Portugal
Força Aérea

Vender parte dos F-16MLU ?

por Paulo Mendonça
29.03.2006


Em meados do mês de Março de 2006, e a propósito da aproximação da discussão da Lei de Programação Militar, foi apresentada publicamente uma proposta por parte de um partido político com representação parlamentar, que propõe a venda de 10 (dez) unidades dos actuais F-16 da Força Aérea Portuguesa.

O partido em causa, apresenta como uma das soluções para reduzir os apertos orçamentais a venda de aeronaves F-16A/B-MLU (a seguir designados por F-16MLU ou apenas MLU), ou seja, com a instalação e incorporação do kit MLU, que as transforma em aeronaves mais modernas.

A vantagem da possibilidade apresentada prende-se com o facto de, procedendo à modernização das aeronaves ser pelo menos em teoria possível efectuar a sua venda no mercado internacional a um preço aproximado do custo da modernização, mantendo assim postos de trabalho na industria nacional. Tal preço deverá roncar os 8 milhões de Euros, o preço que o o Chile pagou por aeronaves idênticas compradas à Holanda.

No entanto, a proposta de venda dos F-16MLU, depara-se com um problema político, que decorre do facto de, sendo aeronaves americanas (20 delas compradas novas na fábrica e outras 20 adquiridas em segunda mão), a sua venda necessitar de autorização do governo norte-americano.

Os potenciais clientes, no entanto, não serão provavelmente países europeus. Parte deles estão envolvidos com custosos projectos de modernização e substituição de aeronaves mais antigas por outras novas, (Eurofighter e Grippen) as quais são mais capazes que os F-16MLU e outros, mais pequenos, não têm recursos financeiros nem dimensão para operar mesmo os 10 F-16MLU que Portugal poderia vender. Entre países com capacidade para adquirir este tipo de aeronave estariam por exemplo a Eslováquia, que ainda opera aeronaves de fabrico russo, mas este país assinou há pouco um contrato para a completa modernização dos seus MIG-29 com equipamentos ocidentais, e outros países como a Roménia foram alvo de propostas para a modernização de MIG-29 para padrões ocidentais. A Eslovénia, parece não ter dimensão para operar uma esquadra de aeronaves como o F-16MLU, uma vez que a sua Força Aérea se resume a aeronaves de asa rotativa e a aviões de transporte.

Em termos de Europa, outros países, ou não têm capacidade para a operação deste avião, ou então não têm necessidade dele, por operarem outros mais sofisticados.

Fora da Europa, os potências clientes, também não abundam, e surge o problema de poder até haver potenciais clientes para a aeronave, mas cuja transação, ao ter que ser autorizada por Washington se tornaria impossível.

A Venezuela, por exemplo, não consegue sequer manter os seus F-16A/B-Block 15 (idênticos aos nossos F-16 não modernizados) no ar, e o governo americano, ainda há pouco proibiu a Espanha de vender aviões C-295 para aquele país da América do Sul.

Outra versão mais próxima é Marrocos, e aqui existe a mais que provável oposição de Espanha, pois embora 10 aeronaves F-16MLU sejam pouco quando comparadas com o arsenal espanhol, aumentariam grandemente as capacidades das forças marroquinas.

É aliás o problema das autorizações de Washington, que leva muitos países a duvidar dos equipamentos americanos, porque se os países da NATO podem dispor das armas sofisticadas que um F-16MLU utiliza, outros países não têm a mesma facilidade, ficando essas armas, (como os mísseis ar-ar AIM-120 AMRAAM) nos Estados Unidos, com o compromisso de serem entregues em caso de necessidade.

Portando, a possibilidade de venda dos F-16MLU, que à partida teria algum interesse (isto se concluirmos que será difícil e demasiado caro completar duas esquadras com 20 aparelhos cada uma) resvala em problemas técnicos e políticos, não sendo a venda viável, sem que exista a autorização respectiva por parte do governo dos E.U.A.

Resta saber se, tomando o governo a decisão de reduzir o numero de F-16MLU a operar, se justifica efectuar a modernização dos últimos 10 aparelhos, ou se os equipamentos já adquiridos deveriam ser vendidos, (não se tocando nas carcaças dos F-16 mais antigos) propondo Portugal o programa de modernização a outras forças aéreas.

No entanto, tal tipo de solução, enfrentará os mesmos problemas políticos que se colocam para os aviões actuais.

Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 29.03.2006.


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