Portugal
Sociedade / Política

O complexo do «Complexo anti-espanhol»

por Paulo Mendonça
01.05.2005


Num dos seus últimos artigos no diario PÚBLICO sobre questões de geo-estratégia, o general Loureiro dos Santos aflora o interessante tema, do complexo do complexo anti-espanhol.

É realmente um facto, e deveria ser melhor analisada e estudada, esta característica recente dos portugueses de, sempre que a Espanha aparece pelo nosso caminho, defendendo os seus interesses (legítimos ou não) termos medo, receio ou vergonha de chamar os bois pelos nomes e afirmar, alto e bom som, que a Espanha é o problema, e que se a Espanha defende os seus interesses, então, é nosso dever fazer a mesma coisa.

A ditadura do politicamente correcto, está a tornar-se doentia, e corre o risco de abeirar a pouca-vergonha.

Deixo aqui, algumas das palavras do general:

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= CITAÇÃO =
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“... Actualmente, a propósito de qualquer análise sobre as relações entre Portugal e Espanha que uma pessoa arrisque abordar, não se regozijando com a atitude do nosso vizinho, mas culpando-o por nos ter prejudicado, é muito «politicamente correcto» acusá-la de ter o «complexo anti-espanhol», ou seja, de ver na Espanha a principal razão das nossas dificuldades. São modas...

O politicamente correcto aconselha, igualmente, a dizer mal dos americanos, em quaisquer circunstâncias... Existem comentadores que não resistem a navegar nesta onda. Para eles, é premissa indiscutível que os nossos vizinhos são sagazes e activos, ao mesmo tempo que solidários e bondosos, portanto incapazes de defender os seus interesses com prejuízo dos nossos. Pelo contrário, os portugueses são uns mal agradecidos que, ainda por cima, dizem mal de quem estaria sempre preocupado em ajudá-los.
(...)

Por vezes, este comportamento tem origem em motivos genuínos de quem pensa que um único espaço político estatal alargado ao todo peninsular melhoraria o bem-estar dos portugueses, ou então que nos seria benéfico serem outros a governar-nos, em vez de nós próprios. Em outras ocasiões, trata-se simplesmente de fraqueza e falta de coragem. Frequentemente, tem por justificação a barragem de acusações a que se sujeita quem tenha a «triste» ideia de acusar os espanhóis de alguma coisa, por mínima que seja. Isto conduziu a outro complexo, actualmente bem mais dominante do que o «complexo anti-espanhol» - o complexo do «complexo anti-espanhol». É claro que este complexo, incentivado pêlos espanhóis sempre que exista oportunidade, é muito vantajoso para os empresários do país vizinho e para certos empresários portugueses também beneficiados, assim como para a direcção política espanhola em funções, cuja postura não se altera significativamente com mudanças de governo: estilo mais soft com os socialistas e mais hard com os populares. É curioso assistir à forma como reage alguma imprensa do país vizinho, quando existe algum clamor público em Portugal, à volta de queixas com o comportamento do seu governo ou de alguma sua empresa.

Entre responsáveis portugueses, são inúmeros os exemplos deste complexo. Tanto nas relações de natureza política, como nas económicas e até nas culturais. Tem sido comum o governo português fingir que não existem problemas. O caso de Olivença é paradigmático. Sempre que alguém ousa levantá-lo, como a Assembleia da República, legalmente forçada a pronunciar-se na sequência de uma petição que lhe foi apresentada, o governo assobia para o lado, fazendo de conta que o assunto não é com ele. Ora, Olivença é um potencial foco de tensão entre os dois Estados ibéricos.
(...)

... Ou na condescendência da participação na última cimeira ibérica das lideranças políticas das regiões autónomas espanholas fronteiriças, criando a imagem de que Portugal se rebaixava a este nível. É certo existirem temas que aquelas regiões precisam de negociar com a sua contra-parte portuguesa. Mas este problema tem outra solução - criar urgentemente regiões administrativas, em Portugal, com base nas regiões de coordenação e desenvolvimento regional, por um lado, e estabelecer reuniões periódicas entre as regiões económicas existentes no conjunto peninsular (todas as espanholas, os Açores, a Madeira e o continente português, este representado por um ministro de Estado coordenador, como região económica), onde se tratariam assuntos de ordenamento do território, comércio, turismo, etc., que fossem da sua competência

No respeitante ao complexo do «complexo anti-espanhol», parece que a profunda crise económica que o país atravessa está a despertar forcas inusitadas no sentido de o limitar, senão eliminar. Passando o discurso e a acção a basear-se apenas no interesse de Portugal, mesmo que ele seja visto e proclamado pêlos nossos vizinhos como prejudicial ao interesse de Espanha. É assim que os espanhóis procedem connosco.

Teremos de ter consciência de que, em termos de relações internacionais. Portugal e Espanha estarão juntos na maior parte das vezes. Mas, possivelmente outras tantas, encontrar-se-ão em lados diferentes, na defesa dos respectivos interesses.

(JOSÉ LOUREIRO DOS SANTOS - GENERAL) = = = = = = = =
FIM DE CITAÇÃO
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A argumentação é interessante, sendo no entanto de ressalvar uma questão:

Pelo facto de a Espanha ser um país regionalizado, isso não implica que, indo a reboque, Portugal tenha necessidade de se regionalizar, apenas para, nas cimeiras ibéricas, ter interlocutores para os governos autónomos.
Igualmente, terá o governo português, que no futuro, começar a distinguir as claras diferenças entre as nações históricas que constituem a Espanha, como a Catalunha, o País-Basco e a Galiza, não podendo dar o mesmo relevo a outras, como a Estremadura, ou Castela-e-Leão, que são meras partes do país nuclear de Espanha, ou seja, Castela.
Em vez de complexos anti-espanhois, ou dos complexos dos complexos anti-espanhois, faremos muito melhor em entender a história, para entendermos o que realmente se passa na península ibérica.
O movimento é provavelmente irresistível, e a actual Espanha, nada ou quase nada pode contra ele.
A versão completa do artigo de Loureiro dos Santos está disponível no site do jornal PÚBLICO

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 01.05.2005.


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