Portugal
História Militar

Meio milénio do começo do império

por Paulo Mendonça
03.02.2009


A data de 3 de Fevereiro de 2009, marca uma efeméride que poucos viverão.

Neste dia, passam exactamente 500 anos, meio milénio, sobre aquela que foi a mais importante batalha naval da História de Portugal.

Sem ser conhecida na maior parte dos países do mundo, a batalha de Diu, marcou também aquilo que ficou conhecido na Ásia como a Era Vasco da Gama, que caracterizou o domínio das potências europeias, primeiro Portugal, depois a Holanda e finalmente a Grã Bretanha as costas do Oceano Indico.

A batalha que se travou há quinhentos anos, representou a demonstração do enorme poder que um país pode obter quando consegue o controlo dos mares.

De todas as nações do mundo que criaram impérios, Portugal foi a que criou o maior de todos, quando em comparação com o seu tamanho diminuto.

Após a incrível vitória na batalha de Diu, o poder do minúsculo estado europeu, colocado numa posição periférica no concerto das nações europeias, aumentou exponencialmente.

Ao mesmo tempo que o seu poder económico acarretava a ruína das potências do Mediterrâneo, os portugueses lançaram as fundações daquele que seria o mais duradouro dos impérios europeus depois do império Romano e do império Bizantino.

Portugal, um país pobre e onde nunca acontecia nada, deu inicio a um processo que hoje conhecemos como globalização, arrastando o eixo do comercio europeu do mediterrâneo para o Atlântico, projectando-se no Indico.

O poder económico do país, nos anos que se seguiram à batalha, e ao estabelecimento do domínio marítimo português no Indico também aumentou exponencialmente.

Portugal transformou-se por via das especiarias e das riquezas da Índia, no mais rico país da Europa, ultrapassado apenas pelos potentados asiáticos, que na altura era muito mais ricos que os países europeus, embora fossem do ponto de vista naval, relativamente débeis. Já os portugueses nunca conseguiram um domínio terrestre, porque os seus reduzidos efectivos não o permitiam.

No norte da Índia, temia-se o poder crescentes dos Mughal e os reinos muçulmanos e indús, degladiavam-se entre si. Portugal alia-se ora com uns ora com outros, mas mantém uma clara superioridade militar no Mar.

Como os reinos da Índia estavam em guerra uns com os outros, muitas das trocas e do comércio tinha que fazer-se por mar. E é aí que o poder dos portugueses se vai mostrar de grande importância.

A superioridade técnica dos navios portugueses vai garantir o controlo marítimo, e com essa garantia, o domínio sobre grande parte das transacções comerciais entre os estados da Índia e entre os estados da Índia e os restantes países das costas do oceano Índico.

O declínio do império

O domínio marítimo português entraria em declínio, quando outras potências chegaram ao Índico e quando Portugal, começou a decair também em grande parte vitima da corrupção interna, dos golpes e dos truques das elites que governavam o país.

Muitos pagavam para terem o direito a administrar uma praça no oriente nem que fosse por apenas dois ou três anos. Ao fim desse período de tempo, estava feita a fortuna para uma vida inteira.

Os portugueses ganharam assim, na Índia a fama de um povo de ladrões e de salteadores, muito por culpa de grupos das elites da nobreza e da burguesia de Lisboa que em nome de Portugal roubaram, exploraram e mataram.

O império começou a decair não por culpa dos holandeses, do domínio dos espanhóis ou da ascensão dos ingleses.

Será a corrupção uma característica portuguesa ?

O império começou a decair, porque grupos de facínoras portugueses, com o apoio do governo que tinham corrompido, começaram a destruir tudo o que os seus antecessores tinham construído. Este processo começou poucos anos depois da batalha de Diu ter iniciado um período de domínio militar e de presença no Índico que só terminaria em 1974.

A ascensão e a inevitável queda do Império português (e todos os impérios tem um fim), teve muito a ver com a intervenção dos próprios portugueses.

Desenganem-se os que pensam que a corrupção, o compadrio, ou os negócios por debaixo da mesa, são uma característica dos portugueses de hoje.
Os negócios escuros, o poder do Estado como patrão corrupto, o desleixo da administração pública, já eram características que se apontavam às elites portuguesas em pleno século XVI no auge do império.

O país foi no entanto capaz de resistir contra ventos e marés.
Junto com a ânsia corrupta das elites de Lisboa, navegou também um espírito de apego à terra e à ideia de Portugal, em suma à ideia de Liberdade.

Por isso mesmo nos momentos mais negros, em que a corrupta elite portuguesa nos enoja, com o seu comportamento devasso e ladrão, com a sua falta de princípios, de ética ou moral, mesmo assim, continuamos contra ventos e marés a acreditar que um povo tem o direito de ser livre, mesmo que tenha para isso que pagar muito caro.

O Império, cujo estabelecimento efectivo se marca no dia 3 de Fevereiro, ou um dos pilares que permitiu garantir a liberdade do povo e do país.

Hoje não temos império, mas continuamos a ser um povo que não parece querer desistir da ideia de Portugal.

Muitos dos nossos políticos no entanto, hoje como ontem, estão dispostos a prostituir o país, se isso lhes der algum benefício pessoal.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 03.02.2009.


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