Medio Oriente
Geoestratégia

Atacar o Irão: A opção final

por Paulo Mendonça
10.03.2006


À medida que o tempo passa, as opções negociais tendo em vista garantir a utilização civil do urânio do Irão vão-se esgotando. O assunto, já está no Conselho de Segurança das Nações Unidas e daí só pode seguir um de dois caminhos (ou mesmo os dois).

Ou as sanções diplomáticas ou ataques selectivos às instalações nucleares iranianas com o objectivo de as desabilitar.

Se à primeira vista a primeira possibilidade parece a mais lógica e a mais acessível para enviar uma mensagem clara ao Irão sobre as intenções das restantes nações do mundo quanto aos objectivos bélicos daquele país, não é menos verdade que provavelmente esse tipo de acção será contraproducente e de resultados provavelmente duvidosos.

Em Washington vozes como a do vice-presidente Cheney afirmam que a opção militar deve ser utilizada se as pressões diplomáticas ou eventuais sanções falharem, dando a impressão de que em Washington, não se esperará necessariamente pela sequência pressão diplomática – Pressão económica – Pressão militar. Se falhar a pressão diplomática no Conselho de Segurança, não pode ser dado ao Irão, tempo para produzir armas atómicas mesmo durante um período de embargo.

Assim, a opção será não a de decretar sanções, mas a de pura e simplesmente remover o perigo que constitui ter instalações de enriquecimento de urânio sob o controle de um regime nacional-fundamentalista, onde o próprio presidente é visto como um extremista até por parte do clero xiita.

As opções.

Para efectuar um ataque aos vários centros que os iranianos espalharam por todo o país, o principal problema de uma eventual força aérea atacante (norte americana ou outra) são alguns dos sistemas de defesa aérea que o Irão comprou à Rússia e que têm um nível médio de sofisticação.

Estes ataques poderiam ser feitos inicialmente com mísseis que atacassem os radares iranianos, ao que se seguiria um ataque com mísseis como os Tomahawk, conjuntamente com ataques com a utilização de bombardeiros B-2.

A Força Aérea do Irão, poderia nestas circunstâncias efectuar algum tipo de ataque de retaliação, no entanto, a superioridade tecnológica dos Estados Unidos é devastadora, perante aeronaves que em alguns casos estão obsoletas e ainda mais, se a rede de radares de defesa for destruída.

KILO: Os submarinos do Irão serão um alvo prioritário para a marinha americana
Outra das acções que o Irão levaria a cabo, seria a acção naval contra eventuais alvos no golfo pérsico. Para o efeito o Irão dispõe de três submarinos de origem russa KILO-877-E e outros mini-submarinos de origem norte-coreana. No entanto estes submarinos russos, embora sejam relativamente silenciosos, com capacidade para mergulhar até 300 metros de profundidade, têm tecnologia russa dos anos 80, contemporânea da queda da antiga União Soviética. Os navios americanos no golfo pérsico e fora dele, têm mantido uma estreita vigilância destes submarinos e eles serão sem dúvida os primeiros alvos de um ataque. Nada se moverá no golfo pérsico até que a capacidade iraniana de desafiar o controlo marítimo americano não seja completamente destruída.

O Irão está portanto relativamente isolado. Em caso de ataque, quer a Rússia quer a China podem protestar veementemente, mas nenhum destes países ajudará activamente o Irão, ainda mais que não é previsível qualquer ataque ao território iraniano por parte de contingentes militares americanos.

Outra das acções que pode ser levada a cabo pelas forças iranianas são acções de desestabilização no Iraque, e mesmo (eventualmente) um ataque àquele país, que pudesse ocorrer na sequência de revoltas da maioria xiita iraquiana, em apoio dos xiitas iranianos contra os Estados Unidos.

Perante estas possibilidades, não é de colocar de fora a possibilidade de um ataque levado a cabo pela força aérea de Israel contra o Irão, como já aconteceu anteriormente relativamente à central nuclear Iraquiana chamada de “Osirak”. Embora as instalações militares do Irão estejam muito mais longe de Israel, a força aérea daquele país está hoje muito melhor equipada, com aeronaves muito mais capazes e de maior alcance.

F-16i (Soufa) um dos braços armados de Israel. Capacidade para armas guiadas a laser e GPS
As aeronaves de Israel, podem mesmo secretamente ser reabastecidas por aeronaves americanas sobre o golfo pérsico, permitindo assim aos aviões de Israel transportar uma maior quantidade de armamento letal, de forma a garantir com um bombardeamento de precisão a destruição de instalações vitais do programa nuclear iraniano.

Israel já afirmou que, considerando a experiência que o país tem no bombardeamento cirúrgico, a destruição dos pontos nevrálgicos do complexo nuclear iraniano será relativamente fácil.

No entanto, os problemas políticos que podem decorrer de uma acção unilateral por parte de Israel, que inevitavelmente terá o apoio tácito dos Estados Unidos também podem ser complexos e no caso de Israel, poderiam ocorrer retaliações.

Também não deverá ser esperada qualquer acção por parte de Israel, antes das eleições de 28 de Março de 2006 e da tomada de posse de um governo saído dessas mesmas eleições.

O Irão, pode apoiar-se ao nível do conselho de segurança na Russia e na China, mas sabe que estará sozinho se a paciência do ocidente se esgotar. O regime do Irão, habituado à retórica dos guardas revolucionários, ainda não conheceu o sabor amargo da derrota militar, depois que conseguiu impor a paz com um Iraque apoiado pelo ocidente durante a guerra nos anos 80. As suas armas são em grande medida eficientes em paradas militares para aumentar o moral da população, mas não estão ao nível das armas dos Estados Unidos ou mesmo de Israel.

O que há a extrair, tanto das posições de Israel como dos Estados Unidos, e dos países da União Europeia, é a clara intenção de não permitir ao Irão o desenvolvimento de capacidades que lhe permitam tomar posse de armas nucleares e desestabilizar ainda mais o médio oriente.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 10.03.2006.


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