Portugal
Exército

Aljubarrota: 620 anos

por Paulo Mendonça
14.08.2005


Comemoram-se neste dia 14 de Agosto de 2005, seiscentos e vinte anos, desde que numa tarde de Agosto de 1385, as forças portuguesas, sob o comando do Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, desbarataram de forma humilhante, as forças do Rei de Castela, poderosamente apoiadas pela cavalaria pesada enviada pelo Rei de França.

Segundo uma das versões, apoiada nos escritos do historiador Froissart, o intuito daquelas forças, no contexto da guerra dos 100 anos, era o de anular um pequeno mas potencialmente importante aliado do Reino de Inglaterra.

O Rei de França terá enviado cerca de dois mil cavaleiros e gente de apoio. O Rei de Castela, igualmente reuniu um exército como havia muito não se via na península ibérica. O facto de Portugal ter apoiado a pretensão do Duque de Lancastre à coroa de Castela, também foi um dos factores que levou os castelhanos a optar por suprimir Portugal.

Embora não seja possível determinar um numero exacto, acredita-se que no total, com cavalaria e homens a pé, o exército chegasse aos 30.000 homens, havendo quem considere que, com o pessoal de apoio, o exército invasor poderia atingir no total, 38.000 homens.

Esse exército marchava contra um país pequeno, e que como é normal na sua história, em períodos de crise se encontra dividido em vários partidos e facções, todas elas incapazes de dialogar e muito menos de chegar a acordo. Desde 1383, com a morte de D. Fernando que Portugal se encontra virtualmente sem Rei.

A facção que decide enfrentar a invasão, é aquela que sai das Cortes de Coimbra que em Março de 1385 declaram Rei de Portugal, D. João, mestre da Ordem de Aviz. Porém o Rei de Castela, considera ter direito ao trono e por isso vem, pela segunda vez atacar Portugal para fazer valer os seus direitos.

O Rei de Castela, não deixou nada ao acaso. O exército que reuniu, é muito maior que aquele que cercou Lisboa de Maio a Setembro de 1384.

O exército invasor, tem um único objectivo: Destruir Portugal e incorporar os dominios da coroa portuguesa, no reino de Castela.

Portugal era na altura, como em grande medida continua a ser, um país desconhecido. Mesmo para os Castelhanos, mas muito mais para os Franceses, é apenas um pequeno reino, relativamente pobre, situado no fim do mundo, Os seus poucos nobres e cavaleiros acabarão por se render.
Um simples carga de cavalaria, deverá ser suficiente para os destruir e vencer.

No entanto, as coisas correram mal. O orgulho desmedido de alguns nobres franceses, que consideravam que poderiam sozinhos vencer a batalha, terá apressado um primeiro ataque aos Portugueses. Esse primeiro ataque foi dizimado, quer pelas armadilhas contra cavalos (tocas de lobo) quer pelas próprias forças portuguesas, que colocadas num ponto estratégico tinham vantagem táctica.
Assumiram uma posição de defesa, que lhes permitiu, depois de os franceses terem rompido as linhas, voltar a refaze-las, cercar os franceses e derrota-los.

A segunda e principal vaga do ataque, ocorre mais tarde, provavelmente por volta das 18:00. As forças castelhanas avançam, estão cansadas, e exaustas. Os portugueses estão moralizados pela vitória sobre a primeira vaga e ocupam uma área delimitada por dois cursos de água, o que lhes permite concentrar as suas tropas numa frente reduzida. Os castelhanos, em grandes quantidades concentram-se para tentar atacar os portugueses. O resultado é uma catástrofe.

As forças portuguesas debatem-se tenazmente. Os castelhanos não conseguem romper a linha defensiva portuguesa, e a pressão exercida sobre os peões uns contra os outros, tornou o exército castelhano, numa mole enorme de soldados que é impossível de controlar. Ao fim de meia hora, a situação atinge um ponto tal, que o próprio Rei de Castela, perante a catástrofe, é obrigado a fugir apressadamente.

Com a fuga do rei castelhano, é a debandada total. Há ainda tentativas esporádicas por parte de alguns nobres castelhanos de reagir, mas o Deus da Guerra já tinha decidido quem era o vencedor.

Mais tarde, e durante os dias que se haviam de seguir, milhares de castelhanos, isolados, perdidos, longe de casa, foram atacados e mortos pelas populações rurais.

A vitória foi absoluta.
Dias mais tarde, o Rei de Castela entra em Sevilha, vestido de negro, em sinal de luto. Mandam-se rezar missas, a pedir perdão a Deus, pois considera-se que Castela foi derrotada por causa do pecado da Soberba.

A batalha em si, foi também um marco na história dos combates medievais, e marcou o principio do fim da cavalaria pesada, como principal arma no campo de batalha.

A derrota de Aljubarrota, terá outras consequências. Ao ter dizimado a fina flor da nobreza castelhana, a batalha atrasou os planos de Castela para se tornar na potência dominante da península ibérica e impossibilitou Castela de assumir sozinha a tarefa de expulsão dos muçulmanos do Reino de Granada. Durante 100 anos, até à batalha de Toro, onde é a nobreza Castelhana que por sua vez tem que lutar para manter a independência e evitar a incorporação de Castela no Reino de Portugal, haverá um equilíbrio instável, que acabará quando, convencidos da impossibilidade de qualquer união entre Portugal e Castela, os dois reinos assinam o tratado de Tordesilhas e estabelecem à escala planetária aquela que até ali era a divisão entre os dois reinos ibéricos.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 14.08.2005.


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