Portugal
Sociedade / Política

O que esperar do próximo ministro da defesa

por Paulo Mendonça
27.02.2005


Com a recente vitória do Partido Socialista nas eleições de 20 de Fevereiro, formou-se no parlamento português, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, uma maioria, daquele partido.

Um governo de maioria, tem uma muito maior autonomia no que respeita às suas opções a longo prazo, e ao cumprimento das promessas e disposições assumidas perante os eleitores. Pode, por exemplo, governar com um determinado numero de objectivos no horizonte, podendo correr o risco de tomar medidas impopulares, que permitam, no prazo de uma legislatura completa (4 anos) atingir os objectivos a que se propôs.

Em Portugal, ao longo dos últimos trinta anos, houve lugar a uma continua política de desinvestimento nas Forças Armadas. Grande parte dos governos, por opção ou necessidade, decidiram cortar aqui, reduzir acolá, sempre argumentando que as forças armadas devem ser cada vez mais pequenas e conseguir ganhos de eficiência sempre que possível. Foi reduzido o numero de aeronaves da Força Aérea, foi reduzido, por envelhecimento e incapacidade de adquirir novo ou usado, o numero de navios da marinha, e ao exército, foi pedido que fosse para Timor e para a Bósnia, com as mesmas armas com as quais se mandou esse mesmo exército combater em África, há cerca de quarenta anos.

O próximo Ministro da Defesa Nacional, não se pode exactamente queixar do que lhe deixa o seu antecessor. Provavelmente, depois de 25 de Abril de 1974, poucos ministros da defesa, vão encontrar um numero de projectos e programas de modernização em andamento, quanto o próximo ministro.

No entanto, o facto de vários programas terem sido iniciados ou continuados não faz deles, programas terminados.

Se, a política do futuro ministro da defesa, for a de mudar apenas porque não gosta do que foi feito anteriormente, grande parte do trabalho poderá estar perdido.

Os programas mais importantes de rearmamento das forças armadas portuguesas, são: Na marinha:
O programa dos Navios de Patrulha Oceânicos (NPO), o programa do Navio Polivalente Logístico (NAVPOL). Sendo ainda de realçar o programa dos submarinos, U-209PN e o da aquisição de duas fragatas da classe Oliver Hazard Perry, aos Estados Unidos.

No exército está encaminhado o processo das viaturas blindadas sobre rodas, tantas vezes adiadas, o programa de substituição da principal arma ligeira do exército (a velha G-3) também está encaminhado. Estão ainda em cima da mesa, embora com menos prioridade, a aquisição de veículos de combate para a Brigada Mista (vulgo tanques) e a aquisição de helicópteros para o Grupo de Aviação Ligeira do Exército (GALE).

Na Força Aérea, o programa de modernização dos caças F-16 A/B e a sua transformação em F-16AM/BM, a conclusão da substituição dos PUMA (a substituição dos vetustos PUMA, já começou) e os não menos importantes programas de substituição ou modernização dos C-130 Hercules e C-212 Aviocar, são os casos mais importantes.

O futuro ministro, tem, além de continuar com estes programas, um problema maior pela frente, que consiste em alterar tão depressa quanto possível, as mentalidades dentro das Forças Armadas, com alguns comandos habituados a um exército de recrutas, e que, cada vez mais têm que se habituar a um exército de técnicos especializados, que são demasiado preciosos e caros de formar.

Mas nenhum destes problemas, é tão grave, tão importante e tão fatal, quanto a possibilidade que existe, de o próximo governo, pressionado pelas circunstâncias, e pelas necessidades, reduzir ainda mais os meios das Forças Armadas, tornando-as pouco mais que uma organização capaz de aparecer em paradas militares.

Há alguns tempos atrás, Mário Soares, antigo líder do Partido Socialista e antigo comandante supremo das forças armadas portuguesas, disse numa entrevista à estação de televisão SIC, que Portugal precisava da Europa, porque se não for a Europa, Portugal não tem qualquer capacidade de se defender, porque as forças armadas são inúteis. Ficou no ar a ideia de que o antigo presidente não tinha qualquer apreço pelas Forças Armadas. Mário Soares, provavelmente também não terá muito apreço pela História, porque essa Europa, nunca nos defendeu de nada. A nossa independência sempre se deveu às nossas relações marítimas e atlânticas.

Foi sempre da Europa, que vieram os invasores, e as tentativas de destruir a independência nacional.

Quase mil anos de História, dizem-no, afirmam-no, gritam-no em alto e bom som. Só não o entende quem for surdo.

Esperemos que o próximo ministro da defesa, não o seja.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 27.02.2005.


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