Portugal
Sociedade / Política

Espanha e Portugal

por Rui Manuel Elias
07.12.2004


Espanha e Portugal

A Espanha prepara-se para adquirir um lote de cerca de 100 mísseis de cruzeiro Taurus para poder usá-los nos seus F-18 e nos futuros Eurofigther.

É certo que a Espanha pode sempre argumentar que tem latente um conflito com o seu vizinho do sul, Marrocos, devido à presença espanhola em Ceuta e Melilla.

Mas pelo contrário, e em caso de agressão marroquina, a Espanha poderia sempre invovcar o Artigo V da NATO, que prevê o apoio militar dos estados da Aliança a um seu membro que seja agredido por terceiros.

Simplemente a Espanha parece não estar disposta a dormir à sombra do "guarda-chuva" europeu ou da NATO no seu todo.

Cada vez se assiste mais a um desiquilibrio estratégico entre Portugal e Espanha ao nível de poderio militar.

É certo que Portugal e Espanha não têm quaisquer conflitos em aberto (e nem sequer um potencial, ou embrionário conflito sobre a posse de Olivença ou das Selvagens será suficiente para justificar uma “corrida armamentista” peninsular).

São países membros da União Europeia, membros da NATO, e mantêm boas relações.

Creio mesmo que no futuro, se conflito houver, este se deverá à disputa das águas dos três principais rios internacionais, já eu de acordo com projecções, dentro de 50 anos, o clima no sul europeu tenderá a ser cada vez mais seco.

Apesar dos convénios assinados entre os dois estados para a partilha dos recursos hídricos, numa situação de crise, a Espanha tem tudo a seu favor para ditar os termos de futuras negociações.

O país é maior, com mais do quádruplo da população portuguesa, com uma economia mais forte, já tem neste momento uma boa base de partida em termos militares para se tornar dentro de 10 anos ma potência regional, caso o pretenda, e os rios nascem em Espanha.

O que cabe a Portugal fazer neste domínio?

Gostaria que de um ponto de vista de médio-longo prazo se pensasse em dotar as nossas FA’s de capacidades suficientemente dissuasórias para que um dictat de Madrid não se venha a concretizar a termo.

Para isso, Portugal não se pode fiar unicamente nas alianças militares tradicionais, nem esperar que nada aconteça.

É tempo de se pensar a prazo, com planeamento, mas também com acção.

Com um aumento do PIB dedicado à Defesa (e neste caso, não para meras despesas administrativas, mas sobretudo ao nível de investimento, de aquisição e operação dos equipamentos).

Não numa perspectiva de corrida armamentista paritária, de que sairíamos sempre perdedores, mas para alcançar um patamar mínimo de credibilidade dissuasória.

Creio que Portugal, apesar de pequeno, não pode ser apanhado “de calças na mão” se um dia qualquer situação criada aparecer.

Do que estamos à espera para iniciar de facto esse processo?

É certo que pela sua situação geográfica, e tradicionais alinhamentos, Portugal deverá dar prioridade aos sistemas navais e aéreos, mas ao nível de sistemas terrestres, é tempo de apostar fortemente em grandes capacidades de defesa anti-aérea, sistemas de rastreio e vigilância do espaço aéreo, e procurar o seio da FAP, dotá-la de plataformas aéreas modernas, em número e qualidade, capazes de dissuadir um ataque aéreo vindo de leste.

Porque uma sólida politica externa só se pode alicerçar, não apenas por meio das relações bilaterais e multilaterais, mas sobretudo através da sua credibilização.

E a credibilização de uma afirmação nacional, passa necessariamente por um aumento das capacidades militares de um Estado.

Este texto é da autoria de Rui Manuel Elias e foi publicado em 07.12.2004.


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