Medio Oriente
Geoestratégia

Se partires, é teu.

por João Pedro Bráz
21.07.2014


Esta pequena frase terá sido proferida por Collin Powel, o secretário de estado norte-americano ao então presidente do país George W. Bush antes de se iniciar todo o processo político que deu origem à invasão do Iraque em 2003.

A frase completa, terá sido: Você está prestes a ser dono do destino de 25 milhões de iraquianos, se cometer erros, a responsabilidade é sua.

Com a expressão, Collin Powell, tentava mostrar ao presidente dos Estados Unidos, que ao entrar no Iraque pela força, modificando o regime do país, os Estados Unidos ficavam responsáveis pelo Iraque e pelas vidas de 25 milhões de Iraquianos.

Nos Estados Unidos, não são poucos os jornalistas e analistas internacionais que lembram, que a divisão do mundo árabe na sequência de um tratado secreto entre franceses e britânicos em 1914, prometendo um estado para os árabes à custa de estes atacarem o império otomano é a razão que explica a existência de fronteiras geográficas permeáveis e de linhas de separação entre etnias que não correspondem às fronteiras reais entre povos.

Mas independentemente das falhas, dos problemas, dos erros que tenham sido cometidos no passado, é impossível deixar de olhar para o que se passa no Iraque, sem em primeiro lugar procurar não a Culpa Primeira, mas sim a responsabilidade imediata por uma situação que ameaça levar para o Iraque a guerra civil entre xiitas e sunitas e em última análise destruir o Iraque como estado conforme é conhecido desde a década de 20 do século XX.

Nos últimos dias, os cristãos de Mossul, cidade controlada pelo ISIS, foram confrontados com três possibilidades:
Ou se convertiam ao Islão, pagavam o imposto islâmico (Jyzia) ou saíam da cidade. Se não fizessem nada, seriam mortos.
Muitos dos cristãos que fugiram, disseram que precisavam ser ajudados. Os pedidos de ajuda dirigiam-se aos Estados Unidos e aos países europeus. Os mesmos, que agora olham para o lado e se fazem de desentendidos.

Descalçar a bota

Não é demais realçar a responsabilidade do governo dos Estados Unidos em toda a situação que agora se desenvolve no Iraque, o falhanço claro na criação de um governo funcional e de uma força militar capaz de garantir a segurança do país levaram a este estado de coisas.

Não é agora possível voltara atrás. Mesmo que fosse possível, quem gostaria de trocar esta realidade pela de Saddam Hussein ?
Estaria Hussein livre dos problemas da chamada Primavera Árabe?
É difícil achar que não.

O que é necessário lembrar, é que a responsabilidade do governo dos Estados Unidos da América em toda esta situação, não desapareceu quando Obama chegou ao poder, não desapareceu quando as tropas americanas abandonaram o Iraque.

Essa responsabilidade continua até hoje, e continuará por muitos anos, conforme as próprias palavras de Collin Powell.

Reverso da medalha

Se os dois mandados de George W Bush mostraram ser um desastre de politica externa, com decisões que demonstraram ser intempestivas, o executivo que substituiu o presidente republicano, parece ter optado por ficar de fora de tudo, assumindo uma posição totalmente isolacionista e esquecendo as responsabilidades que o seu país continua a deter no mundo.

Quem quer ser policia do mundo, não pode abandonar o posto, quando fica cansado. É um lugar que não pode ser abandonado, pelo menos enquanto não houver um substituto à altura.
Este texto é da autoria de João Pedro Bráz e foi publicado em 21.07.2014.


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