Europa
Sociedade / Política

No império nada mudou

por Paulo Mendonça
14.06.2014


Nos países ocidentais, vários analistas consideraram que com o fim da União Soviética tinha desaparecido o sistema comunista e que a partir daí, a Rússia seria um país normal, e que a queda do império russo em 1917 era apenas a queda de mais um império europeu. Para muitos, o colapso do comunismo (sistema que sucedera ao fim da Rússia Imperial) traria a Rússia para o concerto das nações democráticas da Europa.
No entanto nada podia ser mais falso e nenhuma análise poderia estar mais errada.

A União Soviética, não fora apenas um acidente da História e uma demonstração do falhanço de um sistema. Ao contrário do que muitos concluíram na altura, a URSS tinha sido na prática uma forma de garantir a sobrevivência do império russo, que assim, ao contrário do império austro-hungaro, do alemão, ou do otomano, não soçobrou, apenas mudou de nome. As províncias passaram a repúblicas soviéticas, os boiardos foram mortos, mas uma nova elite rapidamente tomou o seu lugar, em nome do partido.

Durante a primeira década pós-soviética, os antigos boiardos, ou antigos funcionários do Partido Comunista, assaltaram o poder com uma voracidade maior que a que demonstravam enquanto eram valentes militantes comunistas.
Foi tal a brutalidade do assalto e de tal forma desastrada a introdução da economia de mercado, que a população da Rússia rapidamente ficou desapontada.
A corrupção grassava, a moeda despencou, os aposentados ficaram na miséria. A sociedade civil russa tentou ainda durante o tempo do presidente Yeltsin, introduzir políticas para controlar os oligarcas e controlar a corrupção.

O inimigo número um dos oligarcas passou a chamar-se Yuri Skuratov, o procurador-geral russo, que começava a encontrar relações entre a ex-KGB, os oligarcas e o crime organizado. As investigações de Skuratov e os ataques aos oligarcas, tornavam-no cada vez mais popular à medida que os russos pensavam já na substituição de Boris Yeltsin. Quanto mais aumentava a popularidade de Skuratov, mais crescia o medo dos oligarcas da chamada «Família».

Putin: O obscuro agente da KGB move-se bem nos meios do crime organizado. As ligações ao crime permitem-lhe aparecer como o salvador dos oligarcas de Yeltsin
A ascensão de Putin

Em desespero, os principais oligarcas russos, destacando-se Abramovich e Boris Berezovsky tentam desacreditar os esforços da sociedade civil e do procurador Skuratov, contratando um operacional da antiga KGB.

Os oligarcas da «família», nome porque eram conhecidos os cortesãos de Yeltsin chamam então o obscuro mas eficiente Vladimir Putin, para garantir o seu poder.
Rapidamente Putin controla a situação, através da corrupção, ameaça, extorsão e violência.
Um plano rocambolesco mas eficiente, desacredita Skuratov, e garante o fim da sua carreira política. Skuratov é substituído pelo totalmente imbecil e inacreditavelmente corrupto Vladimir Ustinov, fiel a Putin como um cachorro amestrado.

O caminho fica aberto para que alguém ligado aos oligarcas chegue ao poder, e assim será.
Pouco tempo depois, Putin torna-se presidente, com a saída intempestiva de Yeltsin. O poder de Putin aumenta exponencialmente e os próprios oligarcas que o contrataram começam a teme-lo.
Mas será demasiado tarde.

Logo em 2000, Boris Berezovsky, que controlava várias estações de televisão e tinha ajudado Putin a chegar ao poder, foge para Londres e as emissoras passam para o controlo de Putin. Em 2003 é a vez de Khodorkovsky que será preso durante vários anos.
Dos principais oligarcas do núcleo de Yeltsin, Roman Abramovich manteve boas relações com Putin, as quais se mantêm até hoje. Muitos outros que se relacionaram diretamente com Putin, mantêm ou aumentam o seu poder e a sua conta bancária.

Abramovich: Um dos oligarcas do tempo de Yeltsin, promoveu Putin e não foi assassinado. Rumores correntes na Europa afirmam que Abramovich é um testa-de-ferro e controla parte da astronómica fortuna de Putin, estimada em 40.000 milhões de dólares americanos. Mexer no dinheiro de Abramovich, é mexer no dinheiro de Putin.
Aos oligarcas caídos em desgraça, sucederam-se outros, diretamente dependentes de Vladimir Putin. Esses oligarcas, que chegaram ao poder depois do ano 2000, valiam em 2014 mais de 140.000 milhões de dolares americanos. O próprio Vladimir Putin, tem uma fortuna estimada em 40.000 milhões de Dólares.

Nada mudou

De todas estas movimentações, há algo que ressalta. Na Rússia, a política continua a ser feita no século XXI como era feita no século XVI. O atual estado, fundado na expansão do Grão-Ducado da Muscóvia, tem os seus pilares baseados em golpes palacianos, traições, assassinatos e pela imposição de políticas de terror.

Tem sido assim desde que o Czar Ivan IV (também conhecido como Ivan o terrível) fez alianças com estados vizinhos, que depois violava para os invadir e submeter. Aparentemente, o conceito de «palavra dada» não tem na Rússia o mesmo significado que no ocidente.

Os russos ocuparam a Crimeia no século XVIII violando tratados assinados com os turcos, os russos retiraram-se da I guerra mundial, deixando o conflito para ser resolvido pela Europa Ocidental, os russos aliaram-se a Hitler a à Alemanha Nazi e posteriormente violaram todos os acordos com o ocidente na sequência da II guerra mundial. Só as políticas de contenção da expansão do comunismo garantiram que a expansão russa não prosseguia.

Com o colapso da URSS, os políticos dos países democráticos quiseram enganar-se a si próprios. Viram no governo de Yeltsin um exemplo do que poderia ser uma Rússia com uma democracia funcional, mas recusaram-se a ver os sinais de que nas ruas, a população não entendia o sistema.

Depois, quando Vladimir Putin chegou ao poder, olharam para o lado. Alguns como o chanceler alemão Gerhard Schroeder aceitaram contemporizar com Putin, tentando acomodar o que seria um líder democrático ligeiramente autoritário.
Depois, ele até aceitou retirar-se deixando no seu lugar, um homem de confiança, Medvedev, que garantia a presidência enquanto Putin ficava como Primeiro Ministro à espera de voltar.
Em 2008, Putin manda Medvedev invadir a Georgia e mesmo assim, as democracias quiseram acreditar que aquilo era justificado, que a Rússia afinal tinha razão.

Alemanha nazi e Rússia fascista

Como aconteceu com o III Reich alemão, muitos na Europa acharam que Putin, como Hitler, tinha o direito de recuperar o orgulho ferido do país. O que ele fazia era afinal criar as condições para o crescimento económico que a todos beneficiava.

Hitler, organizou os jogos olímpicos de 1936, onde mostrou as conquistas da Nova Alemanha. Em 2014, na Rússia fizeram o mesmo, esquecendo que grande parte do dinheiro acabara nos bolsos do próprio Putin e dos seus associados.

A Rússia não mudou um milímetro. A Europa viveu um sonho, e embalou-se numa farsa que sabia existir mas que preferiu ignorar.
A crise da Ucrânia, servirá para separar as águas, se houver coragem para começar a chamar os bois pelos nomes.

A Rússia não é uma democracia, é isso sim, para todos os efeitos, um estado fascista.

Como estado imperial, com um regime que em tudo se assemelha a um regima fascista, a Rússia tenderá a continuar a sua política de expansão imperial.

Se nada for feito, a Europa acabará controlada pela Rússia fascista como Vladimir pretende, de Vladivostok a Lisboa.

Há no entanto algo que é certo.

A paranoia «conspiranoica» russa é de tal forma espantosa, que mesmo nessa altura, a Rússia afirmará que existe uma clara conspiração dos oceanos Atlântico e Pacífico, que insistem em cercar a Rússia, país que não quer fazer mal a ninguém.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 14.06.2014.


Últimos artigos de opinião sobre este tema

Andar 25 anos para trás ...

Guerra económica: A volta das prateleiras vazias ?

No império nada mudou

Who the hell is Mr. Bancroft-Hinchey ?

Não subestimem a Russia

Milosevic: Como criar um mártir

As opiniões expressas neste artigo reflectem posições e pontos de vista que não são necessariamente os do Areamilitar.net, podendo mesmo ser contrários. A exposição de todos os pontos de vista e opiniões sobre questões militares e de geopolitica ou geoestratégia, é defendida pelo Areamilitar.net, e este espaço é disponibilizado com esse objectivo. As opiniões serão escritas na língua portuguesa, bem assim como os comentários.
Direito de resposta:
É reconhecido o Direito de Resposta, nos termos da Lei, a qualquer entidade que o deseje utilizar, devendo para o efeito ser efectuado um contacto através da caixa de contactos na página principal. Devem ser indicadas as razões pela qual o requerente solicita o uso desse direito, devendo de seguida ser enviado o texto correspondente.