Portugal
Marinha

A participação portuguesa em exercícios militares navais

por Rui Elias Maltez
20.12.2005


Participação portuguesa em exercícios navais internacionais

É recorrente que existam exercícios navais multi-nacionais fora do contexto do Atlântico norte e da NATO.

Mas Portugal parece ficar sistematicamente de fora dessa participação que lhe poderia dar maior saber e acertar, nomeadamente com países amigos e aliados doutrinas de actuação, envolvimento de meios que poderão ser úteis para teatros de conflito ou melhor articulação em forças multinacionais, nomeadamente para teatros de intervenção em missões de manutenção/imposição de paz, bloqueios navais ou missões de carácter mais humanitário.

Decorrerem recentemente no Brasil os exercícios UNITAS XLVII / 2005.

Portugal foi mais uma vez convidado para participar ao lados das marinhas do Brasil, Argentina, Espanha e EUA.

Portugal e França declinaram o convite.

A razão para esta recusa foi a falta de meios materiais e financeiros para essa participação, com uma fragata que fosse.

Esta perece ser a prova de que realmente a nossa Marinha está mal, em qualidade (sem que se avance para o up-grade das VdG), e em quantidade.

Na verdade temos em termos de fragatas 3 VdG relativamente novas e ainda bastante operacionais para ASW e 2 fragatas da classe Comt. João Belo, com mais de 30 anos, e que todos concordam já não representarem grande valor militar para as modernas exigências ao nível de solicitações militares navais de superfície, apesar de a NRP João Belo e a NRP Sacadura Cabral se manterem ao serviço da Marinha até 2008.

Estas duas João Belo poderão ser brevemente (daqui a um ano) ser substituídas por 2 OHP cedidas pela US Navy, o que representará um acréscimo em termos qualitativos, mas quantitativamente ficaremos na mesma.

O nosso único reabastecedor de esquadra, o NRP Bérrio está velho, e a Marinha já disse que a sua substituição era uma das prioridades, embora não hajam para já datas para a compra de um novo AOR.

Talvez isso explique o porquê dessa recusa na participação.

A Espanha tem 6 fragatas Santa Maria (baseadas nas OHP) e actualmente conta com 4 fragatas F-100 (classe Álvaro de Bazán).

Se Portugal tem neste momento e para todos os efeitos apenas as 3 Vasco da Gama, e se uma tem que estar quase sempre integrada numa força conjunta da NATO, sobram 2, das quais uma está sempre em prontidão e a outra em manutenções ligeiras.

O que resulta que de facto nos estamos a aproximar rapidamente do ZERO NAVAL, para o qual talvez nem tenhamos que esperar por 2020.

Teremos 5 fragatas, 2 submarinos, um novo reabastecedor de esquadra e um Navpol, para além dos 8 ou 10 NPO's.

No passado contámos sempre com 7 fragatas (nos anos 60 e 70 as 4 João Belo e as 3 Pereira da Silva) e mais recentemente ainda contámos com as 3 Vasco da Gama e com as 4 João Belo), para além das cerca de 10 corvetas das classes Batista de Andrade e João Coutinho.

O que se perspectiva para o futuro próximo parece-me sinceramente pouco, mas infelizmente o Estado português parece investir apenas no que possa dar retorno, como auto-estradas com portagem, hospitais SA etc.

As FA's estão ao abandono, e a população na sua generalidade está “divorciada” para isso, o que faz com que as FA's passem para o fundo da agenda política dos governos no pós 25 de Abril, terminada que ficou nessa altura a guerra colonial, e dada a indefinição para a sua existência que se seguiu por anos.

Eu por mim acredito que a CPLP poderia e deveria ter uma boa vertente militar para que em acções conjuntas de manutenção de paz se pudesse articular (nomeadamente as marinhas brasileira e portuguesa) para essas missões no Atlântico sul e em África.

Criar-se-ia uma nova realidade estratégica no Atlântico sul.

Mas Portugal está de pantanas, entregue à sua sorte enquanto navega à deriva, sem saber o que quer e para onde vai.

É o fim.
Este texto é da autoria de Rui Elias Maltez e foi publicado em 20.12.2005.


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