Medio Oriente
Terrorismo

Fazer a vontade ao jogador

por João Pedro Bráz
23.09.2014


Quando os terroristas do agora chamado Estado Islâmico, degolam cidadãos de países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o que passará pelas cabeças dos que seguram a faca ?

Parece que tudo leva a crer, que ameaçam o que se convencionou chamar mundo ocidental, mas especialmente o mundo anglo-saxónico.
As ameaças são normalmente no sentido de mostrar aos espantados cidadãos do mundo ocidental, como os combatentes islâmicos são corajosos, coragem demonstrada pela capacidade de degolar uma pessoa com as próprias mãos.

Aparentemente, estes grupos de assassinos cortadores de cabeça, serão todos loucos, porque qualquer pessoa nesse mundo ocidental, sabe que, a visão de tais cenas não gera receio, ou medo de que a nossa própria cabeça também seja cortada.

O que gera, é um sentido de repulsa e uma vontade de responder, de fazer justiça, de levar à justiça as pessoas capazes de fazer aquilo, ou (vamos ser verdadeiros nas nossas palavras), a vontade de responder na mesma moeda degolando ou alojando uma pacificadora bala, bem dentro do cérebro destes animais de cara tapada.

Pensar que os militantes deste tipo de organização terrorista estão a degolar pessoas para nos assustar, é uma ideia que também não parece ter grande base.
Pode haver muito doente mental armado nas terras controladas pelo Estado Islâmico, mas há sempre quem manda. E quem manda sabe perfeitamente o que faz.
Quem realmente dá ordens no Estado Islâmico tem perfeita noção de que nos países do ocidente, ninguém vai fugir para casa quando vê um jornalista ser morto ao vivo e a cores no You tube.

O que quer esta gente ?

Se é bastante óbvio que eles sabem que ninguém no ocidente vai ficar realmente aterrorizado, ainda mais quando toda a gente sabe que o Estado Islâmico não poderia facilmente atingir cidadãos americanos, britânicos ou franceses no conforto das suas casas, para que servem as degolas ?

A resposta parece ser simples.
A única razão que explica a atuação destes grupos, é a tentativa de atrair as forças armadas dos países ocidentais para o campo de batalha, onde os militantes, seduzidos pela necessidade de adrenalina, olham para a Síria e para o Iraque, como qualquer criança olha para um parque temático.

Para os militantes do Estado Islâmico, aquele organismo não passa de um conselho de administração de um parque temático, uma espécie de reality show de proporções gigantescas, onde se faz a última e derradeira jogada. Joga-se o jogo da vida e da morte.

O norte da Síria e do Iraque, transformaram-se em zonas estéreis, terras de ninguém, onde só conta a lei do mais forte, qual cenário para filmes como «Mad Max».
Os protagonistas, precisam alimentar a sua necessidade por emoções fortes, e o fator religioso, já deixou há muito de ter qualquer importância ou significado.

Os participantes desta tragédia são agora chamados de «radicalizados». Não agem por vontade de Deus, ou por opções religiosas de qualquer tipo. Estas pessoas distorceram a seu bel prazer os ensinamentos da religião islâmica, e o que aproveitam, são apenas interpretações desgarradas do seu contexto, de forma a se adaptarem ao espetáculo de emoções fortes no cenário montado no norte da Síria e do Iraque.

É verdade, que aos países da região e a qualquer governo responsável, não sobram grandes hipóteses e não há grande margem de manobra para levar a ordem àquelas áreas da Síria e do Iraque.

Mas a intervenção das forças ocidentais no terreno com ataques aéreos, destina-se apenas a aumentar a adrenalina e a dificultar a atuação dos «radicalizados».
Ao provocar ataques aéreos, é como se os combatentes do Estado Islâmico tivessem passado para o nível seguinte do jogo de computador.

Para quem ataca, há a impressão de que se está a fazer alguma coisa.
Na realidade porém, todos sabemos que não será com ataques aéreos que se vai acabar com o gigantesco «Theme Park» de violência a que chamamos Estado Islâmico.

Isso só se poderá fazer, no terreno, perseguindo até à morte os extremistas. E esse, será o último nível do jogo.

Mas não é possível evita-lo, se o objetivo é atingir o «Game Over».
Este texto é da autoria de João Pedro Bráz e foi publicado em 23.09.2014.


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