Portugal
Força Aérea

Aviões sem pilotos, ou pilotos sem aviões?

por Rui Manuel Elias
22.03.2005


A propósito da recente notícia do jornal PÚBLICO acerca da indefinição do futuro dos pilotos da Força Aérea Portuguesa (FAP), e da compreensível tendência que estes têm para largarem a FAP que os formou e lhes deu horas de voo para os habilitar a concorrer a lugares mais bem remunerados em companhias aéreas de aviação civil, cumpre-me reflectir sobre o seguinte:

Se Portugal poderá ter mais aviões sem pilotos, ou restante pessoal de terra, porque não os há disponíveis, ou se poderíamos ter pilotos e pessoal de terra sem aviões e helicópteros para voar.

Trata-se de um problema que resulta de uma deficiência que não é exclusiva das FA's, e em que os recursos humanos formados dentro das universidades, institutos e academias não correspondem, nem dão resposta aos lugares disponíveis.

O que se passa no domínio da Saúde é sintomático:

Muitos Centros de Saúde e Hospitais, relativamente bem equipados para funcionarem têm que recorrer a médicos dos PALOP, que frequentam as nossas faculdades de medicina ao abrigo das quotas que os dispensam dos numerus clausus, e recorre-se em massa a pessoal médico e de enfermagem de Espanha.

Porque uma visão restrita, corporativa e tacanha ao nível do sistema educativo acaba por levar a isso.

Com as FA's passa-se o mesmo.

O problema não é o número de plataformas, mas de falta de recursos humanos para as operar.

Creio que as academias e escolas servem, para formar os candidatos, e estes surgem desde que lhes sejam oferecidas condições financeiras e materiais atraentes.

Também a dignificação passa por poderem operar plataformas que não os envergonhem lá fora.

E que para isso, tudo se resolva mais num plano de vontade política e capacidade orçamental, que por limitação na capacidade de formação de pilotos, mecânicos, e outro pessoal de terra.

Num país com 10 milhões de habitantes há massa crítica suficiente para formar pessoal para operar 3 ou 4 esquadras de F-16 ou outro caça.

Portanto, se mantivermos uma mentalidade redutora do estilo "não podemos ter plataformas porque não há pilotos para as operar", isso levaria ao cúmulo teórico de que não valeria a pena construir o futuro hospital de Loures, já que para lá trabalharem médicos e enfermeiros não há em Portugal gente suficiente.

Ou que a nova cidade judicial de Lisboa não pode abrir, já que as admissões estão congeladas na Justiça há anos, e portanto o edifício ficaria às moscas, ainda que para lá se transferissem funcionários e oficiais de justiça transferidos dos actuais tribunais.

Ou se abrem mais vagas nas escolas e academias ou nunca havemos de sair de um atavismo mental e corporativo, que remonta aos tempos do Estado Novo, e que limita à partida a admissão, parecendo ser essa a principal preocupação, ao invés de proporcionar bons e exigentes cursos aos admitidos.

Não limitar a admissão à partida, mas tornar os cursos mais exigentes, e com uma boa pedagogia de ensino, e um efectivo incentivo monetário e material para que se mantenham ao serviço da FAP durante um mínimo de tempo razoável.

Ou se quer ou não se quer, e a pior caminho será o cruzar dos braços e ficarmos satisfeitos em termos aviões para participar em festivais militares ou desfiles, para general ver.

Um país que se resigna que se rende aos poderes “fácticos”, aos interesses tradicionalmente instalados, ao imobilismo não muda.

Um país que se mantém agarrado a velhas “escolas” de formação, com apertadíssimo controle de entrada, para evitar os excedentes, que no final se revelam insuficientes para as necessidades nunca chegará a qualquer lado que o dignifique cá e lá fora.
Um país que deve e pode crescer, não só no domínio das FA’s mas noutros domínios estará apto para corresponder aos desafios do futuro, num futuro cada vez mais imprevisível no plano externo, e desafiador nos planos da competitividade, nas diversas áreas da governação.

Este texto é da autoria de Rui Manuel Elias e foi publicado em 22.03.2005.


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