedeiros da segunda guerra mundial.

Deparou-se o autor destas linhas, portanto, com uma contradição. Por um lado o ministro Franco Nogueira foi contemporâneo da assinatura e embora não estivesse especialmente relacionado com a defesa, o seu ministério, numa altura conturbada de embargos internacionais contra Portugal, inevitavelmente seria sempre chamado à coação, nestes assuntos. Por outro lado, um oficial da marinha, nomeadamente uma alta patente, certamente que estaria melhor informado que o ministro, mesmo o dos negócios estrangeiros.

Então, quem tinha razão?

As minhas pesquisas, levaram-me a procurar identificar as características dos navios de algumas marinhas, de forma a comparar os seus meios e a analisar a história para tentar tirar alguma ilação.

1967 – O afundamento do EILAT
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Em 1967, o Egipto tinha acabado de lutar a guerra dos seis dias contra Israel e tinha sofrido uma humilhante derrota. No dia 21 de Outubro de 1967 uma das recentes lanchas da marinha Egípcia, da classe OSA (Komar no Egipto) lança três mísseis SS-N-2 STIX, que atingem o navio Israelita, que se afunda em poucos minutos.

As lições de 1967
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O afundamento do contra-torpedeiro EILAT da marinha de Israel, foi de facto marcante na história naval. O EILAT continua a ser o único navio do mundo a ter sido afundado por mísseis lançados de outro navio, pois outros navios afundados por mísseis em conflitos posteriores foram lançados desde aeronaves.

Como resultado, quer americanos quer franceses apressaram o desenvolvimento de mísseis com características idênticas, com o objectivo de reduzir a diferença que agora os separava dos soviéticos.

Portugal e o afundamento do EILAT
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Portanto, em 1967, as marinhas do mundo tomaram nota de que pela primeira vez tinha sido utilizado de forma eficaz um míssil contra um navio de superfície.

Nesta altura as fragatas da classe João Belo, estavam não só já contratadas como a primeira unidade da classe a própria F480, Comandante João Belo se encontrava já ao serviço da marinha.

Posteriormente, durante a guerra do Yom Kipur, os mísseis STYX demonstraram serem relativamente fáceis de abater, chegando mesmo um a ser abatido por um canhão de 76mm. Dos mais de 40 mísseis lançados pelo Egipto e pela Síria, nenhum atingiu o alvo. Depois do Yom Kipur, houve um retrocesso e voltou a haver uma desconfiança das capacidades dos mísseis.

Decisão conservadora?
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Poderíamos dizer que a marinha de guerra portuguesa poderia ter sido mais exigente e mais ousada quando decidiu o que comprar, mas não nos podemos esquecer que a classe João Belo, é um produto francês. Uma classe de “avisos” segundo a terminologia francesa, tratando-se de um navio para escolta e serviço “colonial” a longa distância. Por isso nem mesmo os franceses estava a armar as suas” Commandant Riviére” com mísseis, que eles do mais não tinham, pelo menos apropriados para navios com aquelas características.

Marinhas próximas
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Considerando as marinhas mais próximas de Portugal, a França tinha incorporado havia relativamente pouco tempo os porta-aviões da classe Clemanceau, mas estes estavam equipados com oito canhões Creusot-Loire (iguais aos que armavam as João Belo). Os franceses tinham alguns navios de grande porte equipados com mísseis de alcance relativamente reduzido. A Espanha tinha nos contra-torpedeiros da classe Churruca, os seus melhores navios, com canhões de 127mm. Eram navios da segunda guerra mundial. Em África, a Africa do Sul, nada tinha que minimamente pudesse apresentar qualquer ameaça a este tipo de navios e nenhum dos outros países africanos representava qualquer ameaça para as fragatas mais antigas, quanto mais para estas. Além disso seria bastante complicado tais países formarem marinheiros com capacidade para operar tais navios e o auxílio soviético implicaria um re-alinhamento dos norte americanos, o que acabaria sendo favorável a Portugal.

Portanto, a marinha portuguesa optou pelo navio que parecia na altura, face ás ameaças existentes, o mais adequado e eficiente. Considerando ainda que a seguir á classe João Belo, Portugal entrou num programa de construção de mais dez grandes corvetas oceânicas, não fazia sentido por manifesta falta de recursos, considerar a aquisição de navios com mísseis, ou devolver as João Belo aos estaleiros para lhes alterar sistemas que eram em grande medida novos.

Além de tudo isto, o alcance e cadência de fogo das peças de 100mm das fragatas, tornavam-nos mais eficientes que alguns mísseis de curto alcance que entretanto foram aparecendo, como por exemplo o SEAWOLF que tinha um alcance inferior a metade do alcance das peças Creusot-Loire de 100mm.

Conclusões
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A Marinha de Portugal, provavelmente poderia ter, no fim dos anos setenta ou inicio dos anos oitenta, modernizado as fragatas João Belo, no sentido de as equipar com mísseis Exocet, transportando a marinha portuguesa para a erea dos navios equipados com mísseis, muito mais cedo. Os problemas económicos da altura e posteriormente a aquisição das fragatas Vasco da Gama, desviaram as atenções dessa modernização. O passar dos anos tornou tal modernização cada vez menos lógica. Os navios acabam a sua vida útil, com uma modernização efectuada já nos anos 90, ao nível da electrónica e dos sistemas, tendo sido definitivamente arquivados os planos de remoção das torres de popa, para a colocação de mísseis anti-aéreos e anti-navio.

As fragatas João Belo, considerando as necessidades do país, eram navios adequados aos cenários de guerra em que era previsível que viessem a estar envolvidas. A decisão de as comprar, foi conservadora, dentro da linha que seria normal de esperar do governo da altura. Foi mais grave não ter aproveitado o meio relativamente moderno para o modernizar, como fizeram os franceses, embora se compreenda porque tal não chegou a ser feito.

PJV
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 10.09.2004.


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