Guiné Bissau
Sociedade / Política

Mais um golpe na Guiné

por Paulo Mendonça
08.10.2004


Os anos passam. O mundo muda. Na Europa a leste já caíram regimes, partidos e blocos militares. Em África, os antigos países de expressão portuguesa, com maior ou menos dificuldade, têm vindo a resolver os problemas resultantes de um período de descolonização pouco organizado e irresponsável. No entanto, de todos esses países, aquele que mais eficientemente lutou contra a potência colonial (Portugal) foi a Guiné. A antiga Guiné Portuguesa, declarou a independência em Setembro de 1973, meses antes de, em Abril de 1974 os militares portugueses porem fim ao regime implantado em 28 de Maio de 1926.

O fim desse regime, representou o fim de uma guerra mantida por Portugal em três frentes distintas.

Passaram entretanto mais de trinta anos sobre o Setembro de 1973 em que em Madina do Boé, a alguma quilómetros da fronteira com a Guiné-Conakri, foi declarada a independência daquele pais Africano.
Trinta anos, em que outros países Africanos também (diga-se em abono da verdade) não conseguiram sair do ciclo infindável do subdesenvolvimento. No entanto, há que notar, que em 1974, a Guiné Portuguesa era pobre, mas não era muito mais pobre que os seus vizinhos. Segundo o Departamento de Estatística das Nações Unidas, o rendimento dos países vizinhos era o seguinte:

Guiné-Bissau: 270 dolares americanos
Cabo-Verde: 220 dolares americanos
Guiné-Conakri: 170 dolares americanos
Senegal: 430 dolares americanos

Passados trinta anos, a situação apresenta-se algo diferente, e embora os países Africanos tenham problemas de sub-desenvolvimento que parecem eternos, são os seguintes os números a preços PPC:

Guiné-Bissau: 1700 dolares americanos
Guiné-Conakri: 2.000 dolares americanos
Senegal: 2.200 dolares americanos
Cabo Verde: 3.500 dolares americanos

Para aqueles que dizem que os países de colonização portuguesa teriam sido “muito mais explorados” que os restantes países africanos, estes números são uma surpresa. Cabo Verde, quando comparado com a Guiné-Bissau, pode ser considerado um país de enorme sucesso, apresentando índices de desenvolvimento muito mais elevados. Não deixa de ser irónico que os dois países tenham tido uma independência conjunta, sendo caso único no mundo em que dois países diferentes eram governados pelo mesmo partido, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

Embora os números indicados, variem segundo o método utilizado, é inegável que A Guiné-Bissau, quando os países da região atravessam as suas próprias crises, conseguie ir de mal a pior.

O que se passa?

Para quem analisa de longe, parece que o eterno problema dos países africanos, se torna num problema insolúvel. Milhões de dólares, Euros, Libras e Ienes têm sido despejados nestes países e o resultado parece sempre ser o mesmo: O dinheiro parece ser invariavelmente atraído pelos bolsos de alguns indivíduos colocados na chefia do estado, que têm acesso aos bancos e a contas internacionais.

A Guiné-Bissau, parece ter um problema adicional, que reside no facto de ter umas forças armadas sobredimensionadas, e que têm ainda muito a ver com o movimento de libertação de há trinta anos, embora parte das suas chefias já nada tenham tido a ver com o conflito.

Assim, no fim da década de 70, já depois da independência, as forças armadas dos países limítrofes tinham a seguinte constituição:

Cabo-Verde: 6.000
Senegal: 8.400
Guiné-Conakry: 8.600
Guiné-Bissau: 10.000

Já depois do ano 2.000, as estimativas internacionais apontam para os seguintes números:

Cabo Verde 1.300 (redução de 78% - a população cresceu 50%)
Senegal: 10.000 (aumento de 19% - a população aumentou 69%)
Guiné Conakry: 9.700 ( aumento de 13% - a população aumentou 63%)
Guiné Bissau: 9.200 (redução de 8% - a população aumentou 68%)

Portanto, embora tenha sido feito um esforço para reduzir as Forças Armadas (Passando de 12.9 militares por mil habitantes para 7 militares por 1000 habitantes, estes valores quando comparados com os do Senegal (1.07 por mil), Guiné Conakry (1.2 por 1000) e Cabo-Verde (2.9 por 1000), continuam a ser exagerados.

Não é naturalmente possível fazer o mesmo que Cabo-Verde, que passou de 20 militares por 1000 habitantes para apenas 2.9, porque Cabo-Verde é um arquipélago, e nenhum dos seus vizinhos tem capacidade de projectar forças de modo a colocar em perigo Cabo Verde. No entanto, o exercito da Guiné-Bissau, é um enorma consumidor de recursos num país que não tem dinheiro para o sustentar. Na actual situação, a Guiné Bissau existe praticamente para pagar o exercito, sendo que todo o restante dinheiro vem da ajuda internacional. Durante todo este tempo, todos os observadores internacionais sabem que a estabilidade da Guiné depende de manter o exercito “contente” e por isso toda a gente tolera a situação, e tratam-se os golpistas “nas palmas das mãos” Está-se num beco sem saída, numa situação de pescada de rabo na boca. Tendo-se chegado a esta situação, a Guiné deveria receber apoio das Nações Unidas, num período de transição, em que se pudesse reduzir o exercito a uma guarda nacional, que o pais pudesse suportar, dirigindo assim recursos parcos, para promover as actividades produtivas.

De outra forma a Guiné-Bissau está condenada a viver golpes e contra-golpes, e o povo, naturalmente a suporta-los e a viver numa total miséria.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 08.10.2004.


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