Europa
Conflitos internacionais

PAX PUTINA

por Paulo Mendonça
09.09.2014


A rapidez com que o presidente Petro Poroshenko anunciou na sexta-feira, dia 5 de Setembro na Grã Bretanha a assinatura de um acordo entre negociadores ucranianos e russos, aparenta ter deixado os lideres europeus e o presidente americano algo atordoados e sem saber o que dizer.

O líder russo, Putin, tinha afirmado na semana anterior, que deveria haver um cessar fogo e que a Ucrânia deveria seguir o caminho federal. Dessa forma, o governo de Kiev retirava das regiões de Luhansk e Donetsk e deixava o território sob o controlo das milícias pró-russas, que reconheceriam formalmente a autoridade de Kiev, mas que na prática controlariam o território na dependência do Kremlin.

Putin lançou esta proposta, quando as suas tropas tinham já invadido a Ucrânia, numa operação em que apoiou fortemente os rebeldes pro-russos, enviando armas (o célebre comboio humanitário russo, antecedeu o inicio da ofensiva rebelde em apenas 48 horas) e reconquistando com tropas regulares do exército russo, toda a área entre as cidades rebeldes e a fronteira russa, a qual tinha sido controlada pelos ucranianos nos últimos dois meses.

À primeira vista, Putin jogou com frieza e com a certeza de que tem a força do seu lado, como o faria qualquer imperador romano, enviando avisos a alguma província rebelde, antes de enviar as suas legiões para massacrar as populações como vingança pelo desafio contra a autoridade imperial.

A Rússia, apresenta-se assim, perante as antigas províncias do império dos czares, como a potência hegemónica na Europa oriental, afirmando pelo poder das armas, pelo poder do petróleo e pela sua capacidade para violar impunemente as fronteiras dos países vizinhos, o que os líderes russos acreditam ser seu direito.

Não importa se, a própria Rússia enquanto Estado, aceitou que as fronteiras europeias não seriam jamais alteradas pela violência.
A argumentação de Putin, não podia ser mais parecida com a argumentação utilizada por Hitler para ocupar parte dos sudetas, ou para ocupar e anexar a Áustria. A reunificação dos povos de língua alemã.

Ao mesmo tempo que tomava a Crimeia pela força, utilizando a deceção e a mentira (utilizando soldados do exército regular russo disfarçados de homenzinhos verdes), Putin enviou soldados para a região da bacia do rio Don (Donbass), igualmente ilustres desconhecidos fardados de verde, e que compraram armas numa loja de conveniência que lhes vendeu tanques T-72BM, sistemas de artilharia moderna, sistemas anti-aéreos de médio alcance e as mais modernas armas portáteis.


Dificuldades ucranianas

Perante o poder demonstrado por Putin por um lado, e a desarticulação ucraniana do outro, não é de estranhar que as forças armadas ucranianas, aparentem ter graves problemas de coordenação e comunicação, com unidades que só percebem que estão cercadas quando verificam que não chegaram as rações do dia.
Várias unidades aparentam ter sido formadas à pressa e não possuem comandos à altura. Além da formação e das dificuldades de comunicação, os ucranianos também contam com material que é considerado obsoleto.
Os carros de combate T-64 que os ucranianos utilizam, são pelo menos tão desadequados e ultrapassados quanto os T-72 fornecidos pelos russos aos rebeldes, mas o lado russo aparenta estar muito melhor armado em termos de armamento ligeiro anti-tanque, o que explica as perdas de homens e material.

Alarme no ocidente

Nas capitais europeias e em Washington, a proposta de Putin foi entendida de forma clara. Putin pretendia garantir a saída das tropas ucranianas das regiões em conflito e ao mesmo tempo garantir o controlo total daquelas áreas através dos seus «representantes».

Ao garantir o cessar fogo nestas condições, Putin garantia finalmente na Ucrânia, o estabelecimento de um «Status Quo» quase idêntico ao que conseguiu estabelecer na Georgia e equivalente ao que estabeleceu na Moldova.

Mas mais grave que isso é a imagem que é passada para os restantes países da UE e da NATO, que perante mais uma vitória de Putin, começam a colocar as «barbas de molho».
A questão levantada é a de que se Putin garante a sua vontade num país da dimensão da Ucrânia (que também pretende manter relações especiais com a NATO), então o que poderia fazer a Estónia, um pequeno país com mais de 25% da sua população[1] etnicamente russa ?

Enfrentar Putin

Embora as coisas aparentem correr conforme Putin pretende, não deixa de ser verdade que o regime russo enfrentou um osso muito mais duro de roer que o que inicialmente tinha previsto.
Embora as regiões de Donetsk e Luhansk sejam aquelas que têm mais russos, elas são na realidade regiões de maioria ucraniana, embora muitos dos ucranianos falem russo.

As tropas russas enfrentaram por isso resistência feroz e sofreram mesmo revezes terríveis, como a destruição de uma unidade inteira de tropas russas às mãos dos sistemas Katiusha ucranianos.
Mais de 100 soldados russos morreram num só confronto durante os combates pelo controlo de Snizhne .
O problema para o regime russo, reside na dificuldade crescente em ocultar os muitos mortos do exército regular russo.

Além de a Ucrânia não ter sido o passeio que se poderia esperar, há ainda o problema crescente das sanções. Ainda que o dirigente russo lhes pareça ser imune, já que elas afetam a população mas não afetam de forma visível as grandes figuras do regime, a verdade é que políticos altamente colocados em Moscovo, já vieram alertar para o problema de fundo que se está a criar na Rússia com as sanções económicas e com a possibilidade de um agravar das sanções poder colocar a Rússia fora do sistema económico mundial.

Entre as armas de destruição maciça que as potências ocidentais podem utilizar, está a exclusão da Rússia da utilização do sistema de transferências SWIFT que impede os russos de fazer pagamentos de importações a países estrangeiros.

Ajuda militar a conta-gotas

O apoio ocidental ao governo ucraniano, também não é absolutamente claro. A Ucrânia está praticamente falida e o aproximar do inverno leva a que se considere que o governo de Kiev será obrigado a negociar numa posição de clara desvantagem. Tanto americanos quanto europeus continuam a negar o fornecimento de armas modernas a Kiev, em muitos casos temendo que essas armas acabassem por cair nas mãos dos russos.
Apenas rações de combate, combustível, coletes de proteção e outra ajuda não letal tem sido disponibilizada.

Embora haja notícias de que alguns países europeus que pertenciam ao Pacto de Varsóvia teriam fornecido armamento à Ucrânia, isso não foi confirmado, pois nenhum desses equipamentos foi visto em mãos ucranianas.
Além disso, o grau de coesão dentro do exército ucraniano não é claro, e continuam a existir comandantes que não estão seguros de que devem lutar ao lado de um governo que é favorável ao ocidente.

Embora tenha afirmado que a Ucrânia se manterá unida e que a unidade nacional está garantida, o acordo de cessar-fogo negociado com o governo de Vladimir Putin, aparenta ter muito de tentativa de mostrar força e determinação, enquanto que por detrás do pano, se negocia com os russos, porque não há nenhuma outra hipótese em cima da mesa.


[1] – Na Ucrânia, cerca de 15% da população é etnicamente de origem russa.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 09.09.2014.


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