Portugal
Marinha

Submarinos alemães, graças a Deus

por Paulo Mendonça
14.09.2010


Na passada semana, foi finalmente efectuada a cerimonia oficial de recepção do primeiro de dois submarinos da marinha de guerra portuguesa, foi recebido o NRP Tridente que se seguirá o NRP Arpão,

Não é função deste site, tecer muitas considerações sobre todos os escândalos e pseudo-escândalos que terão envolvido a questão da aquisição dos submarinos. Tais questões são necessariamente acessórias e têm sido utilizada como arma de arremesso entre políticos, que colocam os seus interesses partidários acima dos interesses do país.

Perante a irresponsabilidade dos políticos, compete ao cidadão que pretende estar informado, que se preocupa com questões relacionadas com a defesa, mas que perdeu toda a confiança na classe política, saber se o seu dinheiro foi bem gasto e se quem tomou a decisão de adquirir aqueles sistemas de armas tomou uma decisão correcta do ponto de vista técnico, tendo em consideração o interesse nacional e os dados publicamente disponíveis.

Se aquela opção de compra é justificável, o cidadão naturalmente dará a importância devida às críticas que são movidas por interesses mesquinhos de políticos (incluindo-se aqui os do sexo feminino, em exílios dourados no Parlamento Europeu) que só se preocuparam com contrapartidas, quando perceberam que os cofres do seu partido não receberiam contrapartida nenhuma.

O concurso

Estas linhas limitam-se a lembrar muito por alto o que grande parte dos interessados no tema já sabe.

A marinha portuguesa lançou no inicio dos anos 90 um concurso internacional para a substituição da sua envelhecida frota de quatro submarinos da classe Daphné, adquiridos quando o primeiro ministro era ainda Oliveira Salazar.
Numa primeira fase houve vários concorrentes que foram eliminados e propostas alternativas que também não foram consideradas satisfatórias.
Exemplo disso é a oferta feita a Portugal pela Grã Bretanha de submarinos em segunda-mão, mas quase novos. Tratava-se de navios da classe Hupholder (deslocamento submerso de 2.455ton e tripulação de 47 militares). Estes navios que acabaram sendo fornecidos ao Canada eram um projecto desenhado no final dos anos 70 e considerado demasiado grande e relativamente ultrapassado.

Outros projectos foram eliminados, entre os quais um projecto holandês, outro italiano e outro sueco.
O que é importante frisar é que quando se aproximou a altura da decisão final havia duas opções em cima da mesa. Uma delas era o submarino francês Scorpene, que estava já em construção embora ainda não tivesse entrado ao serviço e um projecto alemão, baseado nos submarinos do tipo U-209, desenhados nos finais dos anos 60.

AIP

O principal factor que distinguia os submarinos que chegaram à fase final dos restantes, era a possibilidade de inclusão de um sistema que permite ao submarino manter-se debaixo de água durante mais de duas semanas, mantendo assim uma total discrição.
Tanto o submarino francês Scorpene como o alemão U209-1500[1] apresentavam esse sistema como opção, podendo a marinha comprar o submarino sem ele, optando por instala-lo no futuro.

O sistema AIP (Air Independent Propulsion ou Sistema de Propulsão Anaeróbico) torna possível locomover o navio debaixo da água, sem recurso a um «Snorkel», tal como acontece com os submarinos de propulsão nuclear, ainda que a velocidades muito menores.

A estranha designação «U209PN»

Provavelmente a questão menos «limpida» no caso dos submarinos, para quem a analisa desde fora e tecendo considerações ligando as pontas conhecidas, foi o que aconteceu de seguida:

Conforme foi noticiado pela imprensa e se tornou assim semi-público, a marinha portuguesa terá mostrado preferência pelo modelo francês «Scorpene», porque este era mais moderno que o alemão «U209-1500» o qual tinha sido desenhado no final dos anos 60, ainda que profundamente modernizado.

Não é possível saber que informação os alemães obtiveram, como a obtiveram, ou se a obtenção foi feita de forma legítima.
Parece no entanto absolutamente claro para o observador externo, que só a certeza por parte do consórcio alemão de que os decisores na marinha portuguesa iriam escolher o francês «Scorpene», poderia ter explicado a absolutamente radical e arriscada alteração da proposta alemã que se seguiu, e que só pode ser considerada uma «rasteira».

O consórcio alemão arriscou tudo. Se até ali tinha apresentado uma proposta para vender um submarino U209-1500, quando fez o «último lance» do concurso, apresentou aos portugueses uma proposta não para o U209-1500, mas sim para o muito mais sofisticado e moderno U214. Tentou-se tapar o truque com sucesso, pois o U214 foi baptizado de U209PN [2]. Os franceses protestaram, o navio chegou a ser designado «U214 disfarçado», o advogado da DCN, José Miguel Júdice protestou nos jornais pedindo seriedade, mas a situação ficou por ali.

U214 alemão versus Scorpene francês

Se os franceses da DCN tinham vantagem com o Scorpene contra o mais antigo U-209-1500, a situação alterou-se completamente quando em vez dele foi apresentado o U214. Este sistema apresentava características que permitiam considera-lo um sistema de armas superior ao Scorpene francês, mas acima de tudo tinha uma característica que o diferenciava mais que todas as outras:
O U214 não tinha o AIP como opção, mas sim como sistema incluído à partida.
Comprar o U214, implicava entrar directamente no restrito clube de países que tinham encomendado submarinos com aquele sistema de propulsão.

Entre os problemas estava naturalmente o preço. O U214 aparecia sempre como uma opção mais cara, porque ele tinha que incluir o sistema AIP. Esta diferença, fez com que o preço aparente do submarino francês fosse mais reduzido, o que é normal, para um navio que não tinha aquele sistema .

Mas as razões para optar pelos submarinos alemães não se ficavam pelo simples facto de um possuir um sistema AIP de raiz e o outro não, pois neste caso, o submarino francês teria vantagem por ser mais flexível.

Ocorre, que os sistemas de propulsão anaeróbica alemão e francês são profundamente diferentes. Assim, o sistema alemão funciona com células de combustível, com energia eléctrica produzida por membranas onde se dá uma reacção química.
Este sistema apresenta entre outras, a vantagem de produzir relativamente pouco calor (80 graus centigrados) e de ser muito compacto.

Já o sistema francês, conhecido como MESMA, é uma turbina que funciona em circuito fechado e que atinge uma temperatura de 700 graus centigrados.
A DCN (o fabricante francês) alega no entanto que esta questão é pouco importante, já que a França tem experiência neste sector. Os franceses alegam que utilizam um sistema para arrefecer a turbina, que é derivado do mesmo sistema com que arrefecem os reactores dos seus submarinos nucleares, utilizando para o efeito a água do mar.

A argumentação procede, e dava ao Scorpene o ar de «derivado de submarino nuclear», mas isso não podia ocultar o problema do aumento da complexidade. O sistema francês, acabava sendo mais complexo e também mais volumoso, o que o era desvantajoso.

Prova de que o sistema é visto como inferior, é o facto de até as marinhas que adquiriram o submarino francês Scorpene, terem rejeitado o sistema MESMA, optando por não o instalar (Chile, Malásia, Brasil) ou por um sistema alternativo (Espanha) [3].

Estes factores, a superioridade dos sistemas submarinos alemães, a superioridade do sistema AIP alemão, e o facto de o navio alemão ser fornecido já com propulsão anaeróbica, explicam em grande medida o facto de o submarino alemão ser mais caro.

E se o submarino fosse um automóvel ?
A título de comparação e curiosidade, se os submarinos que estiveram a concurso fossem automóveis, estaríamos a comparar coisas diferentes, da seguinte forma:
De um lado temos uma viatura alemã na sua versão GT, que vem de série com tecto de abrir e Air Bag. A viatura alemã só é vendida com esses extras incluidos e o preço final ressente-se disso, tornando o veículo mais caro.
Do outro lado temos uma viatura francesa, na sua versão base, sem tecto de abrir nem Air Bag. Mas a versão francesa permite no futuro que se corte o tejadilho para colocar um tecto de abrir e permite adicionar um ar condicionado. Ambas as coisas podem ser feitas mais tarde. O preço inicial do carro francês, será no entanto sempre mais barato, porque não se sabe qual seria o custo real da instalação futura destes extras.

Além disso, e embora os dados oficiais continuem apenas a indicar uma profundidade de operação superior a 300m, várias estimativas sobre a real profundidade a que o submarino U214 pode operar, levam a especulações sobre a possibilidade de estes sitemas poderem atingir profundidades que superam tudo o que até hoje se atingiu em termos de submarinos convencionais.

Sempre se soube que o tipo de aço e configuração estrutural dos submarinos da série U214 era superior à dos U209. Também se sabe – porque o próprio fabricante o afirmou – que o seu meio-irmão também alemão o U212, que foi construído com um casco em aço especial amagnético, (que pelas suas características é muito menos resistente à pressão) é mais limitado no que respeita à profundidade máxima atingida, ainda que oficialmente ele também atinja uma profundidade superior a 300m.
Estes factos levam a especulações que resultaram em afirmações não confirmadas e não oficiais de que o navio pode atingir uma profundidade de 550m e uma profundidade de esmagamento estimada em 750m. Estes valores tornariam ainda mais clara a vantagem do U214 relativamente ao concorrente francês.

Conclusão
A Opinião Pública, não dispõe de meios para ajuizar sobre ilícitos que terão alegadamente ocorrido e de alguma forma estado relacionados com a aquisição dos submarinos da marinha portuguesa.

No entanto, tendo em consideração os factos conhecidos, as características técnicas conhecidas e a utilização a ser dada aos sistemas de armas, parece ser claro que mesmo com uma análise não exaustiva dos factos e dos dados que são do domínio público há uma conclusão inevitável:

Não pode ser posta em causa a validade da opção técnica que levou à aquisição do submarino U214 (ou U209PN, na sua designação oficial) em desfavor do concorrente francês Scorpene.

A marinha portuguesa adquiriu o melhor submarino e o que - quando completo com todos os sistemas - aparentava ter o custo mais baixo.

A opção fazia todo o sentido na altura em que a decisão foi tomada, e continuaria a fazer todo o sentido no dia de hoje.
A escolha do submarino Scorpene, se tivesse ocorrido, essa sim, teria sido um escândalo nacional.

Permitimo-nos mesmo acrescentar uma opinião:
Se todas as decisões de compra de armamentos, e se todas as decisões governamentais sobre vários dos problemas que afectam o país, fossem tão fundamentadas, tão lógicas e tão claras como as que levaram à aquisição do NRP Tridente e do NRP Arpão, viveríamos seguramente num país com menos problemas.




[1] – U209-1500 é a designação provisória dada aos submarinos do tipo U209 propostos a Portugal antes de o consórcio alemão ter feito a proposta final de um U214 a que chamou U209PN.
[2] – A designação levou a situações anedóticas. Quando pela primeira vez o submarino português viu a luz do dia, os entusiastas da construção naval na Alemanha, que tiraram fotografias ao navio e tinham assumido que o U209PN seria um modelo derivado do velho U209, afirmaram que tinha sido construído um U214 para algum cliente secreto, pois ninguém sabia, quem era o comprador do navio.O comprador secreto era afinal Portugal, o U209PN era afinal um U214 e a verdade veio ao de cima, quando as fotografias começaram a correr mundo.
[3] – A única excepção a este caso é a marinha do Paquistão, que adquiriu o sistema MESMA.
[4] – Valor teórico medido em metros e que determina a que profundidade a pressão da água esmagaria o submarino.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 14.09.2010.


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