Portugal
História Militar

Trocar a cruz pela espada

por Paulo Mendonça
26.04.2009


Ocorreu hoje em Roma na Praça de S.Pedro a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, que desde há bastante tempo tinha já ascendido à condição de Santo, canonizado não pelo Papa mas pelos cidadãos portugueses.

A relação entre Deus e a guerra, existe desde que as sociedades adoram divindades e a elas recorrem para auxílio em situações onde a vitória não é assegurada.
São famosas as oferendas aos Deuses feitas pelos generais do império romano, que faziam sacrifícios aos deuses de Roma, mas também aos deuses dos inimigos, para aplacar a sua ira.

A Igreja normalmente considera Santos, os fieis que se destacaram pelo seu comportamento exemplar, quanto ao seguimento das regras e procedimentos dessa mesma Igreja.

É por isso que a canonização de D. Nuno Alvares Pereira tem um significado curioso, pois afinal, por muitas que tenham sido as obras piedosas do agora Santo e por muito demonstrada que tenha sido a sua humanidade e o seu respeito e devoção por Deus, é impossível dissociar D. Nuno Álvares Pereira daquilo que o distinguiu para a História: O facto de ter sido um líder militar.

E não foi um líder militar qualquer.

Num país que como Estado Independente conta já com quase 900 anos de História, e que encontra as raízes da sua identidade mais remota nas lutas dos povos da Lusitânia contra o império romano, muitos são os líderes militares que se destacaram, normalmente na afirmação dos direitos desse povo ou povos do ocidente da Península Ibérica.

D. Nuno Álvares Pereira, como Condestável e chefe militar das forças do Reino de Portugal, numa altura em que a sua existência era colocada em perigo, é provavelmente um dos mais destacados de entre os destacados chefes militares portugueses.

Durante a crise dinástica de 1383-1385, e dentro do contexto da guerra dos 100 anos, em que a França e a Inglaterra se digladiavam, tendo a França o apoio do reino de Castela e a Inglaterra o apoio de pelo menos parte de Portugal, a existência do pequeno reino do ocidente peninsular esteve em causa.

Tivesse Portugal sido derrotado em Aljubarrota e o rei escolhido por grande parte do povo - o Mestre da Ordem de Avis, aclamado Rei D. João I de Portugal - sido morto aprisionado ou privado do reino, o mais provável, é que Portugal fosse hoje nada mais que uma triste região descaracterizada e morta, dentro da grande nação castelhana, que hoje conhecemos como Espanha.
Esse foi aliás o destino da Galiza e do Reino de Leão, completamente descaracterizados.

Podemos dizer que graças a D. Nuno Álvares Pereira, nos livrámos de fazer parte desse erro da História que se conhece como Estado Espanhol.

A batalha de Aljubarrota, marco absoluto da aspiração de um povo à Liberdade e ao Direito de Existir, ganha assim mais um símbolo, reconhecido pela própria Igreja.

Há curiosamente um outro símbolo, bastante mais simples, popular e impossível de canonizar.
Trata-se do símbolo representado pela Padeira de Aljubarrota, que representa a raiva incontida dos portugueses, perante a violação da sua terra por estrangeiros que aqui chegaram vindos de Espanha para a roubar, para a violar e para a conspurcar com a sua presença.

Não parece ser de todo impossível que tenha sido a violência da reacção popular e a perseguição sem quartel que foi movida aos castelhanos depois dos fatídicos 30 minutos de batalha (em que o enorme exercito castelhano-francês foi desbaratado) que esteja entre as razões da conversão de D. Nuno Alvares Pereira, que conforme se aprendia nos livros de História trocou a espada pela cruz.

Muito poderão dizer os Homens da Igreja, sobre as benfeitorias e a devoção do agora S. Nuno Álvares Pereira.

Mas, acima de tudo, há que ter em consideração que se trata de um Santo da Igreja, que como português lutou pelo Direito de um povo a ser Livre.

Saibamos portanto ser dignos da lição que se nos oferece para estudar.
Devemos ter a capacidade de trocar a espada pela cruz, de perceber que a violência gera violência e que é preferível a Paz à Guerra. Sempre assim foi.

Saibamos no entanto também estudar o significado dos actos.

Podemos trocar a espada pela cruz, mas não devemos nunca achar que chegámos ao fim da História e que Portugal nunca mais precisará ser defendido.

Desenganem-se os pacifistas falsos, que querem acreditar cegamente na bondade de vizinhos ou supostos aliados.

D. Nuno Alvares Pereira trocou a espada pela cruz.

Mas se não soubermos entender o que está em jogo, se não formos capazes de defender aquilo que representa a ideia de Portugal, então não seremos dignos nem de D. Nuno, nem de Padeiras, nem de D. Afonso Henriques.

Não seremos dignos de nada, se quando for necessário, não percebermos que se há momentos em que é preciso trocar a espada pela cruz, também haverá no futuro momentos, em que será preciso trocar a cruz pela espada.

A História não acabou, e voltará a repetir-se.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 26.04.2009.


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