União Europeia
Sociedade / Política

Portugal, França e África

por Rui Manuel Elias
10.11.2004


1.
A propósito dos recentes acontecimentos na Costa do Marfim, que envolveram de forma trágica as tropas francesas estacionadas nesse pequeno país da costa ocidental africana, e cuja presença oficialmente se destina a proteger os cidadãos franceses e outros ocidentais, para além de estabelecer uma “fronteira” entre os contendores dessa guerra-civil adormecida, relembro a atitude portuguesa perante os acontecimentos vividos na Guiné-Bissau em 1998.

Quero com isto estabelecer as diferenças de atitude entre os dois países em regiões a que os ligam laços históricos, culturais e linguísticos, e alguns interesses económicos e estratégicos, aproveitando o tradicional abandono a que a Africa foi votada pelo EUA desde sempre, e que nem no período da “guerra fria” passou a ser muito visível.

2.
Fez em Junho 6 anos que a 8 de Junho de 1998 se iniciou a rebelião militar liderada por Assumane Mané para tentar depor o presidente Nino Vieira da liderança do país.

Com o golpe de 98 Portugal foi “apanhado de calças na mão”.

Todos nos lembramos do episódio do Sagres, atracado em Bissau, para resgate de civis portugueses e guineenses, praticamente debaixo de fogo, num local e em condições muito difíceis.

Tardou a reagir, mas depois, reagiu em força.

Todos nos lembramos que apesar do golpe ter ocorrido a 8 de Junho, a 10 de Junho, frente à Expo’98 navegava engalanado em desfile militar, por ocasião das comemorações do Dia de Portugal, a Fragata NRP Vasco da Gama, a mesma que no dia seguinte zarpou para o largo da Guiné-Bissau, a que mais tarde se juntaram duas corvetas e o reabastecedor de esquadra Bérrio, para além do apoio aéreo prestado pelos C-130.

Dadas as conhecidas limitações ao nível de projecção de forças, reconhecidas no nosso CEDN, e a que se pretende dar alguma resposta através do previsto NavPol, houve que estabelecer uma base recuada em Cabo Verde, tal como em 1992, perante o reacender da guerra civil em Angola, Portugal teve que estabelecer uma base recuada em S. Tomé para apoiar o resgate de cidadãos nacionais a partir do aeroporto de Luanda.

Desde cedo adoptou uma atitude oficialmente neutral, mas notou-se uma certa simpatia pela causa dos militares liderados na altura por Assumane Mané.

Lembremo-nos que após semanas encerrado, o aeroporto de Bissalanca abriu para um C-130 português, que dizem as más línguas, transportava algumas armas e um telefone-satélite que o MNE de então, Jaime Gama terá oferecido a Mané.

Também todos nos recordamos do encontro na mata entre Jaime Gama e Mané, em que Gama se deslocou num helicóptero Linx da marinha, saído da fragata destacada.

E finalmente do acordo de cessar-fogo a bordo da fragata NRP Corte Real, que entretanto rendera a Vasco da Gama.

A situação podre manteve-se, e foi óbvio para todos que Portugal viu com desconfiança a crescente influência francesa por detrás das tropas senegalesas e de Conakri para supostamente defenderem o poder de Nino Vieira, que se começara a "encostar" a estas influências francófonas.

Em 99, com aquela revolta repentina da população, claramente enquadrada pelos militares, e com o incêndio e saque do Centro Cultural Francês em Bissau, com a rápida fuga de Nino para a embaixada portuguesa, viu-se nisso uma clara manipulação dos acontecimentos por Portugal.

Pela primeira vez desde a descolonização, viu-se um Portugal activo na defesa de interesses em territórios a que nos ligam laços históricos, culturais, geo-estratégicos e económicos.

A força portuguesa constituída por 1 fragata, 2 corvetas e um reabastecedor, para além de 2 C-130 que se basearam em Cabo Verde demonstrou essa vontade de influenciar os acontecimentos e a vitória final dos homens de Mané foi uma vitória geo-estratégica de Portugal sobre as forças e influências francófonas.

3.
Tudo isto para estabelecer uma diferença de atitudes:

Portugal e França actuam de maneira completamente distinta no cenário africano pós-colonial:

Primeiro, porque Portugal não tem os meios humanos, materiais e económicos que lhe permitam manter uma intervenção mais activa e permanente nas suas antigas colónias.

Mas também a Inglaterra, outro país com tradições coloniais em África não adopta uma atitude pró-activa em África, de modo a comparar-se com a atitude francesa, preferindo adoptar uma atitude muito mais discreta, mesmo em situações de violação desses mesmos interesse, como se verificou há 4 anos no Zimbabwe.

Por outro lado, porque é imprudente a qualquer país europeu tentar influir os acontecimentos de forma tão “viril” como o fazem os franceses.

A diplomacia de bastidores, os “magistérios de influência” e alguma credibilidade é o melhor caminho para se conseguirem tirar vantagens de uma boa relação entre os estados europeus e africanos.

Está demonstrado que atitudes como a francesa está errada, e acaba sempre por se revelar perniciosa para a sua presença.

Finalmente, ainda que os interesses do estado europeu tendam piara um dos lados da contenda, essa atitude não pode ser descaradamente assumida, como parece ser o caso, ao vermos a França colocar-se objectivamente do lado dos rebeldes marfinenses, contra o Governo.

Se a Portugal neste domínio não lhe falta a sabedoria e a prática de longos séculos de colonização e expansão, faltam-lhe os meios materiais para em algum momento poder responder à chamada de um país amigo.

Daí a necessidade de Portugal procurar, só, ou no seio da CPLP estabelecer uma presença mais efectiva do ponto de vista político e diplomático, e que possa colocar o mundo lusófono a ter uma voz no Atlântico Sul, o que só lhe trará vantagens no teatro da União Europeia.

Este texto é da autoria de Rui Manuel Elias e foi publicado em 10.11.2004.


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