Asia e Oceania
Força Aérea

J-20: um caça Stealth para a China

por Paulo Mendonça
04.01.2011


Não deixa de ser curiosa a alegada surpresa com que alguns meios ocidentais receberam a notícia da primeira aparição publica de um caça chinês, que aparenta ter características «Stealth» ou de furtividade.

Na verdade, durante o anos 2010 e especialmente desde Julho/Agosto, que essa possibilidade era dada como muito provável.
Podemos mesmo afirmar que a única coisa estranha foi que as fotos fossem divulgadas antes do dia de Natal, quando estaria prevista a sua divulgação apenas um ou dois dias antes da passagem do ano, o que seria de bom augúrio, segundo a tradição chinesa.

Mas afinal, o que é que os chineses mostraram ?

Grande parte do que foi até ao momento divulgado, é especulativo, e no meio das especulações aparecem os entusiastas da aviação e dos equipamentos militares com visões fantasiosas que distorcem muitas vezes a realidade e o raciocínio frio.

O que sabemos de concreto é que a China tem vindo a estudar o desenho de uma aeronave furtiva. Ou seja: uma aeronave cujo formato torna mais difícil a sua detecção e identificação pelos radares.
Isto é importante para evadir os radares das aeronaves inimigas, como também o é, para fugir dos mísseis anti-aéreos de médio alcance lançados pelos aviões inimigos e que também utilizam um radar para detectar os alvos.

Os estudos chineses terão começado nos anos 90 com a pesquisa de soluções que aplicassem os conceitos que os norte-americanos estavam na altura a por em prática nas aeronaves F-117, e que foram apresentados nas propostas da Boeing e da Lockeed-Martin para um caça de superioridade aérea que viria a ser o F-22 «Raptor», que voou pela primeira vez em Setembro de 1990.

A recusa chinesa de co-desenvolver o Sukhoi T-50

Há vários rumores de que os chineses aproveitaram o facto de a industria russa estar naquele momento (anos 90) praticamente sem rumo, para beber parte dos desenvolvimentos da antiga União Soviética, que também tinha tentado desenvolver uma aeronave com capacidade Stealth.
Essa aeronave seria desenvolvida pelo gabinete MiG, conhecida como MiG-1.44.

O alto custo de desenvolvimento de um caça furtivo na segunda metade dos anos 90 acabaria por levar os russos a desistir do desenvolvimento de uma aeronave que era verdadeiramente nova. O processo também se atrasou e só depois da passagem do século é que as autoridades russas tomaram a decisão de desenvolver uma aeronave Stealth mais económica, utilizando a estrutura do enorme caça Su-27 «Flanker». Esse modelo seria o Sukhoi T-50.

Portanto, tudo leva a crer, que o Sukhoi T-50 começou a ser desenvolvido depois do projecto de caça Stealth chinês.
Isto poderá explicar outra ocorrência que deixou muita gente a coçar a cabeça: A recusa chinesa de participar no desenvolvimento do Sukhoi T-50.
Houve comentadores que afirmaram que a única explicação para a recusa chinesa, seria o desenvolvimento de um caça próprio.

No entanto, os tradicionais problemas industriais e de qualidade típicos dos chineses e os longuíssimos prazos de desenvolvimento, acabaram por deixar esta tese congelada, por ser pouco plausível.

J-7FS (acima) e MF (abaixo): Derivados do MiG-21 estudados pelos chineses mostram capacidade relativamente autónoma para desenvolver novos sistemas, mas o aumento na rapidez dos desenvolvimentos é o facto mais importante.
Entretanto, os chineses tinham na calha um desenvolvimento radical do MiG-21, o único caça verdadeiramente eficiente que a China fabricava. Essa aeronave convencional, seria uma soma de um projecto russo de modernização do MiG-21 com ideias e conceitos ocidentais e veria a luz do dia na forma do caça J-10.

Após lançar o J-10, a China continuou a estudar o seu desenvolvimento futuro. Apenas 4 anos após a entrada ao serviço do J-10A, os chineses apresentaram uma nova versão, conhecida hoje como J-10B.
O novo caça, surpreende por duas razões. A primeira naturalmente, é a rapidez com que uma modernização da aeronave foi apresentada. A outra é a escolha da nova tomada de ar do motor, sem peças moveis, o que permite reduzir a assinatura radar da aeronave.

Este tipo de solução, tinha sido estudada pelos chineses e foi vista a voar ainda nos anos 90 no modelo de caça J-7FS, um derivado do J-7, o MiG-21 chinês.
A introdução desta solução (não utilizada por outras aeronaves ocidentais ou russas), demonstra acima de tudo, que a industria aeronáutica chinesa está a estudar soluções próprias e não a copiar novos conceitos.
Demonstra também que os chineses não só estão a estudar novos conceitos como estão a aplica-los à realidade.

Perante a análise destes factos, não deixa de ser estranho verificar que parte da imprensa e dos analistas quer nos países ocidentais quer na própria Rússia, façam afirmações mais ou menos pejorativas sobre o futuro caça «furtivo» da China.

Mas há mais, um segundo caça…

Aparentemente, o aparecimento de fotos de uma aeronave, que já ninguém afirma ser um modelo em metal e madeira fez esquecer, que há várias referências a uma outra aeronave «furtiva» chinesa, que ao contrário do agora apresentado «J-20» (que tem duas tomadas de ar laterais) apresenta apenas uma tomada de ar ventral. Esse modelo tem sido referido como J-14, ainda que possa ter sido confundido com o J-10B apresentado há pouco tempo.

A tomada de ar do J-7FS e do J-10B: O estudo continuou desde os anos 90. A China prossegue desenvolvimentos próprios não copiados de outros projectos. Um outro caça Stealth monomotor com uma tomada de ar idêntica à do J-10B, poderá estar em desenvolvimento.


Neste momento, esse poderá a ser o mais guardado segredo da aviação militar chinesa: Um segundo caça «Stealth» monomotor.
Existem neste momento vários rumores sobre o desenvolvimento de uma terceira versão do próprio caça J-10B. A nova tomada de ar incorporada é apenas uma das modificações que foram estudadas, mas o futuro monomotor Stealth chinês terá uma aparência distinta, embora mantenha a configuração de aeronave com um só motor.

Este seria o concorrente directo do caça norte-americano F-35 «Lightning II» e poderia ser uma solução de recurso, caso o projecto do J-20 não tenha um futuro positivo e encontre problemas de desenvolvimento que a industria chinesa não possa resolver em tempo útil.

Se é verdade que analistas militares ocidentais consideram a possibilidade de desenvolvimento de um segundo caça Stealth como improvável, sabemos que a China destinou ao projecto do seu caça furtivo, uma quantia em dinheiro estimada entre 50,000 e 60,000 milhões de dólares norte-americanos.
Se a China não tem a capacidade tecnológica para desenvolver essa aeronave (e não há porque achar que não a tem), então tem o dinheiro, sobre isso não há grande dúvida.

E ainda há mais …

Para os que duvidam das capacidades que os chineses aparentam estar a desenvolver, e especialmente no campo da aeronáutica, então bastaria lembrar que ainda no ano de 2008 as autoridades chinesas ficaram suficientemente seguras das suas capacidades, ao terem criado o consórcio COMAC, destinado ao fabrico e comercialização de aeronaves de transporte civil.

Os chineses voltaram a pegar no velho projecto de montagem do Douglas DC-9 dos anos 80 e voltaram a lança-lo no mercado chinês sob a designação ARJ-21.
Embora com base numa aeronave desenhada pelos americanos nos anos 60 do século XX o ARJ-21 será produzido em módulos por várias industrias chinesas. Receberá motores CFM europeus, e uma asa modificada, que vai permitir competir com aeronaves como os ERJ-170/195 da EMBRAER brasileira ous os modelos equivalentes da BOMBARDIER.
Juntamente com a versão de jacto regional para curtas/médias distâncias, os chineses anunciaram o lançamento de um novo projecto de aeronave, claramente destinado a competir no mercado de aeronaves de médio curso e média capacidade 130 – 170 passageiros. Se é verdade que a China produzirá apenas 30% da aeronave, também é verdade que passará a ser um competidor no mercado global.

A tendência está lançada e é clara. Só quem não quiser ver terá dúvidas.

Capacidade militar efectiva do J-20 ?

Tratando-se de armamentos, e portanto de sistemas destinados ao combate, acaba sendo no capítulo do «recheio» das aeronaves, que o problema da capacidade de combate efectiva de uma aeronave se coloca de forma mais crítica.

Se a China demonstrou que tem capacidade para desenvolver um protótipo que aparenta ser de uma aeronave com reduzida assinatura perante os radares, o país juntou-se a um clube de que também fazem parte os russos desde o ano passado e os norte-americanos desde há 30 anos, quando voou o primeiro F-117.

Mas se tanto russos quanto chineses conseguiram, 30 anos depois, apresentar as suas respostas, não é menos verdade que qualquer dos dois países está reconhecidamente atrasado, no que respeita aos sistemas de armamento e sistemas electrónicos que são essenciais para conseguir tirar o máximo partido das aeronaves «Stealth».

A principal característica de uma aeronave de quinta geração, é a reduzida assinatura-radar mas não só.
É necessário um radar moderno, que nem russos nem chineses possuem, pois os sistemas de que dispõem, embora sejam apresentados como novidades, são na prática «versões turbinadas» de modelos mais antigos e em muitos aspectos obsoletos.

É a diferença tecnológica, ou seja, a capacidade dos sistemas de combate, guerra electrónica, software e sensores modernos das aeronaves europeias como o Eurofighter «Lightning-II» o Dassault «Rafale» ou o caça sueco SAAB «Gripen», que explica que os europeus não estejam especialmente preocupados com o aparecimento tanto do J-20 como do Sukhoi T-50 no ano passado.

Na verdade, neste momento tanto a Rússia quanto a China possuem «cascas» modernas, mas não têm sistemas realmente modernos para colocar dentro dos aviões.
A forma mais rápida de resolver o problema, é a espionagem ou a associação com empresas europeias e norte-americanas.
Os russos pretendem conseguir vantagens junto dos ocidentais. A via indiana, que pretende desenvolver um derivado do Sukhoi T-50 na versão bi-lugar equipado com sistemas avionicos mais modernos aparece como uma solução a médio-longo prazo.

Já a China, não parece estar especialmente preocupada com o tempo.
O J-20 e eventualmente um futuro J-14 têm o mercado chinês assegurado e podem esperar. Para já a China ainda está a aprimorar o fabrico de sistemas russos, copiados dos caças Su-27 adquiridos pela China à Russia, mas a industria chinesa, cada vez mais ligada a interesses ocidentais, está a desenvolver-se a um ritmo muito superior ao que seria de esperar há alguns anos atrás.

Os produtos fabricados na China estão a aumentar gradualmente o seu nível de sofisticação e também o seu nível de qualidade. Ainda que muitos produtos chineses sejam vendidos a baixo preço e com qualidade mais que duvidosa, muitas industrias chinesas já estão a produzir produtos que têm que ser vendidos na Europa e nos Estados Unidos, sujeitando-se a critérios de qualidade que nunca poderiam ultrapassar há dez anos atrás.

O «know-how» que a China está a receber do ocidente, em média e alta-tecnologia será processado nos próximos dez anos pelos alunos que estão a sair das universidades chinesas aos milhares.
São formados mais engenheiros na China que na soma de todos os países europeus juntos. O «technological gap» entre a China e o ocidente provavelmente não desaparecerá nesta nem na próxima geração, mas a capacidade dos chineses para inventar e para encontrar novas soluções, é um facto histórico, que a arrogância de muitos no ocidente parece ter esquecido completamente.

O J-20, que voou no inicio de 2010 parece pelo menos para já ser um casca vazia. A China ainda não tem capacidade para a preencher, mas o crescimento da economia chinesa e o aumento do numero de engenheiros e técnicos especializados, mostra que é apenas uma questão de tempo.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 04.01.2011.


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