Portugal
Sociedade / Política

Os militares em missões de Paz no estrangeiro são mercenários ?

por Paulo Mendonça
30.11.2005


O conhecido jornalista Carlos Pinto Coelho, num recente comentário tecido no jornal 24 horas afirmou que os soldados hoje só vão para a guerra para ganhar dinheiro.

Afirmou Pinto Coelho, que os seus contemporâneos iam porque eram obrigados, e estes agora vão para ganhar dinheiro.

Não deixa de ser verdade que, comparativamente som a situação conhecida durante a guerra em África, os actuais militares beneficiam de direitos e benesses, que não eram nem sonhadas nos idos tempos do fim dos anos 60 e inicio dos anos 70, em que o país estava mergulhado em três guerras em África.
Não parece no entanto muito lógico efectuar comparações tão simplistas e redutoras, porquanto se trata de situações e cenários diferentes e distantes, e não só no tempo e no espaço.

Não está em causa que os militares portugueses se combateram em África, o fizeram obrigados. Naquele tempo, a justificação para o combate, baseava-se no principio (com o qual podemos ou não discordar) de que os militares defendiam território nacional, e que o país se limitava a defender-se de entidades estranhas que o atacavam.
Neste caso, a defesa era legitima, e estava-se numa situação de guerra. Os sacrifícios que foram pedidos aos militares, foram altos, e foram decorrentes da necessidade de responder a um ataque directo.

Presentemente, estamos perante uma situação muito diferente, em que o país tem outros objectivos e razões para enviar militares para fora das fronteiras. Portugal insere-se numa realidade diametralmente oposta aquela que existia nos anos 60/70.
Não estamos no Afeganistão por estarmos orgulhosamente sós, estamos no Afeganistão porque estamos orgulhosamente acompanhados, e ao contrário dos tempos de Salazar, fazemos a nossa parte, numa aliança, da qual também depende a nossa segurança nacional, e em última análise também a nossa independência.

Não parece correcto chamar mercenários aos militares portugueses. O termo mercenário não se aplica nestas condições.
Formalmente, um mercenário é um militar, como outro qualquer. Porém, há uma diferença fundamental entre o militar profissional e o mercenário.

Os dois recebem um salário. No entanto, a definição diz que enquanto o mercenário recebe dinheiro, sem reger a sua prestação de serviços por qualquer tipo de valores éticos ou morais, um militar recebe dinheiro pela sua disponibilidade para lutar, e porque se disponibiliza para passar riscos, e mesmo para morrer em nome de um país, de uma nação ou de uma causa.

Podemos achar que aqueles que se bateram em África, foram vitimas de injustiças, e que pelo seu sacrifício pouco ou nada auferem hoje. Mas não podemos por isso, e por causa disso, desqualificar ou menosprezar o esforço dos militares que hoje, cumprem as suas missões. A sua dedicação é tão legitima, quanto a de outros militares que serviram o país.

Não devemos chorar o dinheiro que recebem, devemos isso sim, lamentar que outros, no passado e em circunstâncias igualmente difíceis, não tivessem as mesmas condições, nomeadamente financeiras, que os nossos militares destacados no estrangeiro têm hoje.


Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 30.11.2005.


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