Portugal
Exército

Blindados: Dez anos de tristes figuras

por João Quaresma Thomé
28.12.2005


Foi há dez anos que Portugal enviou as primeiras forças para a Bósnia, integradas no dispositivo da NATO. Não era a primeira vez que se enviavam forças para uma operação de Paz (já antes capacetes azuis portugueses tinham estado em Moçambique e Angola), mas foi o primeiro envio de um contingente de escalão batalhão, e para um teatro de operações (na altura) de alto risco. Na altura, a opinião pública tomou conhecimento do que qualquer conhecedor de assuntos militares sabia há muito: a inadequação e obsoletismo dos blindados Chaimite e a necessidade da sua substituição. Muita tinta correu na altura, perguntando-se os analistas do burgo se seria sensato enviar tropas mal equipadas para uma operação militar. Como era possível que o Portugal Democrático tivesse tão pouco respeito pela segurança dos seus militares? Afinal, os generais de hoje eram os capitães de Abril de havia duas décadas atrás. E que o Portugal novo e livre tivesse votado as suas Forças Armadas ao abandono para agora a mandar "para a guerra" como carne para canhão? Foram feitas promessas de novo equipamento, o Presidente da República declarou que o re-equipamento das Forças Armadas era um dever do Estado e uma tarefa necessária que devia ser levada a cabo com responsabilidade, sem criticismo demagógico, etc, etc. As Chaimite lá foram e continuam a ser usadas, com a melhoria de um pára-brisas de acrílico para o condutor (de cabeça de fora) ter algo mais para se defender do frio do que apenas um capacete e uma máscara de lã, perante as temperaturas negativas do inverno balcânico. Uma tragi-comédia. Não bastasse a condução em estilo cabriolet, por alguma decisão iluminada, as torretas dos veículos tinham sido retiradas, sendo as metralhadoras Browning 12,7mm operadas sem qualquer protecção, torso todo para fora do casco. Isto num teatro de operações que se caracterizou pelos snipers. Mas a opção cabriolet tem um custo: um acidente em que um veículo capota e rola por uma ravina abaixo. Dois mortos, um deles o operador da Browning. Governo, chefias militares e imprensa assobiam para o lado. Afinal, quem vai à guerra dá e leva.

Em 1999, houve a intervenção no Kosovo. Mais uma vez Portugal mandou tropas e blindados. E mais uma vez a Chaimite, acompanhada de novo pelas Panhard VBL e desta vez por M113. Mas agora, e como a NATO torceu o nariz à Chaimite, o Governo da altura decidiu abrir os cordões à bolsa e comprar blindados de transporte de tropas novos... mais 17 Panhard VBL.

No mesmo ano Timor vive um inferno e, surpresa das surpresas, Portugal tem de intervir sem a ajuda de qualquer aliado. Lá vão os Páras (na vanguarda, como sempre) e são precisos blindados de transporte de tropas. Urgentemente. É para ontem! Blindados de transporte de rodas, claro. Cada Mowag Piranha básico cada cem mil contos, sentenciou o Estado Maior do Exército (alguém terá realmente estado na Eurosatory desse ano, ou limitou-se a ler a reportagem na revista Todo-o-Terreno? Fica a dúvida. Fica também a dúvida de quantas pessoas no EMA é que já ouviram falar na Eurosatory). Solução: condescentemente, o Governo abre os cordões à bolsa e compra Humvee blindados, generosamente excedentes de um contrato cancelado por um cliente do Médio Oriente. O dinheiro não dá para tudo. Está-se a pagar a Expo 98 e há contratos de construção que ainda têm a tinta fresca. Explicação para a escolha: as estradas de Timor são demasiado estreitas para algo mais largo que um Humvee. Além disso são mais baratos e também têm blindagem e rodas. Pouco importava que poucos meses antes as Nações Unidas tivessem avaliado o veículo e considerado imprestável para o uso pelos seus observadores, pela sua fraca resistência a minas, optando por comprar o Mamba sul-africano.

2002: um novo Governo e, sobretudo, uma vontade de fazer coisas pelas Forças Armadas como nunca se tinha visto nesta III República. E também ajudando a indústria nacional. Seria sensato num país onde as instituições funcionassem racionalmente, mas não em Portugal. Só que a Bravia, o nosso único fabricante de blindados tinha fechado portas há muito. Explorando a nostalgia pelo programa de aquisição das Chaimite, a Steyr propõe a construção dos blindados em Portugal, justamente com a Sorefame (que tinha fornecido os cascos das Chaimite à Bravia, nos anos 60 e 70). Boas condições, preço mais vantajoso e boa avaliação dão a vitória ao Pandur II. Mas como é que o GOM, uma empresa improvisada, pode fabricar blindados? Contratam-se alguns trabalhadores da Sorefame e aluga-se uma fábrica aqui ou ali, e fazem-se. Sabe-se lá como, mas fazem-se.

E assim não se têm feito. A juntar a isto o habitual carnaval nos tribunais, com queixas e recursos, KOs e OKs do Tribunal de Contas.

2005: Afeganistão. Sem comentários.

Começa 2006: mais de um ano depois de assinado o contrato com a Steyr e com a GOM, não se sabe ainda quando virá o primeiro blindado. Dez anos depois da Bósnia, o principal blindado de rodas continua a ser o Chaimite, que entrou ao serviço a partir de 1966.

Há 40 anos atrás, nem Salazar, com a sua forretice quanto a despesas militares, poderia imaginar que os blindados por si comprados iriam servir aos soldados portugueses do século seguinte.


Este texto é da autoria de João Quaresma Thomé e foi publicado em 28.12.2005.


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