América do Norte
Sociedade / Política

Eleições Presidenciais EUA-2004

por Rui Manuel Elias
03.11.2004


À hora a que escrevo este texto ainda não é claro qual será o vencedor das presidenciais norte-americanas que decorreram ontem, dia 2 de Novembro de 2004.

Mas uma coisa parece cada vez mais clara:

Seja Bush ou Kerry vencerem estas eleições, serão novamente presidentes fracos, muito por culpa de um obsoleto sistema eleitoral, que ao longo da história já ditou quatro casos de presidentes eleitos pelo “colégio eleitoral” tendo no entanto menos votos directos dos eleitores.

O último caso reporta-se a 2000, com Bush a ter maior número de “grandes eleitores” apesar de ter tido menos votos expressos nas urnas.

A novela da Flórida, em 2000, desprestigiou o processo e Bush antes do 11 de Setembro parece ter sido um presidente com politicas relativamente centristas e moderadas, muito por causa das circunstâncias em que foi eleito, apesar de ter uma maioria no Congresso e do Senado.

É que não é tradição na política norte-americana um presidente governar contra praticamente metade do eleitorado.

Quanto ao ano de 2004, e apesar da polémica guerra contra o Iraque e das mentiras que a justificaram, Bush, ao contrário do que seria previsível parece o actual presidente ter condições para voltar a ganhar, embora não com uma vitória esmagadora, ou confortável, o que pode ditar mais uma vez um aggiornamento político, pelo menos ao nível das políticas internas, que nos últimos dois anos parecia ir resvalando para práticas neo-liberais.

Quanto a John Kerry, é evidente, ainda que se venha a verificar a sua vitória, o que neste momento parece pouco provável, que terá uma presidência difícil pelas mesmas razões de Bush.

Ficará para já com o estigma do presidente que não soube capitalizar o descontentamento popular, principalmente nas regiões mais urbanizadas da costa leste e do Pacífico, não soube capitalizar o desemprego, a alta do petróleo, decorrente das aventuras militares que levaram ao agravamento da situação no médio-oriente, e finalmente não soube capitalizar junto do chamado eleitorado culto os anti-vírus americanos que se foram espalhando pelo mundo, nomeadamente na Europa.

Kerry será ainda conhecido como o presidente liberal (o que nos EUA se considera de esquerda), mas que ao nível de política externa não é muito claro nas soluções para o maior engajamento dos aliados tradicionais.

Não se conhece a posição de Kerry quanto ao conflito israelo-palestiniano, não se conhece a sua posição clara sobre o Iraque, não se conhece a sua posição quanto ao chamado 3º Mundo, nomeadamente África, não se conhecem as suas ideias sobre a relação entre os EUA e a América Latina, e sobre o relacionamento com Cuba, não se conhecem as suas ideias para solucionar o problema dos prisioneiros de Guantanamo, e finalmente não se conhece a sua posição sobre um tema desagradável para a imagem dos EUA no mundo, que é a prática da pena de morte.

Kerry poderia ter tido mais condições para ganhar mais folgadamente, mas se a culpa não cabe inteiramente a Kerry, que é um político de carreira, que apoiou a invasão do Iraque, esta cabe por inteiro ao Partido Democrata que poderia ter tido ao longo de 2004 um outro processo que conduzisse à escolha de um candidato mais forte, do ponto de vista de imagem, e mais marcadamente ideológico, para fazer frente e contraponto ao conservadorismo rural e protestante de Bush.

O Partido Democrático parece ter perdido os tradicionais bastiões do sul, nomeadamente a Flórida e a Geórgia, e parece estar a perder terreno nas regiões urbanas junto dos grandes lagos, sobrando a tradicional fidelidade ao Partido Democrático na Nova Inglaterra e na costa do Pacífico.

E parece estar a perder o tradicional voto das chamadas minorias, de afro-americanos e de hispânicos.

É pouco.

Seja quem for que venha a vencer estas eleições, será um presidente fraco.

Para o mundo, será uma continuação da instabilidade, e um crescente divórcio entre os EUA e a Europa dos 25, já que com o tempo, até os actuais aliados preferenciais dos EUA, como a Polónia, Itália ou a Roménia e Bulgária, acabarão por alinhar pelo eixo de Bruxelas.

Acabarão os EUA isolados na cena internacional?

Não me parece, mas para que os EUA sejam uma potência forte, não basta serem militarmente e económicamente fortes, mas sobretudo politicamente, e mais importante ainda saberem ter em conta o contributo dos aliados para uma defesa serena e consistente da “civilização ocidental”, mas sem exclusões de outros povos e culturas.

Este texto é da autoria de Rui Manuel Elias e foi publicado em 03.11.2004.


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