Europa
Sociedade / Política

Guerra económica: A volta das prateleiras vazias ?

por Paulo Mendonça
07.08.2014


Vladimir Putin, é conhecido no mundo por ser o homem que disse que o fim da União Soviética foi a maior tragédia da segunda metade do século XX.
Desde que chegou ao poder, tentando superar a nostalgia, Putin tem feito tudo para trazer de volta o velho e decrépito regime de terror, que ele mesmo aprendeu a respeitar, enquanto era agente da KGB, antes do colapso do regime comunista.

O hino da Rússia foi substituído pelo hino soviético, as paradas militares, que mostravam ao mundo o poder e a glória da Rússia comunista voltaram à praça vermelha, e os camaradas das elites do Partido Comunista, viraram oligarcas.

Sim, não existe qualquer dúvida de que Putin pretende reconstruir o império russo.
Como dirigente autoritário, e comandante em chefe de um estado que se transformou numa cleptocracia ao melhor estilo fascista, ele utiliza o seu poder absoluto sobre as estruturas do estado para impor a sua vontade.

Prateleiras vazias

Mas em Agosto de 2014, Putin terá dado um passo que os próprios russos provavelmente não esperavam. O antigo operacional da KGB decidiu (em protesto por causa das sanções aplicadas à Rússia, na sequência da invasão e ocupação de território da Ucrânia) proibir a compra de comida aos países democráticos da Europa e da América do Norte.

À primeira vista a decisão é corajosa. A Rússia, de peito aberto, mostra ao ocidente corrupto, que tem força para os enfrentar a todos sozinha. Nas televisões russas, depois de o primeiro-ministro Medvedev anunciar a medida, a aprovação das pessoas é total.

Entrevistas nas ruas mostram muitos russos contentes, por finalmente se verem livres dos chocolates belgas, dos vinhos franceses, das frutas frescas de alta qualidade que vêm da Polónia e da Roménia ou do peixe fresco que vem da Noruega.

A opinião geral, é de que a Rússia vai agora substituir todos os produtos importados por produtos fabricados localmente

Velhinhos ainda com antigas medalhas do Partido Comunista, dizem mesmo que Putin já deveria ter feito isto há muito tempo, porque assim a Rússia vai finalmente ver-se livre da influência dos americanos.

Os dirigentes russos, afirmaram que já estão à procura de formas de substituir os produtos importados da Europa, com negociações já iniciadas em mercados da Ásia, Israel, África e América do Sul.

Mas enquanto esses produtos não chegarem, algumas cidades russas vão enfrentar pela primeira vez em muitos anos, o espectro das prateleiras vazias, uma das imagens de marca do regime soviético, o mesmo que Putin aparentemente pretende implantar de novo.

Prateleiras vazias. Vladimir Putin poderá ter conseguido trazer a União Soviética de volta, da pior maneira.


As supostas importações da América do Sul, de Israel ou de África, virão de muito longe e até se estabelecer uma linha de abastecimento, vai demorar tempo. Mas mesmo que fosse possível substituir os produtos europeus, há algo que não será possível evitar: O aumento dos preços.

O primeiro ministro Medvedev disse que as sanções não se aplicam a quem traga produtos de suas viagens de turismo, o que foi visto como a abertura de portas às redes de contrabando, controladas pela Máfia russa.

Também se espera que os produtos europeus continuam sendo vendidos, só que importados a partir da Bielorússia ou do Cazaquistão,

Em qualquer caso, quem vai pagar são os consumidores russos.

Dúvidas

No entanto, ainda a notícia não assentou e já há quem tenha começado a fazer contas à vida para tentar perceber o que se passará.
Os europeus vão passar algumas dificuldades, porque não é fácil substituir um cliente por outro. O país mais afetado, nem sequer faz parte da União Europeia, a Noruega.

No entanto, na Rússia, por detrás das televisões controladas pelo regime de Putin, e fora da vista das câmaras, há quem coloque questões, que dificilmente têm resposta.

Sabe-se que 60% da comida que se consome nas cidades de Moscovo e de S.Petersburgo é importada. Em outras cidades da Rússia o valor baixa para 40%, mas mesmo nas regiões mais remotas entre 20% a 30% dos produtos alimentares são importados e na sua maioria, importados da Europa e dos Estados Unidos.

Por muito que os dirigentes russos digam que o problema vai ser resolvido com um impulso na agricultura russa, a realidade é que há anos que os russos tentam impulsionar a agricultura, mas os únicos investimentos a sério, para o desenvolvimento agrícola, têm sido feitos com o dinheiro dos países europeus que a Rússia afeta com as suas sanções. A produção interna, tenderá a diminuir e não a aumentar.

Mesmo que isto não fosse verdade, os produtos agrícolas, nomeadamente os produtos frescos, não podem ser produzidos em tempo útil nem substituídos de um momento para o outro. Os russos habituaram-se a consumir frutas frescas e laticínios que nem sequer podem ser produzidos no país por causa do clima.

A opção chinesa aparece como um pouco estranha, já que o país comunista, tem contínuos problemas com a qualidade dos produtos alimentares, e os próprios chineses sempre que têm possibilidade de escolha optam por produtos europeus ou americanos.
A possibilidade de importar produtos frescos e peixe da América do Sul, existe, mas a distância torna-os muito mais caros, por causa do custo do transporte (avião).

No tempo da União Soviética, os problemas alimentares eram recorrentes. As campanhas de produção agrícola resultaram sempre em nada e o sistema de distribuição arcaico sempre deu problemas. Ainda assim, em alguns casos a URSS tinha o seu celeiro, de onde vinha grande parte da comida para alimentar o país.
O celeiro da antiga União Soviética, que conseguia muitas vezes suprir as necessidades, chamava-se Ucrânia.

Assim, ainda que para já isso possa não se vir a notar, já que as cidades têm sempre preferência no abastecimento, mais cedo que tarde, a mais conhecida imagem de marca da União Soviética, as extensas prateleiras de supermercado completamente vazias, acabará voltando a assombrar a vida dos russos.

Putin, conseguiu o que queria.
A União Soviética voltou. E se os russos voltarem a ver as prateleiras dos supermercados vazias, os fornecimentos a falhar e a faltar, também eles começarão a entender o que se passa.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 07.08.2014.


Últimos artigos de opinião sobre este tema

Andar 25 anos para trás ...

Guerra económica: A volta das prateleiras vazias ?

No império nada mudou

Who the hell is Mr. Bancroft-Hinchey ?

Não subestimem a Russia

Milosevic: Como criar um mártir

As opiniões expressas neste artigo reflectem posições e pontos de vista que não são necessariamente os do Areamilitar.net, podendo mesmo ser contrários. A exposição de todos os pontos de vista e opiniões sobre questões militares e de geopolitica ou geoestratégia, é defendida pelo Areamilitar.net, e este espaço é disponibilizado com esse objectivo. As opiniões serão escritas na língua portuguesa, bem assim como os comentários.
Direito de resposta:
É reconhecido o Direito de Resposta, nos termos da Lei, a qualquer entidade que o deseje utilizar, devendo para o efeito ser efectuado um contacto através da caixa de contactos na página principal. Devem ser indicadas as razões pela qual o requerente solicita o uso desse direito, devendo de seguida ser enviado o texto correspondente.