Brasil
Sociedade / Política

O cancelamento do programa FX

por Pedro Brás
25.11.2004


Com o recente cancelamento ou provável recente cancelamento do programa FX, há umas quantas reflexões que se podem fazer:

O FX, pretendia dar ao Brasil um pequeno número de interceptores de superioridade aérea, com o objectivo primário de defender primeiramente Brasília e depois todo o território, de uma eventual acção aérea hostil.
Um avião para Brasília, e outro avião (mais barato) para garantir a superioridade aérea no resto do território (o F-5).

Por isso, o Brasil tem neste momento, não só os Mirage (os que ainda conseguem andar), mas também os F-5, que agora se estão a modernizar, para o padrão F-5BR. Esta modernização dos F-5, é uma espécie de MLU, que vai fazer o F-5 se equiparar a outros aviões mais modernos. Basicamente, o F-5BR terá capacidade para disparar mísseis BVR, datalink, melhor radar etc.

O avião vai poder interagir com os aviões AEW Embraer, o que transformará o F-5BR num dos meios mais eficazes na América do Sul. Junto com os aviões de reabastecimento em voo, os aviões radar e com o apoio dos AMX para ataque ao solo, a FAB, continua a ser mais poderosa que qualquer outra força aérea na América do Sul.

Portanto, o fim ou adiamento prolongado do FX, poderá, eventualmente, permitir no futuro uma estrutura diferente na organização dos sistemas de defesa aérea brasileiros.

Considerando que neste momento se está a modernizar o F-5, mas que este avião não deixa de ser um vector algo antigo, não é impossível ver um futuro em que um futuro F/X, se transforme no único caça de superioridade aérea da FAB.

Não deixa de ser verdade que, o FX, agora adiado ou cancelado, também era visto como um substituto do F-5, depois de substituir os Mirage, mas aí o factor “obsolescência” seria muito mais evidente.

Portanto, se o Brasil quer um caça, que substitua não só os MIRAGE como os F-5, fará algum sentido, aguardar agora, dar ao F-5 modernizado a função de principal meio de defesa aérea e depois de completada a modernização do F-5, pensar no seu substituto, na altura. Então, entre os aviões a procurar, provavelmente não estarão o Mirage 2000, o F-16, o MIG-29, nem provavelmente o SU-35, mas sim aviões mais avançados, como o Rafale, o Eurofighter, ou eventualmente o F-35, ou outras versões de fabrico russo ou mesmo chinês.

Evidentemente, há a considerar a questão das relações com os Estados Unidos, onde residem os problemas com o fornecimento de equipamentos fabricados nos E.U.A. ou com componentes desse país. Esta questão, condicionará sempre as opções brasileiras, levando a que, eventualmente, venha a haver - por necessidade - uma aproximação entre o Brasil e a Rússia ou a China.
Se os Estados Unidos forem um país com um governo responsável, tratarão de, quanto antes, acabar com as restrições à venda de alguns armamentos ao Brasil, aceitando de uma vez por todas, que a venda de armamento ao Brasil, não desequilibra nenhum “equilíbrio” regional, porque o desequilíbrio é evidente desde meados do século XX.

O Brasil representa sozinho, quase 50% da América do Sul, em termos geográficos, demográficos e económicos. Não pode por isso, considerar-se como vital, nenhum equilíbrio estratégico com nenhum dos seus vizinhos (justificando assim a recusa em fornecer equipamentos militares).
A não ser, claro, que o problema em Washington, não seja um problema de equilíbrio dentro da América do Sul, mas sim um problema de equilíbrio entre o Brasil e os próprios Estados Unidos.

Este texto é da autoria de Pedro Brás e foi publicado em 25.11.2004.


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