Brasil
Sociedade / Política

Obrigado, Evo Morales

por Elisabeth Koslova
09.05.2006


Sobre a crise com a Bolivia, quais são os números que precisam ser analisados?

1) Cerca de 15% do PIB da Bolívia que é de US$ 9bi, provem da Petrobrás.
2) Pouco mais de 50% do gás consumido no Brasil vem da Bolívia
3) As reservas recentemente descobertas na bacia de Santos são de pelo menos metade das bolivianas e iguais às argentinas e podem tornar o Brasil auto-suficientes.

Quais os cálculos que devemos fazer com estes números?

Primeiro, o quanto o gás boliviano ainda é importante para o Brasil.

Segundo, o quando a atividade econômica não só da Petrobrás é importante (talvez o termo fosse Fundamental) para os bolivianos

Terceiro, por quanto tempo teremos que esperar, até que o gás da Bacia de Santos supra todo o déficit de consumo brasileiro, 4 anos? 10 anos? Não achei este numero.

Por este intervalo de tempo que não sabemos qual é, precisaremos comprar gás da Bolívia, então admitindo que o Brasil é governado por pessoas racionais e que o interesse nacional esta acima de qualquer concessão demasiada a barnabés políticos, o que deveríamos fazer?

Antes de mais nada deixar bem claro para o senhor Morales que ele fez a coisa errada e que este tipo de ação é irreversível, assim como as combalidas economias latino americanas carregam por décadas os efeitos de suas moratórias internacionais, o Brasil precisa deixar claro para o governo boliviano que ele por muito tempo jamais terá qualquer cooperação econômica ou tecnológica na área petrolífera, mesmo que mude de idéia amanhã e devolva as refinarias que ocupou.

Depois é necessário que quase 15 anos tolerando as estripulias de Argentina, Uruguai e Paraguai tenham valido alguma coisa, isolando economicamente a Bolívia no continente.

Também é necessário que as boas relações com o Chile valham de alguma coisa para dificultar qualquer concessão deste pais a seu antigo inimigo a Bolívia.

Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, faltou alguém?

Faltou sim, o mais importante e único que pode fazer algo nesta crise.

É preciso deixar claro para o Sr Hugo Chaves que o Brasil somente aceita conversar sobre o mega gasoduto para escoamento de gás venezuelano, bem como qualquer projeto conjunto, se ele ajudar a fazer com que o Sr Morales desfaça a lambança que aprontou.

A lógica é: Um barnabé só escuta outro barnabé.

Morales e Chavez cada um ao seu estilo, como se diz na gíria futebolística, “jogam para a torcida”.


Chavez elegeu o grande satã do norte como a causa dos problemas de seu pais, mas tem sua economia apoiada na venda de petróleo para “o grande satã”, com o preço do petróleo em alta e com o Irã na mira, os EUA não iriam perder tempo boicotando o petróleo venezuelano.

Esta talvez seja a grande diferença entre ambas as culturas.

Os americanos são racionais e pragmáticos a ponto de avaliarem Chavez como um “carcareco” que eles podem aniquilarem econômica e militarmente quando passar realmente a incomodar, mas que por enquanto é mais útil do que atrapalha.

Os latinos americanos, tolos e emotivos em seus discursos anti americanos mas não se importam com seus governos corruptos e seus sistemas políticos antiquados, transferem a culpa de sua miséria a terceiros.

Assim como Chavez, Morales também elegeu seus satãs, mas como não passa de um “genérico de Chavez” elegeu o satã errado, o setor petrolífero, que é justamente aquele que pode dar sustentação a todo demagogo que chega ao poder seja na AL ou Oriente Médio.

Quando os dólares da petroquímica começarem a faltar nas contas de seu governo, Morales vai precisar consertar o que estragou, e ai entra Hugo Chavez.

Com a sua sede de holofotes, agindo como um grande líder político no continente – que pensa que é- , não seria surpresa para mim se dentro em breve Morales e Chavez apareçam na TV abraçados dizendo que a Petrobrás é sim “una empresa hermana” e que “los ideales bolivarianos sono tambiem de los brazilenhos”

Como se tudo não passasse de um grande engano, como se tudo fosse reversível.

Quais as lições disto tudo para mim:

-Se o Brasil não conseguir unir ao menos os paises do Mercosul para pressionar a Bolívia em torno desta questão, esta é uma ótima oportunidade para avaliarmos se vale realmente a pena ter parceiros como Argentina, Paraguai e Uruguai.

-Se o governo brasileiro concordar em participar de programas conjuntos de exploração de gás com a Venezuela estará cometendo os mesmos erros que cometeu com a Bolívia.

- Caso o governo brasileiro não acelere ao Maximo as obras de exploração de suas novas reservas de gás, estará dando mostras mais uma vez de que no Brasil não existe visão estratégica alguma.

- Se não houver uma ação firme do governo brasileiro nesta questão estaremos mais uma vez provando que não existem em política externa a figura do “líder bonachão”, que infelizmente para o Itamaraty nem tudo (ou quase nada) se resolve com Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu disputando partidas de futebol em paises em convulsão social.

Esta é a hora de tirarmos a prova dos 9, se o Brasil é realmente um candidato a player econômico e político internacional ou se somos tão parecidos com os demais paises sul americanos como sempre fomos relutantes em admitir.

Este é um momento da verdade, obrigado Morales por nos propiciá-lo.

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Este texto é da autoria de Elisabeth Koslova e foi publicado em 09.05.2006.


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