Guiné Bissau
Sociedade / Política

O Estado Falhado da Guiné-Bissau

por João Pedro Braz
21.04.2012


Pela enésima vez, a Guiné-Bissau, um dos mais instáveis países de África e de longe o mais instável dos antigos territórios africanos portugueses, encontra-se sem governo, como resultado de mais um golpe de estado, em que os militares tomaram o poder para defender os seus interesses.

Já perdemos a conta aos golpes de estado, às manifestações violentas, aos assassinatos de políticos e às situações de guerra que se viveram naquele território desde a independência, proclamada numa cena teatral, na gloriosa cidade capital de Madina do Boé constituída por três palhotas em ruinas à altura da declaração de independência.

Amilcar Cabral, um «cabo-verdiano»[3] odiado pela parte guineense do PAIGC, tinha já sido assassinado por causa das suas posições algo conciliadoras, que desagradaram aos que pretendiam substituir o controlo português do território, pelo controlo soviético, apoiados pela radio «Voz da Liberdade» que desde Argel, emitia intermináveis chorrilhos de mentiras sobre o que se passava nos territórios portugueses.

Hoje, a evolução cruel da história e a análise igualmente cruel da realidade, vem demonstrar para além de qualquer dúvida razoável, que a guerra na Guiné portuguesa nunca passou de um conflito entre blocos, em que a União Soviética apoiava ativamente a étnia Balanta e em parte a étnia Bijagó, para que estas atacassem os europeus e as restantes étnias guineenses, nomeadamente os povos do leste, como os Mandingas e os Fulas, estes últimos detestados pelos Balantas que os consideravam invasores.

País instável desde sempre

A Guiné-Bissau nunca teve estabilidade e a independência pela qual algumas etnias lutaram até 1974 (nunca se perguntou ao povo o que queria), cedo revelou não resolver absolutamente nenhum dos problemas do país.

A situação anacrónica em que viviam a Guiné-Bissau e Cabo-Verde, em que o mesmo partido (PAIGC) governava dois países diferentes, começou por ser uma das razões que levaram à primeira grande convulsão no país. A sonhada fusão entre a Guiné e Cabo-Verde, acabou gorada com o golpe de estado chefiado por João Bernardo Vieira (ou Nino Vieira) que derrubou da presidência Luis Cabral.

Luis Cabral, que tinha mandado assassinar os soldados portugueses negros, que haviam lutado por Portugal contra o PAIGC foi para o exílio em Cuba, depois de terem sido mostradas as valas comuns em que mandou amontoar os cadáveres dos soldados portugueses. Cabral foi posteriormente acolhido em Portugal, onde viria a falecer em 2009.

Nino Vieira, não logrou o desenvolvimento procurado.
Cedo se entendeu que a Guiné-Bissau não tinha uma economia viável e que teria que se integrar no espaço francófono em que se insere geograficamente, para tentar dali obter algum benefício.
Mas todos os projetos de industrialização falharam.

A fraquíssima base cultural da esmagadora maioria da população, junta à variedade de étnias e de grupos linguisticos, torna a gestão integrada de soluções praticamente impossível.
Os povos das ilhas têm objetivos muito diferentes dos dos povos do leste junto ao sul do Senegal, ou dos povos do sul, junto ao norte da Guiné-Conakri.

O problema do exército

Mas talvez o mais grave dos problemas guineenses resida no facto de ter sempre mantido umas forças armadas desproporcionais às necessidades e acima de tudo às capacidades económicas do país.

Em 1973, o PAIGC contava com carros de combate anfíbios PT-76, artilharia a foguete e mísseis anti-aéreos, ao mesmo tempo que utilizava a força aérea da vizinha Guiné-Conakri, que estava virtualmente em guerra contra Portugal, ainda que não a tivesse declarado oficialmente.
Até uma dezena de tanques T-34/85 foram recebidos pelas forças armadas do país.

O exército, era essencialmente constituído por militares de étnia Balanta. Esta etnia caracteriza-se por uma disposição no terreno, num semi-circulo, que separa Bissau do leste do país.
Os Balantas a norte têm fronteira com o Senegal e a sul com a Guiné-Conakri.
Foi essa disposição dos territórios Balanta, que mais complicou a movimentação dos portugueses, que tinham que passar pelos territórios controlados por esta etnia para aceder ao resto do país.

Depois da independência, a estrutura base do exército da Guiné-Bissau, manteve-se inalterada. Os Balanta continuaram por natureza a ser os homens das armas e passaram a considerar, que por representarem entre 25% a 30% da população e serem a mais numerosa das étnias, possuiam por isso o direito de intervir na política do país[1].

Sabe-se que ainda hoje, não é raro os militares Balanta, lembrarem aos políticos de outras étnias, que foram essencialmente eles que lutaram contra os portugueses, e mais uma vez são os Balanta que em 2012, desafiam a comunidade internacional, afirmando que tratarão uma força das Nações Unidas como uma força invasora.

Exército demasiado grande, incomportável e incontrolável

Mas mesmo com a redução da dimensão do exército da Guiné-Bissau a seguir ao fim da guerra, a verdade é que com a queda da União Soviética (que continuou a mandar para o país armamentos antigos que já não tinham utilidade na Europa) o armamento deixou de ser praticamente grátis. Os Balantas mantinham uma força armada numerosa, mas cada vez mais difícil de sustentar.
À medida que o material fornecido pelos soviéticos foi envelhecendo e quebrando, nada veio para substituir.
As forças armadas guineenses, passaram com o tempo a ser pouco mais que um grupo de homens fardados, armados com armamento ligeiro.

O problema Balanta mantêm-se

As revoltas militares que pontilharam a história da Guiné-Bissau, resultaram sempre de problemas com os militares de etnia Balanta, e exemplo disso foi o conflito que levou à deposição de Nino Vieira pelo coronel Ansumane Mané, de etnia Mandinga e religião muçulmana, que acabaria morto pelos Balanta em 2000.

Já no final da década de 2000, um golpe de estado levou à morte de Nino Vieira em 2009 e desde essa altura a situação, que já era má, ficou ainda pior.
As forças armadas foram sendo reduzidas, até chegarem a um total de cerca de 4,000 a 6,000 homens, dependendo do que se considera serem forças do exército.
Mas a redução dos efetivos não se repercutiu na redução dos militares dos escalões médios e superiores (a partir de capitão) que em 2008 representavam 55,5% do total do efetivo dos militares guineenses.

Destes oficiais intermédios e superiores, estima-se que mais de 90% sejam de étnia Balanta.

Com a crise internacional e a dificuldade do país em produzir e sequer cobrar impostos, uma das soluções destes oficiais, foi a de utilizar o seu posto para facilitar iniciativas de transporte ilícitas que utilizam a Guiné-Bissau como base.

O caso mais evidente e clamoroso foi o do chefe da marinha [2], almirante José Américo Bubu Na Tchuto de etnia Balanta, que facilitou a vida aos traficantes e terá mesmo autorizado o transporte de drogas recorrendo às lanchas de fiscalização da pequena marinha da Guiné-Bissau.
As suas atividades colocaram-no nas listas de traficantes internacionais.

Narco-estado

A evolução da situação, levou o país sonhado por Amílcar Cabral a pura e simplesmente deixar de existir. Não há estado, não há instituições e nada o demonstra de forma mais clara, que a fragilidade das mesmas, quando um grupo de narco-traficantes se arroga o direito de declarar uma moratória de dois anos até que se realizem novamente eleições.

Se visse ao ponto a que chegou o seu sonho, Amílcar Cabral já teria dado mil voltas na tumba. Não só porque os guineenses demonstraram serem incapazes de se governar, mas principalmente porque os vaticinios dos portugueses antes de 25 de Abril de 1974 se confirmaram todos.

Na verdade, para ser honesto, quero crer que nem Marcelo Caetano acreditaria que a independência da Guiné-Bissau poderia fazer aquele território chegar ao ponto a que chegou.




[1] - Excepção foi o mandato de Malam Bacai Sanhá, de étnia Beafada, visto como equidistante dos vários movimentos, mas ao mesmo tempo um homem fraco e sem capacidade para impor a sua vontade. A sua morte por doença, também contribuiu para o agravar da situação.
[2] - Uma força que nominalmente tem 350 militares
[3] - Amilcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau. O pai era Cabo Verdiano e a partir dos oito anos mudou-se para Cabo Verde.
Este texto é da autoria de João Pedro Braz e foi publicado em 21.04.2012.


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