América do Norte
Sociedade / Política

A galinha de ataque e a segurança do mundo

por JPB
24.09.2008


As eleições nos Estados Unidos, são sempre uma referência para os países do ocidente. Desde que a América do Norte se afirmou como principal fonte de poder no mundo que quem reside no numero 1600 de Pennsylvania Avenue, determina de um modo ou de outro a forma de viver de muitas das pessoas no planeta.

Quando as próximas eleições americanas se aproximam a passos largos, é natural que olhemos para a realidade daquele país e tentemos entender o que se passa no reino do Tio Sam.

Nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, em que se apresentou aos eleitores um presidente Bush ainda chamuscado pela operação de invasão do Iraque, a Europa e parte dos países do chamado Mundo Ocidental, ficaram aturdidos e surpreendidos com a vitória de um George Bush que deveria ter perdido as eleições.
- Deveria, mas não perdeu !

Existem nos Estados Unidos milhões de pessoas com bom senso suficiente para entender o que estava em jogo e o que poderia acontecer com um segundo mandato de George Bush filho. Mas mesmo assim, o presidente norte-americano foi reeleito.

Porque foi Bush reeleito?

Esta é uma questão a que muita gente, especialmente na Europa mas não só, não tem como responder, porque não entende como funciona a cabeça de uma parte do eleitorado dos Estados Unidos.

Em muitos dos estados do chamado Midwest americano e em estados do norte, o conservadorismo e a influência das seitas religiosas, dos movimentos evangélicos e outros movimentos cristãos que nos habituámos a chamar de fundamentalistas, têm um poder eleitoral que é suficiente para garantir a vitória de um candidato conservador numa eleição.

Estas pessoas, que consideram viver segundo altos padrões morais, têm do seu país uma visão messiânica, acreditando piamente que os Estados Unidos são uma nação tocada por Deus, a melhor nação da Terra, e que o sucesso norte-americano está directamente relacionado com a devoção que eles mostrarem perante o Criador.

Creacionistas, evolucionistas e a religião influenciando a politica

Entre estes grupos de fundamentalistas religiosos, está presentemente em voga, a ideia do Creacionismo, que se opõe à do Evolucionismo.
Ou seja, muitos americanos acreditam que as próprias escolas do país devem recusar a teoria da evolução das espécies, substituindo-a pela visão fundamentalista da Bíblia, partindo portanto do principio de que a sua interpretação literal, implica que Deus criou todos os seres vivos ao mesmo tempo, e que esses seres nunca evoluíram, tendo aparecido por um estalido de dedos da Divindade.

Estas teorias, e estas visões fundamentalistas, das quais a teoria da Criação é apenas um exemplo, que se poderiam explicar num país onde não existissem escolas, ou onde as escolas tivesse sido substituídas por madrassas geridas por um Mulah terrorista, são no entanto professadas e defendidas por pessoas com estudos superiores, professores, engenheiros e políticos, que chegaram ao ponto de modificar os planos de ensino de alguns estados, para remover as referências à teoria da evolução, substituindo-as pelas teorias fundamentalistas da criação.

Tais comportamentos e teorias, completamente incompreensíveis para muita gente na Europa, nos próprios Estados Unidos, e no resto da América, estão no entanto a ganhar terreno, num mundo onde cada vez há mais problemas, e crises quer económicas quer de valores.

Sarah Palin, recorrendo aos fundamentalistas

É exactamente deste extracto da sociedade norte-americana que surge a actual candidata a vice-presidente dos Estados Unidos, Sarah Palin.
Candidata a vice com John McCain, um antigo militar norte-americano que era visto no seu próprio partido como pouco convencional, a candidata pretendeu rejuvenescer uma campanha que à partida parecia ter pela frente uma tarefa quase impossível.

Aquando das suas primeiras declarações à imprensa sobre temas internacionais, Sarah Palin afirmou que no caso da Geórgia, os Estados Unidos poderiam ser forçados a entrar numa guerra com a Rússia.

Em todas as chancelarias europeias e na Rússia, a candidata foi automaticamente ridicularizada, afirmando-se que estava ali a prova da sua incompetência.
Não parece porém que Sarah Palin estivesse assim tão deslocada da realidade. O que a candidata a vice dos Estados Unidos disse, foi o que qualquer pessoa com uma visão messiânica do país diria.
A América sendo um facho de luz e de esperança no mundo, deverá acorrer ajudando os seus aliados, especialmente os países pequenos e indefesos. Nada de novo portanto.

O problema da experiência

Um dos principais problemas que se colocam perante um cargo com a responsabilidade de presidente da mais poderosa nação da terra, é o problema da experiência na resolução de crises.

Na verdade, muitos presidentes norte-americanos não tinham qualquer experiência em termos internacionais, mas isso nem sempre são boas notícias.
No final da II Guerra Mundial com a morte de Roosevelt, ascendeu ao poder o seu vice, Henry Truman, um presidente rústico, vindo de uma área rural do estado do Missouri, e que não tinha qualquer entendimento de questões internacionais. A sua fraca capacidade para a diplomacia ficou clara, quando sem grandes problemas mandou rebentar duas bombas atómicas no Japão para acabar com a guerra.
Mas ao mesmo tempo, e ao contrário do anterior presidente, Truman foi detestado pelos russos. Mal-educado, um camponês, Truman não era conhecido por ser bem-falante. Quando os russos o testaram na Coreia, Truman não esteve com grandes problemas para enviar tropas e fazer recuar os exércitos comunistas.

Ao longo da segunda metade do século XX, presidentes americanos enfrentaram a União Soviética de várias formas, mas os mais eficientes foram aqueles que jogaram a roleta russa com os russos. Foi o caso da crise dos mísseis de Cuba, em que Kennedy mandou bloquear a ilha, dando ordens se necessário para que os navios russos fossem abordados, e levando a União Soviética a recuar.

Reagan, também tinha a visão messiânica da América, e o seu plano tecnológico chamado Guerra das Estrelas, levou a URSS a tentar igualar um plano que nem existia. A nação comunista investiu tanto dos seus recursos em armamentos, que acabou falida e derrotada sem disparar um tiro.

Vantagens e desvantagens de um presidente com uma visão messiânica da América

Não é grande novidade para ninguém, que se há coisa que os russos detestam nos americanos, é exactamente a visão messiânica de muitos dos seus políticos.

Para um general russo, que gosta de planear cuidadosamente todas as suas jogadas, como se fossem um jogo de Xadrez em que há sempre jogadas já pré-estudadas para cada acção do adversário, um presidente imprevisível, é a pior coisa que se pode esperar.

Portanto, uma vice-presidente como Sarah Palin, poderá constituir uma má notícia para o Kremlin, exactamente porque o Kremlin não gosta do factor imprevisibilidade que a eleição de McCain implica.
A Rússia pensará sempre muitas, muitas vezes, antes de agir na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, com um presidente como McCain ou eventualmente como Sarah Palin.
Imprevisível, é demasiado perigosa para os generais russos, que gostam de jogar Poker e não gostam de ser encostados à parede.

Mas se a eventual eleição de um candidato(a) com ligações ao fundamentalismo religioso poderia ter as suas vantagens num campo, poderá porém der desvantagens noutros.

A visão messiânica dos Estados Unidos de Sarah Palin, é em tudo idêntica à do actual presidente George Bush. Essa visão do mundo e da América, levou o presidente e os seus conselheiros a fazer uma campanha em que se deu especial relevo ao facto de Bush ser um homem relativamente simples e que agia conforme o coração lhe dizia para agir. Bush chegou a afirmar que falava com Deus para pedir conselhos.

Não sabemos que conselhos Deus deu a Bush, mas se Deus deu algum conselho, ou Deus não percebe nada de economia ou de relações internacionais, ou então Bush estava a ouvir um programa de humor na televisão do quarto ao lado quando recebeu as suas mensagens divinas.

Os líderes da América Profunda, como Bush ou como a candidata Sarah Palin, representam deste ponto de vista um perigo para todo o mundo.
A análise que George Bush fez do então presidente da Rússia Vladimir Putin, é uma demonstração de que os instintos dos neoconservadores norte-americanos são uma desgraça.
Bush olhou para Putin nos olhos e viu um homem com o qual se podia falar. A acreditar nos últimos acontecimentos Putin enganou Bush, embora aí todo o mundo se possa queixar do mesmo problema.

Para piorar as coisas, uma candidata como Sarah Palin, vinda do extremo noroeste dos Estados Unidos, não só não tem qualquer experiência para lidar com as principais potências hostis do planeta, como além disso, parece continuar a acreditar numa velha e estafada visão do mundo, segundo uma perspectiva anglo-saxonica, que acha que tem algum tipo de superioridade moral ou cultural sobre os outros países, superioridade essa garantida pela graça Divina.

Uma fundamentalista, que se poderia chamar de Talibã americana, Sarah Palin, é contra a interrupção da Gravidez e contra a educação sexual nas escolas do seu estado. Nem a propósito, a sua própria filha menor, sem educação sexual na escola, e aparentemente nem em sua própria casa, engravidou aos 15 anos.
É o mundo ao contrário. A teoria da Criação transformada em teoria da Desevolução. A candidata a vice-presidente dos Estados Unidos também seria neste caso uma demonstração clara, de como através da teoria da Desevoluçao, uma mulher se pode transformar numa galinha tonta.
Uma galinha, que pode vir a comandar os destinos do mundo.

Este texto é da autoria de JPB e foi publicado em 24.09.2008.


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