Portugal
Exército

Sem PANDUR, ou Centauro ou Rooikat

por Paulo Mendonça
22.02.2006


Informações recentes relativamente à aquisição por Portugal das viaturas blindadas sobre rodas da empresa austríaca Steyr, referem que o exército teria desistido da ideia de adquirir a versão do PANDUR equipada com uma torre de 105mm.

Desde o inicio do processo de aquisição deste equipamento que tinham surgido duvidas relativamente à proposta apresentada pelo fabricante, que carecia de certificação, no que respeitava à capacidade do veículo PANDUR-II (com torre de 105mm) para operar em ambiente NBQ (Nuclear-Biológico-Químico) o que exige que dentro do veículo haja uma pressão de ar superior à da atmosfera, para garantir que não entra qualquer ar contaminado dentro do veículo.

No entanto, o veículo PANDUR sofre de outra “deficiência” quando falamos da adição de uma torre de 105mm, e a qual é comum também a outros veículos do mesmo porte como o PIRANHA, do mesmo fabricante.

Uma peça de 105mm pode ser pura e simplesmente demasiado potente para colocar num veículo que pesa menos de 15 toneladas. Ou seja, o veículo é muito leve para absorver o impacto do disparo da arma principal.

É por isto que os canhões de 105mm que armam estes veículos são equipados com freios que têm como objectivo reduzir a força de recuo do cano (aquando do disparo). Caso a energia não seja reduzida pelo freio, o impacto será inevitavelmente absorvido pelo veículo, o que, a médio prazo vai afectar a sua integridade estrutural, começando a aparecer fissuras no metal, nos pontos de convergência mais críticos.

Esta é a principal, ou uma das principais críticas que se fazem aos veículos americanos da família STRYKER, muito próximos dos PIRANHA (também oferecidos a Portugal) que parecem ter apresentado problemas de desgaste rápido, que são apresentados como tendo origem na potência excessiva do canhão instalado no veículo.

Mudança:
As informações conhecidas, indicam que o exército português terá não somente abandonado a ideia de colocar a torre proposta no PANDUR-II, como poderá ter pura e simplesmente colocado na gaveta a possibilidade de utilizar o PANDUR-II como plataforma para veículo 8x8 equipado com uma torre de 105mm.

Rooikat da África do Sul: Mais pesado e mais "tanque" mas a origem do veículo é um problema
Esta mudança, leva-nos necessariamente a concluir que neste caso – e estando o exército interessado na aquisição deste veículo – não se apresentam muitas opções.

Basicamente há duas opções válidas:
a) – O Centauro da Itália
b) – O ROOIKAT da África do Sul

A possibilidade de um país da NATO ser equipado com armamentos provenientes de um país africano - pese embora o facto de se tratar de um país com tradição no fabrico de armamentos - poderá apresentar vários problemas, e o reduzido numero de unidades a adquirir não torna rentável a construção de um centro que permita a manutenção eficiente dos equipamentos de forma a garantir uma alta taxa de operacionalidade. No entanto o ROOIKAT, pensado para combater se necessário os tanques russos T-55 em Angola é poderosamente armado e eficiente. Inicialmente foi armado com um canhão de 76mm, baseado no Otto Melara naval de 76mm, dispondo de uma elevada cadência de fogo. Recentemente foi adicionada à gama a versão com torre de 105mm.

A outra opção que se apresenta ao exército, é provavelmente a mais lógica se considerarmos a presente doutrina, que privilegia a cooperação com os países da União Europeia, nomeadamente a Espanha.
Trata-se do CENTAURO italiano, pensado antes do fim da guerra fria como “caça-tanques”.

Centauro: Origem Italiana e utilizado pelos exércitos italiano e espanhol
O Centauro (como o Rooikat) tem uma elevada velocidade em estrada (entre 100 e 110Kmh/, tendo o Rooikat atingido em testes não oficiais os 140Km/h) e é por isso extremamente útil, no caso de existir uma rede viária eficaz. O veículo foi pensado para o exército italiano, ao mesmo tempo que o carro de combate (tanque) Aríete, e as primeiras unidades (de um total de 450) começaram a ser entregues em 1991. É mais leve que o Rooikat (25 toneladas contra 28 toneladas), mas não pode de qualquer forma ser transportado numa aeronave do tipo do Hércules C-130. Esta impossibilidade, aliás, poderá vir a contribuir para justificar o abandono da substituição dos actuais C-130 por aeronaves com características idênticas dado que os Centauro ou os Rooikat, precisam de uma aeronave do tipo do Airbus A-400 para se poderem aerotransportar (Um C-130 transporta até 20 toneladas, contra 38 toneladas de um A-400).

Desta forma, o Centauro aparece-nos como a opção mais lógica, no caso de o exército português - seguindo a sua tradição extremamente conservadora de não apostar em inovação ou em soluções independentes – optar pelo veículo que dará menos problemas.

A aquisição deste tipo de veículo, poderá concorrer ainda para secundarizar mais a importância das forças armadas portuguesas no contexto da União Europeia, cada vez mais consideradas como um braço do exército espanhol, armado com as mesmas armas, e obedecendo ao comando de Madrid.

O areamilitar.net deverá publicar futuramente um comparativo entre o Rooikat e o Centauro equipados com peça de 105mm

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 22.02.2006.


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