Portugal
Sociedade / Política

Aliança entre Portugal e o Brasil, uma necessidade?

por Rui Manuel Elias
28.03.2005


1.
Sobre a eventualidade teórica e académica de um potencial conflito entre Portugal e Espanha que pudesse com o tempo degenerar numa espécie de conflito militar, ainda que em teatro limitado, haveria a possibilidade do Brasil, aliado histórico de Portugal poder auxiliar militarmente o país da língua de Camões?

Um conflito que poderia ser provocado por uma disputa de recursos, com a água, já que os principais recursos hídricos nacionais nascem em Espanha, e que parecem cada vez mais escassos, já que a tendência dos últimos anos tem apontado para a sequência de nãos de fraca pluviosidade.

E que possibilidades reais teria essa aliança para defrontar com êxito a Espanha, ou no mínimo constituir um factor de dissuasão?

Há um professor universítário conhecido, que é militar da Marinha que diz que em Portugal só se começa a planear as suas aquisições quando o inimigo já trepa pelas colinas de Lisboa.

E é mesmo assim.

No passado e mais ainda no presente.

Não é teoria, mas a realidade.

Hoje, se um conflito houvesse, a Espanha teria os meios para em menos de 24 horas tomar todo o território continental.
O melhor mesmo era declarar Lisboa, Porto e outras regiões como locais abertos, para evitar confrontos.

Imaginem um confronto entre os nossos M-60 e os Leopard de Espanha ou os novos blindados de rodas de Espanha contra os nossos Cahimite.

Ou nos ares, os nossos 40 F-16 contra os F-18 e EF de Espanha.

Um massacre sem sentido!

A única forma de resistência seria uma guerra de guerrilha, desgastante, e essa só poderia ser alimentada pelo exterior, através de desembarques clandestinos na costa, que Espanha se esforçaria por dificultar.

E uma resistência passiva, movida por um grande movimento social de patriotas.

Se houvesse aviso prévio teríamos que retirar toda a frota da Armada e Força Aérea para os Açores e para Cabo Verde.

Quanto a uma ajuda brasileira, e apesar de ter uma Armada interessante, de pouco poderiam fazer para furar o bloqueio na rota imposta pelos submarinos de Espanha, mais as 3 F-100.

As 6 fragatas Santa Maria (OHP) faria o serviço em relação aos aviões do Brasil e de Portugal que tentassem atacar os navios de Madrid.

O S. Paulo de pouco serviria, senão para transportar algumas tropas e aviões para um assalto ao continente, a partir dos Açores (caso Espanha não os tomasse).

Os LPD`s do Brasil só seriam úteis para transporte de tropas e materiais até aos Açores, porque para o Portugal continental, só serviriam após o estabelecimento de uma testa de ponte, muito improvável.

Os 23 C-130 brasileiros para transporte de homens e equipamento teriam que fazer escala em Cabo Verde até chegarem aos Açores (a eterna falta de meios estratégicos de projecção aérea).

Poderíamos ainda contar com algumas tropas de outros países amigos, como Angola, mas apenas ao nível de infantaria, de que nada serviriam num cenário de Portugal ocupado militarmente.

Perante um ataque surpresa, Espanha numa noite poderia fechar a barra do Tejo, e toda a nossa Marinha ficaria bloqueada e inoperacional.

As poucas bases poderiam ser bombardeadas e as pistas inutilizadas em 1 hora.

Depois desse golpe de força, em menos de 48 horas, por terra o exército espanhol poderia por estrada tomar os centros urbanos e controlar as comunicações, aeroportos de Lisboa, Porto e Faro.

Fechar o trânsito em 3 pontos, cortando o país em 3.

Não teríamos qualquer hipótese, a menos que houvesse um grande movimento internacional que forçasse a Espanha a recuar (como aconteceu com a 1ª guerra do Golfo, em relação ao Koweit ocupado pelo Iraque).

Daí que como tenho escrito noutros locais, e apesar de um conflito que degenerasse numa guerra seja uma hipótese extremamente remota, Portugal, tal como a Espanha o está a fazer nos dias de hoje (sem que de igual modo ameaças reais e credíveis estejam no seu horizonte, mas que não abdica de vir a ter 6 F-100, com Tomahawks para lá das Santa Maria, de um PA e de dois LPD`s), se deveria armar positivamente, não numa perspectiva belicista, mas para atingir um patamar suficientemente dissuasor para qualquer ameaça à sua integridade territorial.

2.
Portugal e Espanha são países amigos, aliados no seio da NATO e parceiros na construção europeia, partilham o mesmo espaço geo-estratégico, e não há contenciosos de maior entre os 2 países.

O que não significa que as coisas não possam mudar no futuro, num mundo unipolar, e onde as regras do Direito Internacional podem mudar, bem como conceitos e doutrinas, principalmente após o 11 de Setembro.

Por isso, e tendo em conta a história dos dois estados, podemos dizer que estatísticamente, Espanha tentou tomar Portugal de 200 em 200 anos, o que não augura nada de bom para o futuro.

Actualmente, há um grande desiquilíbrio estratégico entre os 2 países, decorrente do maior esforço e empenho espanhol em investir em sistemas de armas, quer em quantidade quer em qualidade.

Apesar da percentagem do PIB espanhol ser inferior ao português, no que se destina à Defesa, o que é certo é que tudo parece indicar que Espanha investe melhor que Portugal nestes domínios.

Mas o cruzar de braços por parte de Portugal pode dar lugar à crescente irrelevância portuguesa no seio da NATO e de outras organizações.

A eminente mudança do Comando Regional da NATO de Oeiras (Lisboa) para Madrid, apenas se evitou devido ao apoio canino que Portugal deu aos EUA na invasão iraquiana, já que Portugal não tem neste momento efectivo poder de vigilância das sua águas e do flanco sudoeste da NATO, nem meios militares credíveis em quantidade e qualidade.

Uma aliança entre Portugal e o Brasil, como você defende, só se poderia concretizar num quadro bilateral, ou no quadro da CPLP.

Ora o Morcego sabe que a CPLP tem como principais e praticamente únicos impulsionadores exactamente Portugal e o Brasil, dadas as dificuldades dos novos países africanos e de Timor.

Eu acredito, e já escrevi isso noutras ocasiões, que se poderia e deveria dar maior impulso à vertente de cooperação militar no quadro da CPLP, que fossem algo mais que os pobres e minimalistas Exercícios FELINO que anualmente se realizam.

Mas sinceramente não acredito numa aliança militar entre os 2 países para fazer frente ao crescente poderio militar espanhol.

Porque para já não é necessário, e depois, porque a ambos os países falta-lhes o essencial para que essa aliança saísse do papel e das boas intenções:

Efectiva capacidade de projecção de forças.
Este texto é da autoria de Rui Manuel Elias e foi publicado em 28.03.2005.


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